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É a direita o dragão da maldade?

Depende de quem melhora mais ou piora menos a vida das pessoas

Com muita paciência, cristã ou não, alguns abnegados enfrentaram a ínte­gra dos sermões do arcebispo Orlando Brandes durante o dia consagrado a Nossa Senhora Aparecida. Algumas conclusões: o bom homem tem obsessão por lepra, doença mencionada quase uma dezena de vezes, e por dragões. Tudo naquela voz típica de bispo de Santa Catarina que levou alguns céticos, não brasileiros, a perguntar se o atual sínodo no Vaticano é sobre a situação nas imensidões do Rio Amazonas ou do Reno. Embora as referências fossem mais à guerra das batinas, entre a maioria progressista e a minoria tradicionalista da Igreja, o arcebispo teve o mérito, ainda que involuntário, de reacender um debate eterno. É mesmo a direita “violenta e injusta”, segundo ele disse? Nesse caso, tem a esquerda a superioridade moral em matéria de compaixão, paz e justiça?

Se existissem respostas finais, prontas e acabadas, fora dos manifestos ideológicos, nem valeria a pena fazer a pergunta. Em nome da simplificação do debate, podemos substituir os termos por capitalismo e socialismo. Antes, e em nome da mais elementar fidelidade histórica, é preciso lembrar que a ultradireita — a de Franco, Mussolini, Hitler e dragões dessa estirpe — não tinha nenhuma simpatia pelo liberalismo, entendido como a conjunção carnal e obrigatória de liberdade econômica com democracia (sim, aquela mais burguesinha do que a música de Seu Jorge).

“Tem a esquerda a superioridade moral em matéria de compaixão, paz e justiça?”

A ideia de que a esquerda ajuda mais os pobres e a direita favorece mais os ricos não só é profundamente entranhada, seja qual for o julgamento da história, como está vivendo um replay. E bem no coração do capitalismo. Se Donald Trump se atolar no pantanal do impeachment e levar junto Joe Biden, por causa de um filho excessivamente favorecido, não será um absurdo conceber que Elizabeth Warren seja eleita presidente dos Estados Unidos. A candidata é simpática às ideias do neomarxista francês Thomas Piketty e propõe imposto progressivo sobre fortunas, mais sufoco para a classe média, desvalorização monetária e suspensão imediata do fracking, a extração de gás de xisto. Se pode fazer isso tudo é outra coisa.

Liz Warren acha, como toda a esquerda, que o grande problema é a desigualdade de renda. Quer reconstruir o capitalismo. Ou refundar ou algu­ma outra palavra que evoque o bolivarianismo chique dos que acreditam que o mundo nunca esteve tão ruim, talvez até nos estertores finais. É possível usar o argumento exatamente oposto: o mundo, em geral sob alguma forma de livre empreendedorismo, nunca esteve tão bom. Nas palavras de Greg Ip, comentarista econômico do Wall Street Journal: “Durante a maior parte da história conhecida, a humanidade viveu à beira da inanição. Até tão recentemente quanto os anos 80, quase metade do mundo vivia em pobreza extrema. Hoje, a projeção da proporção de pessoas em pobreza extrema caiu para 8,6% (em 2018) e, devido à correlação entre crescimento e pobreza, deve ficar mais baixa ainda neste ano”.

Aos trancos e, para os mais excluídos, barrancos quase intransponíveis, sem compaixão nem pretensão de reformar os humanos ou promover o reino da justiça na terra, a coisa vai indo. Para desgosto de bispos intoxicados pelo pecado da ira.

 

Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2019, edição nº 2657