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Crise no Equador: a história se repete

Uma onda de manifestações desencadeada pela subida no preço da gasolina incendeia o país, onde três presidentes já caíram em protestos do gênero

A decisão-surpresa do presidente do Equador, Lenín Moreno, de transferir temporariamente a sede do governo da rarefeita Quito, a 2 800 metros de altitude, para a aprazível Guayaquil, na costa do Pacífico, não teve nada a ver com o ar fresco do litoral. Moreno e seus ministros querem é estar bem longe da onda de manifestações que cercou os prédios do Executivo e demais poderes da República em Quito e culminou em uma greve geral. Convocados pela poderosa Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie), entidade que reúne os grupos indígenas do país (25% da população), os protestos paralisaram as grandes cidades. Na terça 8, aos gritos de “Fora, Lenín” (que, apesar do nome, milita no conservadorismo), manifestantes invadiram a Assembleia Nacional por alguns instantes, mas foram dispersos por bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia. Até a quinta-feira 10, o saldo era de dois mortos e mais de 500 presos.

O tumulto começou com uma greve de caminhoneiros (sim, lá também), revoltados com o aumento de 120% nos preços da gasolina e do óleo diesel. A alta foi provocada pela retirada de subsídios em vigor há quarenta anos, parte de um pacote de austeridade acordado com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para a liberação de um empréstimo de 4,2 bilhões de dólares que se destina a estancar o déficit orçamentário. O descontentamento foi se estendendo a outros setores e culminou na ocupação de Quito. O presidente, em declaração lida na TV, responsabilizou seu antecessor (de quem foi aliado na esquerda, mas com quem rompeu ao mudar de lado), Rafael Correa, por orquestrar um golpe insuflando as manifestações, mancomunado com o ditador Nicolás Maduro, da Venezuela. Governos de sete países latino-americanos, entre eles o Brasil, assinaram uma nota condenando Maduro. Correa, que é casado com uma belga e vive autoexilado em Bruxelas, negou tudo. Se o passado serve de lição, o governo corre mesmo perigo: a Conaie esteve por trás da queda de três presidentes recentes.

Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2019, edição nº 2656