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“Devemos sempre trazê-los de volta”, diz especialista sobre soldados que caem nas mãos do inimigo

A regra vale mesmo para quem desertou, como o americano que foi refém do Talibã e agora responderá na Justiça Militar por má conduta e deserção, segundo o advogado e ex-fuzileiro naval Daniel Conway

A libertação do sargento americano Bowe Bergdahl, no dia 31 de maio de 2014, foi comemorada como uma vitória da Casa Branca. O militar havia sido capturado pelo Talibã afegão e entregue ao grupo Haqqani, que o escondeu, torturou e divulgou vídeos para aumentar o valor do resgate. A estratégia deu certo e os terroristas conseguiram a libertação de cinco membros da alta cúpula Talibã que estavam na prisão de Guantánamo, em Cuba. Os cinco foram recebidos como heróis no Catar – sem qualquer garantia de que não voltarão a planejar e executar ataques.

Quando Bergdahl foi solto, a Conselheira de Segurança Nacional, Susan Rice, disse que ele havia servido com “honra e distinção” os americanos. Mas já existiam relatos que provavam o contrário. Nove meses depois, o governo está sendo obrigado a reconhecer que Bergdahl não é exatamente um herói.

As investigações dos militares americanos levam a crer que ele planejou a deserção. Em cartas que escreveu para a família antes de desaparecer, o militar já demostrava decepção com o serviço militar. “A vida é muito curta para perdê-la com a condenação dos outros”, escreveu aos seus pais. No dia 30 de junho de 2009, ele deixou seu posto com uma mochila leve, água, facas e um computador portátil. Bergdahl colocou em risco sua unidade, que precisou ocupar-se de tentar resgatá-lo e perdeu seis soldados nas buscas. De New Hampshire, o advogado especialista em direito militar e ex-fuzileiro naval Daniel Conway conversou com VEJA sobre o caso:

Bergdahl pode ser condenado por deserção e má conduta diante do inimigo. Essas acusações são comuns? Mau comportamento diante do inimigo é uma falha grave e me surpreendeu vê-la nesse caso. Isso sugere que o exército está tentando argumentar que a deserção aconteceu circunstâncias que colocaram a unidade em perigo. Saberemos se isso é real ou não quando ouvirmos a versão do acusado e seus motivos.

O militar pode pegar até prisão perpétua. Não seria um castigo muito severo para quem esteve em cativeiro e foi torturado? Tenho certeza que quem determinar a pena levará isso em conta. Baseado em experiências passadas, acredito que ele seja sentenciado a até dois anos de prisão, como no caso de Wassef Hassoun, que desertou no Iraque. É uma sentença apropriada e que deve se repetir.

O senhor acha que a Casa Branca errou em trocar valiosos terroristas por um desertor? Aprecio o elevado valor que damos aos nossos militares. Nós os enviamos e devemos sempre trazê-los de volta. O preço pago por ele é justificado. O problema foram os comentários da Casa Branca. Parece que eles não tinham todas as informações em mãos antes de comentar publicamente o serviço do sargento. Agora, eles foram forçados a voltar atrás nesses comentários. Mas isso não muda o fato de que a decisão de trazê-lo para casa foi acertada. Muita gente está criticando essa decisão. Não eu.

A deserção é uma infração perigosa, certo? Sim, principalmente quando acontece durante o combate. Essa atitude pode colocar em risco toda a unidade que deve resgatar o desertor. O detalhe, que torna o caso de Bergdahl tão emotivo, é que sangue americano foi derramado para tentar salvá-lo.

Uma das principais provas sobre as intenções de Bergdahl será seu diário pessoal, que parece demonstrar seu estado emocional instável. O exército não falou em detectar o problema e trazer o sargento para casa antes que ele abandonasse o posto? Os escritos no diário servirão para determinar se ele deixou o posto temporariamente ou se pretendia desertar. Ainda não foi encontrada uma solução em nenhum exército do mundo para identificar um militar que esteja com problemas mentais e psicológicos de maneira eficaz, para que se possa tratá-lo antes que ele represente um perigo para si mesmo ou para os outros combatentes.