Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

…E ela resiste

Theresa May perdeu mais uma no Parlamento, mas sobreviveu e continua em busca de um divórcio amigável entre o Reino Unido e a União Europeia

Sentada em sua poltrona no Palácio de Westminster, a sede do Parlamento britânico, a primeira-ministra Theresa May enfrentou dois dos dias mais atribulados de sua vida pública. Na terça 15, como todo mundo previa, uma nova proposta de acordo para o Brexit, o divórcio entre o Reino Unido e a União Europeia (UE), foi rejeitada por maioria acachapante. No dia seguinte, foi a vez de os assoberbados parlamentares votarem uma moção de censura movida pela oposição trabalhista com o objetivo de derrubar a primeira-ministra e convocar novas eleições. May saiu vencedora por uma maioria perigosamente estreita — 325 contra 306, vantagem de apenas dezenove votos. Ao fim de tantas emoções, a primeira-­ministra, encarnação da resiliência pela excepcional capacidade de sofrer derrotas e não se dar por vencida, ficou no mesmo lugar onde estava: em um beco sem saída.

O acordo para o Brexit bateu o recorde de votos contra no Parlamento, que há quase um século pertencia ao primeiro-­ministro trabalhista Ramsay MacDonald. Em 1924, a desistência de Mac­Donald de processar um jornal foi derrubada pela alarmante diferença de 166 votos. A proposta de Brexit apresentada por May caiu por uma diferença estrondosa de 230 votos — foram 432 contrários e apenas 202 a favor. “Foi uma derrota humilhante. Afinal, o poder de um primeiro-ministro vem de um Parlamento que o apoie”, diz Pavlos Eleftheriadis, professor de direito público na Universidade de Oxford. Nem a derrubada da moção de censura foi uma vitória plena. “May sobreviveu porque seus partidários não querem novas eleições nem correr o risco de os trabalhistas ganharem”, diz o cientista político Richard Johnson, da Universidade Lancaster.

Faltando dez semanas para a data marcada para o divórcio, 29 de março, May não tem perspectiva de pôr de pé o acordo pelo qual vem trabalhando desde o dia inaugural de seu governo, iniciado logo depois da aprovação do Brexit em um plebiscito apertado, em 2016. O ponto mais debatido é o chamado backstop, uma cláusula para evitar que a fronteira entre a Irlanda do Norte (que faz parte do Reino Unido e sairá da UE) e a República da Irlanda (que é independente e continuará no bloco) seja fechada e desperte velhas tensões nacionalistas. O meio-­termo que May alinhavou colocaria o Reino Unido em um regime especial de livre-comércio com a UE por prazo indeterminado, até uma solução definitiva — caldo intragável para os brexitistas linha-dura, que não admitem concessões na separação. Nesta altura do jogo, porém, o backstop se tornou uma desculpa para facções internas no Partido Conservador continuarem se engalfinhando.

Basicamente, o Parlamento hoje se divide em três grupos independentes das denominações partidárias. De um lado estão conservadores e um ou outro trabalhista que quer o Brexit de qualquer jeito, mesmo sem acordo — uma saída que provoca arrepios, pelo tamanho do nó que causaria no comércio, nos aeroportos, nas movimentações financeiras. De outro, estão muitos conservadores e diversos trabalhistas que aceitam o Brexit, que afinal foi aprovado pela população, mas fazem questão de que antes se chegue a um acordo sobre sua implantação. Na terceira ponta ficam os muitos trabalhistas e alguns conservadores que são contra o Brexit e ponto.

O que virá agora ninguém sabe. May tem até a segunda 21 para apresentar um novo acordo, mas o resultado, calcula-se, será mais do mesmo. A médio prazo, a primeira-ministra pode tentar atrair os trabalhistas para seu lado e até ver alguma proposta aprovada, mas ela mesma dificilmente sobreviveria no governo diante de tal traição. O Parlamento pode tomar para si as rédeas do processo e tentar implantar medidas para conter desde já os danos de uma saída unilateral, providência que já é defendida por um grupo político, mas tropeça no fato de que a maioria da Casa não quer nem pensar em um Brexit sem acordo.

A possibilidade de um segundo plebiscito está no ar, com todas as complicações de rever uma decisão popular. Ele pode ser proposto por May, disfarçado de consulta popular para seu acordo, ou pelos trabalhistas, sob o argumento de que só agora os britânicos tomaram consciência das consequências da separação. Uma opção paliativa, que vem ganhando força, é propor à União Europeia adiar o início do Brexit por alguns meses — May rejeita, mas pode ser obrigada a aceitar. Por último, os dois desfechos radicais: 1) o Reino Unido comunica à União Europeia que não vai mais sair; e 2) em 29 de março o divórcio acontece e seja o que Deus quiser.

Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2019, edição nº 2618

Envie sua mensagem para a seção de cartas de VEJA
Qual a sua opinião sobre o tema desta reportagem? Se deseja ter seu comentário publicado na edição semanal de VEJA, escreva para veja@abril.com.br