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Aung San Suu Kyi otimista, mas prudente sobre reformas em Mianmar

Por Por Daniel Rook 18 set 2011, 12h24

Após meio século de poder militar, Mianmar parece entrar pouco a pouco em uma promissora era de reformas, estima a célebre opositora e prêmio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, que afirma que o caminho para uma democracia autêntica e perene será longo e não passará, em sua opinião, pela violência.

Em uma entrevista exclusiva à AFP em Yangun, a detentora de um prêmio Nobel da Paz considerou sinceros os esforços do presidente Thein Sein, mas não consegue prever sucesso a longo prazo.

“Ocorreram mudanças, mas não acredito que todos sejamos completamente livres. Ainda há um longo caminho a ser percorrido”, explicou na deteriorada sede da Liga Nacional pela Democracia (LND, dissolvida), através da qual entrou na política há mais de 20 anos.

“Disse sempre que sou uma otimista prudente e continuo sendo. Acredito sinceramente que o presidente quer provocar mudanças positivas, mas será preciso estudar para saber até que ponto alcançará isso”, declarou.

Em março passado, a junta liderada pelo temido generalíssimo Than Shwe, no poder desde 1992, anunciou a autodissolução e passou as rédeas do governo a Thein Sein, um dos muitos chefes militares de alto escalão que deixaram o uniforme para dirigir este regime “civil”.

O Parlamento surgido das controversas eleições de novembro foi convocado, surdo diante das críticas que denunciavam as irregularidades na votação e a exclusão de Suu Kyi, libertada uma semana após as eleições depois de sete anos consecutivos de prisão domiciliar.

Nas últimas semanas, o poder birmanês se abriu à oposição.

Thein Sein recebeu Aung San Suu Kyi em Naypyidaw, posando debaixo de uma foto do pai da opositora, o general Aung San, herói da independência assassinado em 1947, única personalidade unanimemente admirada.

Nada se sabe sobre o diálogo, mas “temos muitas, muitas coisas em comum, quanto ao que queremos que aconteça em nosso país”, indicou.

A opositora, fiel ao seu culto da não violência, que lhe valeu a comparação com Mahatma Gandhi, exclui de seu projeto qualquer tipo de movimento que não seja estritamente pacífico.

“O que precisamos é uma revolução do espírito. Sem que mudem as atitudes, sem que mude a percepção (das autoridades) dos problemas que enfrentam, não haverá uma mudança verdadeira”.

Uma revolta como as do Oriente Médio é, portanto, inadequada, disse.

“Todos sabemos que os problemas na Líbia vão durar um longo tempo. Inclusive se conseguirem se livrar de todos os membros do antigo regime e estabelecer um novo governo, terão tantas dificuldades, a amargura permanecerá, as feridas ficarão abertas por muito tempo”, ressaltou.

“O tipo de mudanças que queremos levará tempo. E eu gostaria de ser capaz de alcançá-las de forma pacífica, mediante a negociação”, indicou.

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Os últimos grandes movimentos populares em Mianmar, em 1988 e 2007, foram violentamente reprimidos pela junta e não provocaram nenhuma reforma, em um país com mais de 2 mil presos políticos.

Suu Kyi, a musa da democracia, boicotou, por sua vez, as eleições de 2010, as primeiras convocadas desde que ela venceu, em 1990, sem nunca ter sido capaz de exercer o poder.

A LND, dissolvida como consequência do boicote e a qual o regime ordenou acabar com qualquer atividade “proibida”, sobreviveu sob a vigilância de policiais à paisana que fotografavam qualquer um que entrasse em sua sede.

A mulher a qual seus admiradores chamam respeitosamente de “Senhora” voltará a se apresentar em 2015? É muito cedo para dizer, afirma taxativa, mas está claro que está disposta a tudo.

“Não reflito sobre meu papel político imaginando me tornar presidente, mas acredito que estas coisas devem ser decididas pelo povo e não por indivíduos, nem inclusive por seus partidos”, afirma.

Faria isso se o povo pedisse? “Bom, acredito que se não se está preparado para isso, em caso de necessidade, é preciso começar não entrando na política”, ressalta.

Há pouco tempo foi permitido a Suu Kyi viajar para fora de Yangun, o que atraiu centenas de seus partidários. E, pela primeira vez, os diplomatas e alguns jornalistas estrangeiros – incluindo a AFP – puderam visitar o Parlamento.

Um gesto, durante um discurso, em direção às minorias étnicas e alguns projetos completaram o que alguns viram em Mianmar como uma promessa política.

Não é suficiente, no entanto, para convencer os céticos nem para fazer esquecer os opositores políticos que seguem na prisão.

No mês passado, um enviado da ONU condenou mais uma vez o desastre das zonas étnicas em situação de guerra civil, onde ocorrem os assassinatos, os estupros, as crianças soldados e o trabalho forçado.

No ano passado, o argentino Tomás Ojea Quintana já havia irritado a junta ao pedir uma investigação internacional sobre os abusos cometidos pelas forças de segurança, que, em sua opinião, equivaliam a “crimes contra a humanidade”.

Suu Kyi considera, por sua vez, que um trabalho mais próximo ao das Comissões da Verdade e da Reconciliação na África do Sul, nos anos 90, pode ajudar a aliviar uma nação traumatizada.

“Não é um tribunal. Não tem nada a ver com a vingança. Mas é preciso estabelecer os fatos, para permitir a futura harmonia e o perdão”, indica.

Após viver sete anos sem internet, nem telefone, a mulher que inspirou tantos ativistas havia se comprometido a abrir contas no Facebook e no Twitter, mas, por enquanto, a “Senhora” está muito ocupada.

“Devo admitir que estamos um pouco sobrecarregados, porque recuperar o atraso acumulado em sete anos não pode se fazer rapidamente”, explicou.

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