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Bergoglio poderia ter sido eleito papa em 2005

Em reportagem publicada no ano do conclave que elegeu Ratzinger, jornal ‘El País’ fala em recuo do argentino, que se sentiu inseguro para assumir o pontificado

Por Da Redação - 14 mar 2013, 18h18

Há oito anos, o argentino Jorge Mario Bergoglio poderia ter se tornado papa, caso não tivesse se sentido inseguro em assumir o cargo. A versão foi divulgada pelo jornal espanhol El País, em 2005, ano em que Joseph Ratzinger foi eleito sucessor de João Paulo II. O texto se baseia em um documento publicado pela revista italiana Limes, que teria tido acesso ao diário de um dos cardeais que participaram do conclave. Na época, o Vaticano se limitou a comentar que, se as revelações fossem verdadeiras, isso representaria uma grave ruptura do juramento de sigilo feito por todos os cardeais eleitores.

De acordo com o texto (leia a íntegra, em espanhol), existia uma competição aberta entre o alemão conservador Joseph Ratzinger – prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, braço direito de João Paulo II, e decano do Colégio de Cardeais – e Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires. Ao contrário do que se dizia, o líder dos reformistas, o ex-arcebispo de Milão Carlo Maria Martini, não era o mais cotado para fazer oposição ao alemão devido ao mal de Parkinson do qual sofria.

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Os cardeais, que, em maior parte, haviam sido nomeados por João Paulo II com base em critérios conservadores, não esperavam que uma pequena minoria reformista fizesse uma frente sólida. “Grande preocupação entre os cardeais que apoiam a eleição de Ratzinger”, teria escrito o religioso no diário após um jantar.

Votação – Na primeira votação, no dia 18 de abril de 2005, o alemão obteve 47 votos, número insuficiente para sua eleição. Bergoglio foi o segundo cardeal a conseguir mais votos. Por essa razão, foi em torno dele que os religiosos mais liberais e opositores de Ratzinger se articularam. Segundo o texto, o objetivo da coalização anti-Ratzinger não era ganhar, mas impedir que ele conseguisse os dois terços da preferência necessária, forçando-o, assim, a renunciar em favor de um candidato mais conciliador.

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No dia seguinte, a segunda rodada deu ao alemão 65 votos e 35 a Bergoglio. Na terceira, Ratzinger conseguiu 72 apoiadores, contra os 40 do argentino. Vendo o apoio a Bergoglio aumentar, os cardeais esperavam que Ratzinger renunciasse naquela noite à possibilidade de assumir o papado.

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No entanto, aconteceu o contrário, e foi Bergoglio quem fez alusões claras de que não estava preparado e temia assumir o pontificado. Por essa razão, a votação seguinte desmembrou a frente reformista, que passou a votar no próprio Ratzinger, que alcançou 84 votos, suficientes para ser eleito. Bergoglio, por sua vez, conseguiu 26. “Na Capela Sistina, houve um momento de silêncio seguido de um longo e cordial aplauso”, escreveu o cardeal no diário ao fim da votação. O único a lamentar publicamente o resultado foi o belga Daneels. “Ainda não chegou o momento de eleger um papa hispano-americano”.

O alemão Joseph Ratzinger assumiu o pontificado no dia 19 de abril, com o nome de Bento XVI. Oito anos depois, renunciou ao cargo. Nesta semana, com a realização de um novo conclave, Bergoglio voltou a ser o preferido entre os cardeais, mesmo não figurando entre a lista de candidatos prováveis ao pontificado com base em análises de vaticanistas. O argentino, que faz parte da ordem dos jesuítas, adotou o nome de Francisco. Segundo especialistas, a escolha indica que o novo papa se dedicará a reconstruir a igreja.

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