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As narrativas que construíram a morte de John Kennedy

Reportagem de VEJA desta semana mostra como atos públicos de grandeza, fraquezas da vida privada, casamento "perfeito" e os tiros que continuam a ecoar pelo mundo alimentam as múltiplas narrativas sobre John Kennedy

Jacqueline Kennedy beijou o pé do marido morto, que despontava “mais branco do que o lençol” estendido sobre o resto do corpo na sala de cirurgia do Hospital Park­land, em Dallas. Puxou o lençol para cobri-lo. Sobre a fina barreira de tecido, deu mais beijos de despedida. Como nas tragédias gregas, tantas vezes evocadas para narrar a saga dos Kennedy, o personagem principal já era um mito. Mas nos dias, meses e anos subsequentes o mito seria filtrado, modulado, sintetizado. Jacqueline teria um papel essencial nisso, e não é impossível que tivesse começado a pensar a respeito quando ainda vestia a roupa cor-de-rosa e as luvas empapadas de sangue, endurecidas por pedaços do cérebro do presidente assassinado, como indicam os detalhes do enterro épico planejados pela viúva que mesmerizou o mundo com o véu negro e os olhos sem lágrimas. Fez isso tão bem que até hoje é difícil separar acontecimentos históricos da imagem que se passou a fazer deles. Como toda boa história, a de Jack e Jackie, os apelidos quase xifópagos dos dois, continua a ser reescrita por quem a conta e por quem a ouve.

Pessoas normais têm contradições, mas em figuras mitológicas como John Fitzgerald Kennedy as qualidades, os defeitos e as características que não podem ser classificadas como uma coisa nem outra, embora igualmente impressionantes, assumem uma dimensão impossível de ser domada sob uma única narrativa. Ele era eloquente, dinâmico, carismático. E também inclinado a riscos extremos e manobras obscuras. Citava os clássicos gregos e negociava votos com mafiosos. Escrevia livros e discursos espetaculares – e, quando não o fazia, amigos escritores cediam as próprias palavras e se sentiam felizes por isso. Filho de um milionário dominador, foi contra as ideias do pai quando ainda se discutia se os Estados Unidos deveriam ou não participar da II Guerra Mundial. Falsificou um atestado sobre a própria e precária saúde, escondendo as muitas fragilidades, para poder ocupar uma posição de combate na selvagem frente de guerra do Pacífico. Liderou os sobreviventes do naufrágio da embarcação que comandava, nadou até uma ilha, escreveu uma mensagem a ponta de faca num coco verde e convenceu um habitante nativo a entre­gá-lo numa base americana em outra ilha, mas parece ter se sentido culpado por sobreviver enquanto o irmão mais velho explodiu num avião na Inglaterra. Escolheu uma das garotas mais promissoras e independentes da alta sociedade para se casar e lhe abriu um espaço sem precedentes quando se tornou presidente. Viciado em sexo, traía-a incansavelmente, às vezes de forma torpe. Em alguns aspectos, estava tão à esquerda quanto hoje o presidente Barack Obama, que tem um poder parecido de inspirar e provocar sentimentos positivos – embora seja difícil imaginar Obama sujando os sapatos de golfe, que dirá salvando um companheiro queimado, a nado, com o colete salva-vidas dele preso pelos dentes. Em outras questões políticas, fecharia com membros do Tea Party. Fez o programa para enviar o homem à Lua e mandou cubanos anticastristas para o desastre da invasão da Baía dos Porcos. Lá, abandonou-os à própria sorte. Abandonou também o aliado americano no Vietnã do Sul, o presidente Ngo Dinh Diem, assassinado vinte dias antes que o próprio Kennedy. A encrenca nascente do Vietnã já levava sua assinatura. Durante os dois anos e dez meses de seu governo, fez discursos espetaculares pela liberdade e pela paz, mas o mundo esteve mais perto do que nunca de acabar, incinerado numa guerra nuclear resultante da crise desencadeada quando a União Soviética instalou secretamente mísseis com ogivas atômicas em Cuba.

Tantos filmes depois, muita gente conhece os principais lances dramáticos: os mísseis clandestinos são fotografados por aviões espiões, Kennedy manda fazer um bloqueio naval em volta de Cuba e navios de guerra soviéticos vão avançando, avançando, até ficarem literalmente a dezenas de metros dos americanos, quando Nikita Kruschev recua, temeroso das terríveis consequências (e também tendo obtido certas concessões). Uma história menos pública da época dessa crise revela outra camada das narrativas em torno de Kennedy: o casamento com a fina e eternamente impecável Jacqueline não tinha nada de arranjo de fachada. Quando soube que seria mandada para longe da Casa Branca, alvo primário numa guerra nuclear, ela não aceitou. “Vamos todos ficar aqui. Mesmo se não tiver lugar no abrigo antiaéreo da Casa Branca, ficarei no gramado”, disse. “Quero ficar com você, morrer com você. E as crianças também.”

Que mulher expõe os filhos ao risco de um bombardeio nuclear? Uma mulher loucamente apaixonada e num dos piores lugares em que poderia estar nessas circunstâncias: casada com um homem de libido hiperativa, criado pelo pai desde menino a buscar relações constantes e variadas, a maioria delas coisa de meia hora entre conhecer, conquistar e consumar, algumas mais longas, umas poucas incrivelmente complicadas – a amante que também se envolveu com um chefão mafioso, a casada com um medalhão da CIA, a que espionava para os alemães, a que era Marilyn Monroe. A morte precoce de Marilyn combinou-se ao assassinato do presidente para alimentar a torrente de teorias conspiratórias que continua a jorrar até hoje. O mais provável é que a deprimida atriz tenha sido apenas um nome estrelado a mais na lista de conquistas de Kennedy, ao lado de outras beldades da época como Kim Novak e Angie Dickinson. À veterana Marlene Dietrich perguntou se também tinha se envolvido com o pai dele, outro caçador de estrelas. Ela respondeu que não. “Preciso de carne fresca todos os dias, senão fico com dor de cabeça”, era a espantosa explicação de Kennedy para os íntimos. Os seguranças se horrorizavam com os riscos que o fluxo constante de “conhecidas” criava, quando na verdade o perigo estava em um único e desconhecido homem.

Jacqueline podia enganar a si mesma em relação às traições do marido, mas tinha a mente perfeitamente clara sobre a imagem heroica que queria deixar dele depois do assassinato. Como a editora de livros que viria a ser, depois de passar de viúva sacralizada a interesseira descontrolada via casamento com o milionário grego Aristóteles Onassis, ela eliminou as passagens ruins e exaltou as boas de Kennedy. Uma semana depois de segurar seu corpo nos braços, chamou um jornalista de confiança e falou durante quatro horas sobre a vida, a morte e a “magia” do marido. Foi aí que fez a comparação entre o governo dele e a corte do rei Artur, evocando um trecho do musical Camelot, o nome do castelo do personagem mítico. A palavra foi infinitamente replicada como sinônimo de uma era encantada.

Como acontece com outros grandes líderes políticos, Kennedy, descrito por um biógrafo como “um dos homens mais complicados e enigmáticos que já ocuparam a Casa Branca”, pode ser usado por diferentes correntes ideológicas. O programa para mandar o primeiro homem à Lua é evocado como exemplo da grandeza, da singularidade e da incomparável capacidade de realização dos americanos. Portanto, coisa de “direita”. As políticas sociais são sempre consideradas “progressistas”. O histórico discurso que fez à nação em 11 de junho de 1963 de alguma maneira reflete isso. Em alguns estados do Sul, ainda havia muita resistência das autoridades ao fim da discriminação vigente entre brancos e negros em lugares públicos, em especial as escolas. Kennedy fez um apelo à consciência, aos valores morais e até aos ensinamentos bíblicos para acabar com essa “indignidade arbitrária”, mas não tratou os que ainda defendiam a segregação como inimigos ou aberrações – mesmo porque era o Partido Democrata que governava os sulistas. “É um problema que todos nós enfrentamos, no Norte ou no Sul”, conciliou. Secretamente, havia autorizado que o FBI grampeasse o líder negro Martin Luther King. O exercício do poder é complicado e a democracia não é perfeita. A última frase foi pronunciada por Kennedy em outro discurso célebre, o de Berlim, com um adendo: “Mas nunca tivemos de erguer um muro para não deixar nosso povo sair”. Tornou-se um lugar-comum, mas dito por ele, daquela forma e naquele momento, teve uma grandiosidade que continua a atravessar as camadas de uma história infinitamente repetida.

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