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Ex-presidente da Tunísia é condenado à prisão perpétua por mortes em 2011

Um tribunal militar tunisiano condenou nesta quarta-feira o ex-presidente Ben Ali à prisão perpétua por seu papel na sangrenta repressão em Thala e em Kasserine em janeiro de 2011, mas absolveu antigos pilares do Ministério do Interior, provocando a ira das famílias das vítimas.

O veredicto deste caso extremamente sensível, julgado há seis meses no tribunal militar de Kef (oeste), era aguardado há semanas e é anunciado em um contexto extremamente tenso na Tunísia, onde oito regiões estão sob cessar-fogo após uma onda de violência registrada na segunda e na terça-feira.

A pena capital tinha sido solicitada contra o presidente deposto, refugiado na Arábia Saudita e julgado com outros 22 membros de seu governo pela morte de 22 pessoas, assassinadas entre 8 e 12 de janeiro de 2011 no auge da repressão ao levante popular que derrubou Ben Ali.

Penas indo de 8 a 15 anos de prisão foram pronunciadas contra outros acusados, julgados por homicídios dolosos ou por cumplicidade. Mas o tribunal também pronunciou dez absolvições, para o desespero das famílias das vítimas presentes na audiência.

“Vingança! vingança!” gritavam as famílias, obrigando o presidente do tribunal a interromper o pronunciamento da sentença do julgamento, contou à AFP Abdelkarim Maghouri, um advogado presente na audiência.

“O juiz tinha que pronunciar a pena de morte para todos os acusados!” reagiu Wasfi Seihi, primo de Wajdi, um jovem morto em Thala.

“Temo que esse julgamento crie problemas”, declarou à AFP Anwar el-Bassi, um dos advogados das famílias, ressaltando que “dois antigos pilares das forças de ordem”, particularmente insultados pelas famílias das vítimas, tinham sido absolvidos.

Eles são Moncef Krifa, ex-diretor geral do Ministério do Interior, principal instrumento de repressão do governo Ben Ali, e Moncef Laajimi, ex-chefe das Brigadas Anti-Motim (BOP, siglas em francês).

Eles responderam ao processo em liberdade, para o desespero das famílias que os acusaram de estarem diretamente na origem dos ataques mortais. Além disso, Moncef Laajimi permaneceu em seu posto um ano após a revolução. Quando o ministro do Interior, Ali Larayedh, tentou derrubá-lo em janeiro, ele teve que enfrentar a ira dos policiais e Laajimi foi apenas transferido.

“Qual magistrado podia enfrentar um homem que tem 3 ou 4000 policiais por trás dele?”, se perguntou El-Bassi, retomando a crítica recorrente segundo a qual a justiça militar não consegue enfrentar as pressões da temível máquina policial, ainda intacta após a revolução.

Como resposta a essas críticas, o juiz do tribunal de Kef, Chokri Mejri –um civil–, afirmou antes de pronunciar seu veredicto: “Tentamos pronunciar um julgamento justo, e não recebemos pressão alguma de nenhuma instituição. Deus e nossa íntima convicção foram nossos únicos guias”.

Mas ele não convenceu as famílias e seus advogados, que acreditam ter sido privados da verdade.

“Não queremos piedade. Dediquei todo o meu tempo em um ano e meio à busca da verdade e hoje ainda há questões que me queimam e que estão sem resposta”, havia afirmado recentemente à AFP Helmi Chniti, irmão de Ghassen, morto em 8 de janeiro em Thala.

Ao longo de todo o processo, nenhum dos réus reconheceu ter dado a ordem de atirar nos manifestantes. Cada um jogou a responsabilidade em uma “célula de monitoramento de segurança”, ou na “sala de operação” do Ministério do Interior, sem mencionar nomes.

Em outro caso, o tribunal militar de Túnis condenou no início desta quarta-feira Ben Ali a 20 anos de prisão por “incitação à desordem, assassinatos e saques em território tunisiano”. Esse caso incluía a morte de quatro jovens, assassinados a tiros em Ouardanine (leste) em meados de janeiro, durante o caos que se seguiu à fuga do presidente tunisiano para a Arábia Saudita.