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Como o governo chinês calou as manifestações populares em Hong Kong

Com reformas no sistema eleitoral e uma draconiana lei de segurança, protestos por mais democracia foram silenciados

Por Julia Braun Atualizado em 9 abr 2021, 19h49 - Publicado em 9 abr 2021, 06h00

Símbolo de prosperidade econômica, a ilha de Hong Kong sempre foi um parafuso capitalista na vasta engrenagem da China comunista. Para chegar a isso, usou e abusou de sua condição de território semiautônomo, estabelecida no acordo de transição de cinquenta anos firmado em 1997, quando o Reino Unido devolveu sua possessão ao governo chinês. Cumprido quase metade do prazo, a população jovem de Hong Kong, criada sob a constante ameaça de um bote definitivo do dragão continental, resolveu pôr em marcha, em 2019, um movimento em prol da garantia antecipada de democracia, seja por decreto de Pequim, seja pela independência pura e simples. A máquina liderada pelo presidente Xi Jinping demorou a reagir, ciosa de sua imagem em plena investida para ascender a potência planetária. Quando o fez, porém, foi com o impacto de uma marretada. Aproveitando as fragilidades impostas pela pandemia, deslanchou uma série de medidas draconianas que tiraram os estudantes das ruas, esmigalharam a oposição e, no fim de março, reformaram o Legislativo de forma a nunca, jamais, aprovar nada que Pequim não queira.

Sem nenhuma consulta prévia ao Conselho Legislativo (chamado de LegCo), o Parlamento local de setenta cadeiras, o governo central reduziu a apenas um terço, em vez de metade, o número de conselheiros eleitos em votação direta, o que na prática inviabiliza a oposição. A reforma também prevê a criação de um comitê que examinará todas as candidaturas a cargos políticos, com poderes para barrar aqueles que considere ameaças à segurança nacional, críticos das autoridades de Pequim ou “insuficientemente patriotas”. A drástica mudança do sistema político foi adotada durante o encontro anual da Assem­bleia Nacional Popular (ANP), a poderosa máquina legislativa do Partido Comunista da China. Na assembleia anterior, em julho passado, os aliados de Xi Jinping assentaram o primeiro golpe na semiautonomia de Hong Kong, ao aprovar uma lei de segurança que prevê longas penas de prisão a qualquer atividade qualificável como “subversão ou sedição”. Resultado: do dia para a noite, os milhares de manifestantes que tomavam as ruas todos os fins de semana, enfrentando a brutal repressão policial, desapareceram tanto dos protestos quanto das redes sociais usadas para convocá-los.

A mesma lei foi usada para expulsar quatro deputados do LegCo apontados como “ameaças”, levando à renúncia em bloco de outros quinze legisladores em novembro. Mais recentemente, nove veteranos ativistas pró-­democracia foram julgados culpados de organizar as manifestações que mobilizaram a população entre 2019 e 2020 e aguardam sua sentença, que pode chegar a dez anos de prisão. Entre os réus está o proeminente advogado e ex-deputado Martin Lee, de 82 anos, um dos autores da Lei Básica, a miniconstituição que instituiu o conceito de “um país, dois sistemas” que Pequim agora se empenha em desmantelar. Poucos são os militantes que ainda se pronunciam publicamente contra o governo central, e professores universitários e acadêmicos recusam com frequência ofertas de entrevistas ou participação em eventos internacionais. “Não há muito que possamos fazer neste momento para mudar as decisões”, lamenta Lo Kin-­hei, líder do Partido Democrático.

Por mais que esteja decidido a fincar as garras nos destinos de Hong Kong, o governo chinês tomou o cuidado de baixar um arremedo de legislação para desmantelar a oposição porque não quer perder a confiança dos muitos investidores que atuam na sua metrópole mais cosmopolita. “A repressão violenta afetaria a ambição da China de se projetar como potência econômica. O governo sabe que há outras formas efetivas de calar a população”, diz Victoria Hui, cientista política da Universidade Notre Dame. Sem produzir quase nada, mas fiel à política de baixos impostos, facilidades contábeis e mercado aberto, o território se tornou uma potência financeira, sede da divisão asiática de quase todos os grandes conglomerados e um dos dez centros mais ativos de exportações e importações do planeta. A turbulência política já havia levado a uma retração do PIB de 1,3% em 2019, que a pandemia ampliou para uma queda histórica de 6,1% em 2020. Mas com a suspensão do isolamento social mais rígido, bem como um firme controle dos contágios, Hong Kong vislumbra um início de recuperação e retomada dos investimentos estrangeiros. É a janela da China para o Ocidente reabrindo, agora livre do incômodo barulho por mais democracia.

Publicado em VEJA de 14 de abril de 2021, edição nº 2733

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