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Destruição em massa

A sensação de poder torna difícil enfiar o gênio de volta no celular

Por Vilma Gryzinski - 26 out 2018, 07h00

Todo poder emana do povo e por ele é exercido com o zap-zap na mão. Se não é assim na Constituição, justamente para evitar os perigos da democracia direta e, no extremo, a lei da turba, tem sido cada vez mais na realidade. Euforia, orgulho e, na horrível tradução literal do inglês, empoderamento acompanham quem de repente descobriu que o mais normalmente ignorado dos cidadãos pode disparar algumas dezenas de zaps por dia e produzir prodígios nas urnas. Talvez por isso seja difícil para muitos entender a sedução das fake news sobre seus propagadores voluntários — os profissionais estão na alçada do crime. Sabem perfeitamente que são fake, mas gostam delas mesmo assim. E ajudam a onda expansiva com o objetivo nada secreto de detonar o adversário. Alguém acreditou seriamente que Manuela d’Ávila se declarou mais importante do que Jesus, ou que Jair Bolsonaro disse que se alistaria no Exército nazista?

A eleição do zap-zap pode ser, assim, um dos desdobramentos do que Moisés Naím chama de o fim do poder, título que deu a um livro de 2013. Como judeu nascido na Líbia em uma família que emigrou para a Venezuela, onde foi ministro antes de seguir carreira brilhante nos Estados Unidos e virar um profeta dos males do chavismo, Naím tem uma boa ideia das guinadas e da precariedade inerentes da história. Segundo ele, o poder é cada vez mais fraco, mais transitório e mais limitado. O confronto entre seus detentores tradicionais e o que Naím chama de micropoderes resulta, entre outros fatores, de duas revoluções, a da mobilidade e a das expectativas crescentes. Ambas praticamente resumem o que está acontecendo no Brasil.

Essa fragmentação produz tumultos e instabilidade, é explorada por atores mal-intencionados e muitas vezes deixa os bem-intencionados pálidos de espanto. Se alguém tem esperança de um detox pós-eleitoral, basta olhar para os Estados Unidos para perdê-la imediatamente. O bioma político está mais tóxico ainda do que quando Donald Trump foi eleito. Xingamentos e até agressões tornaram-se parte da paisagem nas mãos de exaltados armados com Twitter, Facebook e correlatos, os gênios de furor medieval que os gênios da era digital tiraram da garrafa e não conseguem colocar de volta, por mais algoritmos e checagens que inventem. Na França, Emmanuel Macron capturou o espírito do tempo para se eleger presidente sem um partido tradicional, mas não suas nuances. Queria, segundo suas próprias e exibicionistas palavras, exercer o poder como Júpiter no Olimpo, mas as trovoadas que solta soam fraquinhas. O guarda-costas flagrado surrando manifestantes como se fosse policial e não existissem celulares onipresentes deixou-o em posição ridícula. Sorte que Macron tem uma oposição à altura. Depois de peitar, literalmente, um procurador e policiais que faziam busca na sede de seu partido de extrema esquerda (pelos motivos de sempre: suspeita de superfaturamento em despesas eleitorais), Jean-Luc Mélenchon quis se passar por mártir, comparando-se a Lula. Não deve ter entendido a essência da frase que virou arma digital de destruição em massa. Lula está preso, boboca.

Publicado em VEJA de 31 de outubro de 2018, edição nº 2606

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