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Em luto, África do Sul presta homenagens a Nelson Mandela

Sul-africanos fazem vigílias em frente a casas em que viveu o ex-presidente, morto nesta quinta-feira. Cerimônias fúnebres devem durar doze dias

Por Da Redação 6 dez 2013, 07h17

A África do Sul é uma nação de luto: desde a madrugada desta sexta-feira milhares de pessoas prestam suas homenagens a Nelson Mandela, morto na quinta-feira, aos 95 anos. Em Soweto, Johannesburgo, sul-africanos realizam vigílias diante da casa em que o líder que guiou a África do Sul de uma ditadura segregacionista para uma democracia multirracial morou. As pessoas rezam, acendem velas, cantam e dançam. Por toda a capital, Pretória, bandeiras se espalham pelas ruas. Segundo informações do jornal britânico The Guardian, o governo do país planeja cerimônias fúnebres ao longo dos próximos doze dias em memória de Mandela. Figura inspiradora por sua incansável resistência ao regime racista do apartheid,Mandela construiu um dos mais belos capítulos da história do século XX ao se tornar o primeiro presidente eleito democraticamente na África do Sul, depois de passar 27 anos preso por sua oposição à ditadura.

A despedida ao ícone da luta contra o apartheid será o maior evento da história da África do Sul. A TV estatal SABC já avisou que fará a cobertura ao vivo de todos os atos relacionados à morte de Nelson Mandela “nas próximas duas semanas”. O presidente Jacob Zuma, ao anunciar a morte em um pronunciamento transmitido pela televisão, disse que Madiba “terá funerais de Estado” e que as bandeiras do país permanecerão a meio mastro a partir desta sexta-feira até a realização do enterro.

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A primeira entrevista de Nelson Mandela à TV

https://youtube.com/watch?v=jpw8AU3wMsM

Com o fim do apartheid, Mandela discursa a multidão

https://youtube.com/watch?v=xZ9KlXCkb2s

Nelson Mandela é eleito presidente da África do Sul

https://youtube.com/watch?v=5Zh8otC-c3s

Mandela discursa na Universidade de Harvard

Mandela anuncia aposentadoria da vida pública

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A rede americana CNN informou que haverá cerimônias públicas e privadas em homenagem ao prêmio Nobel da Paz. Segundo a CNN, o corpo será encaminhado a um hospital militar para ser embalsamado. A TV também cita, em sua página na internet, a organização de uma cerimônia fúnebre no estádio Soccer City, em Johannesburgo, onde foi disputada a final da Copa do Mundo de 2010. Citando fontes do governo sul-africano, acrescenta que o corpo será levado para a sede do governo em Pretória e, finalmente, para Qunu. Mandela nunca deu instruções exatas para seu funeral. Apenas indicou o desejo de ter uma cerimônia singela nesta aldeia para a qual se mudou quando ainda era criança.

A estrutura prevista para a despedida ao líder sul-africano, porém, passa longe da simplicidade. O Guardian destaca que o funeral de Mandela deverá rivalizar com o do papa João Paulo II em 2005, ao qual compareceram cinco reis, seis rainhas, setenta presidentes e primeiros-ministros, além de 2 milhões de fiéis. Às cerimônias dedicadas a Mandela, todos os ex-presidentes americanos vivos devem comparecer, além de chefes de estado e muitas celebridades. (Continue lendo o texto)

Vídeo: Músicas em homenagem a Nelson Mandela

“Tudo isso significa um planejamento sem precedentes e um pesadelo de segurança para a África do Sul”, destaca o jornal, citando um documento do governo sul-africano que prevê atividades para um período de doze dias. “Apesar de o documento ter sido elaborado mais de um ano atrás e possa ter sido revisto, é uma amostra de como as autoridades se prepararam para um momento único”. O governo sul-africano criou uma página na internet específica para publicar os avisos relacionados ao funeral de Mandela. Por enquanto, o texto diz apenas que cerimônias serão realizadas em vários locais “para dar a todos a oportunidade de participar”.

Uma avalanche de tributos se espalhou pelo mundo em homenagem a Mandela, que estava doente há quase um ano. A saúde do líder sul-africano vinha se deteriorando nos últimos dois anos, principalmente por causa da infecção pulmonar – resquício de uma tuberculose contraída na prisão. O ex-presidente esteve internado em um hospital de Pretória por quase três meses, entre junho e setembro, respirando com a ajuda de aparelhos. No início desta semana semana, a filha mais velha de Mandela, Makaziwe, disse que seu pai estava lutando “em seu leito de morte“. “Cada momento, cada minuto com ele me assombra. Às vezes não acredito que sou filha desse homem que é tão forte, tão lutador”, afirmou, em entrevista à TV estatal.

Para a África do Sul, a perda de seu líder mais amado ocorre em um momento em que a nação, depois de ganhar reconhecimento global com o fim do apartheid, vive crescentes conflitos e protestos contra serviços precários, pobreza, criminalidade, desemprego e escândalos de corrupção que atingem o governo de Zuma. Ao acordar nesta sexta para um futuro sem Mandela, alguns sul-africanos reconhecem temer que a morte do herói possa deixar o país vulnerável a tensões raciais e sociais que ele lutou tanto para combater. O dia nasceu e as pessoas saíram de casa para o trabalho na capital, Pretória, em Johanesburgo e Cidade do Cabo, mas muitos ainda estavam em choque pela morte do homem que foi um símbolo mundial da reconciliação e da coexistência pacífica.

“Não vai ser bom. Eu acho que vai se tornar um país mais racista”, disse Sharon Qubeka, 28 anos, uma secretária da comunidade de Tembisa, que se dirigia ao trabalho em Johanesburgo. “Mandela era o único que mantinha as coisas unidas”.

Leia no blog De Nova York, por Caio Blinder:

​Nelson Mandela, uma lenda viva, partiu aos 95 anos de idade, em meio a uma longuíssima expectativa global. Ele era apenas um gigante, não um santo milagreiro, curandeiro das mazelas sul-africanas. Mandela fez a sua imensa e generosa parte. Trata-se de uma lição para a humanidade. Ele deu um senso de propósito para o país, tanto na era pós-apartheid, como na penosa negociação para que o regime racista fosse enterrado da forma menos sangrenta possível. Mandela negociou com os algozes brancos. Seu espírito de reconciliação racial e sabedoria política acalmaram não apenas a minoria branca, mas a maioria do país.

Mandela tinha credibilidade. Ele fizera sua própria transição de líder de um movimento de resistência (que inclusive apelava para o terrorismo) a pai da nação. De origem aristocrática, Mandela era o que África do Sul tinha mais de próximo de rei. Ele deu este senso de propósito ao país, mas sabia que não seria possível um projeto nacional meramente em torno dele. Não é à toa que sua opção foi por apenas um mandato presidencial (1994 a 1999). A rigor, Mandela nunca foi um presidente executivo. Ele tinha este papel monárquico.

(Com agência Reuters)

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