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Britânicos seguem empacados nos problemas do Brexit

Burocracia nas fronteiras, negócios prejudicados e a Irlanda do Norte em polvorosa são alguns dos efeitos da ressaca pós-separação

Por Julia Braun Atualizado em 23 abr 2021, 09h49 - Publicado em 22 abr 2021, 19h47

Não foi por falta de aviso. No marco dos 100 dias depois da saída da União Europeia, o Reino Unido amarga a rota dos perrengues anunciados, ainda agravados pelos longos meses de imobilidade global: burocracia nas fronteiras, queda de exportações, fuga de empresas e, como todo mundo sabia, explosões na sempre volátil Irlanda do Norte. A seu favor, o governo de Boris Johnson, vigoroso entusiasta do Brexit, tem o sucesso de uma campanha de vacinação bem planejada e bem executada, o que vem permitindo a reabertura de negócios e uma invejável dianteira na recuperação econômica, em comparação com os ex-colegas da União Europeia — onde a imunização é lenta, o contágio permanece alto e os lockdowns ainda predominam. A vantagem, no entanto, perde brilho se o reino não tem com quem negociar os ambiciosos acordos comerciais bilaterais que, em tese, compensariam as perdas da separação.

Os maiores prejudicados até agora são os exportadores britânicos, que de uma hora para a outra precisaram aprender a lidar com procedimentos alfandegários e viram suas vendas para o exterior caírem 41% no primeiro mês. Se antes um comerciante conseguia enviar seus produtos em poucas horas para a França, hoje enfrenta longas filas nos postos fronteiriços, além de um significativo acréscimo de custos decorrente do maior tempo de viagem e da contratação de advogados para preencher a interminável papelada. No setor alimentício, que precisa se submeter a rigorosas barreiras sanitárias, a exportação de carne bovina britânica para a Europa caiu 92% e a de salmão despencou 98%.

REVOLTA ANUNCIADA - Protesto na Irlanda do Norte: sentimento de exclusão -
REVOLTA ANUNCIADA - Protesto na Irlanda do Norte: sentimento de exclusão – Mark Marlow/EFE

O acordo de divórcio não regulamenta os serviços financeiros europeus no Reino Unido, uma atividade que responde por quase 11% da receita de impostos do país e emprega 1,1 milhão de pessoas. A instabilidade fez com que bancos e fundos internacionais mandassem quase 1,3 trilhão de libras em ativos para fora e realocassem 7 600 empregos em países do bloco europeu. “Gradualmente, empresas britânicas estão optando por mudar sua sede ou alugar grandes depósitos em outros países europeus, para fugir das barreiras e cortar custos”, diz Alan Winters, diretor do Obser­vató­rio de Políticas Comerciais do Reino Unido na Universidade de Sussex. Sinal inequívoco da fuga de investimentos — e um embaraço para a célebre City londrina — é Amsterdã ter ultrapassado Londres como mais ativo mercado de ações da Europa.

Em nenhum ponto, no entanto, o Brexit tem sido tão dramático quanto na complicadíssima Irlanda do Norte, pedaço do Reino Unido que compartilha uma ilha vizinha com a Irlanda, integrante plena da União Europeia. Durante décadas a fatia britânica foi dilacerada pela guerra entre a parcela da população que queria permanecer no reino e a que pregava que os ingleses se fossem e ali se instalasse uma só Irlanda. The Troubles, como o período foi batizado, se encerrou há duas décadas, com um acordo delicado: sim, a ilha viveria como uma só, sem fronteiras nem barreiras de qualquer espécie — mas a ponta norte seguiria fazendo parte do império. O Brexit veio complicar tudo. Segundo um acordo arrancado a duras penas em dezembro passado, não há barreiras para as mercadorias que circulam entre as Irlandas, mas criou-se em consequência uma fronteira não declarada entre a Irlanda do Norte e o resto do Reino Unido. “Os norte-irlandeses estão se sentindo excluídos do seu próprio país”, afirma Duncan Morrow, professor de ciência política da Universidade de Ulster.

Por causa disso, em plena pandemia carros e ônibus foram incendiados e a polícia vem sendo atacada com coquetéis molotov — cenário que se julgava coisa do passado. A situação se acalmou no período de luto pela morte do príncipe Philip, mas a expec­tati­va é que os ânimos se acirrem novamente. “Se nenhuma solução for encontrada, deve crescer a demanda por um referendo sobre o retorno formal da Irlanda do Norte à União Europeia”, diz o cientista político Feargal Cochrane. O movimento poderia se alastrar até a Escócia, que votou contra o Brexit. O divórcio entre Reino Unido e UE, assi­na­do e lavrado em cartório, continua a dar trabalho.

Publicado em VEJA de 28 de abril de 2021, edição nº 2735

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