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Argélia: reféns relatam cenas de terror em instalação de gás

Alguns dizem ter sido obrigados a carregar explosivos pendurados no pescoço

Por Da Redação 18 jan 2013, 16h01

Reféns que conseguiram escapar ou foram libertados depois de serem capturados por terroristas em um campo de exploração de gás no deserto da Argélia relataram cenas de medo e terror, divulgadas pelo jornal The New York Times. Alguns disseram que foram obrigados a carregar explosivos pendurados no pescoço, e outros contaram que presenciaram disparos contra colegas desarmados, depois que os sequestradores tomaram o controle do completo de In Amenas.

O atentado ocorreu no início da manhã de quarta-feira, quando os terroristas tentaram atacar um ônibus que transportava funcionários do campo de gás para um aeroporto próximo. Seguranças que faziam a escolta do ônibus revidaram e evitaram a ação, mas duas pessoas morreram e o ataque se transformou em um sequestro envolvendo funcionários de várias nacionalidades. O sequestro mobilizou governos de vários países em busca de informações sobre os reféns, principalmente depois de uma operação de resgate iniciada pelo Exército argelino na quinta-feira, que resultou na morte de reféns.

O britânico Garry Barlow, 49 anos, conseguiu telefonar para sua mulher, Lorraine, quando estava sendo sequestrado e disse a ela que tinha sido forçado a se sentar em sua mesa com um explosivo amarrado ao peito. Lorraine avisou o Ministério das Relações Exteriores sobre um possível ataque. “Barlow disse: ‘Estou sentado aqui na minha mesa com Semtex preso ao meu peito. O Exército local já tentou atacar a instalação, e não conseguiu. Eles disseram que se isso acontecesse de novo matariam todos nós”, disse um amigo do casal ao NYT. Ainda não se sabe o que ocorreu com Barlow depois da ligação.

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Estrangeiros – A milícia islâmica responsável pelo ataque, o Batalhão de Sangue, deixou claro que os estrangeiros eram seus principais alvos. De acordo com um argelino que conseguiu fugir do complexo na tarde de quinta-feira, e que pediu anonimato, os funcionários estrangeiros foram separados dos argelinos pelos terroristas. Estes repetiam que os argelinos eram seus “irmãos”.

Segundo os relatos do argelino, cerca de 40 pessoas, incluindo nove estrangeiros, foram tomar café da manhã no refeitório do complexo, por volta de 5h30, quando ouviram tiros. Então, cerca de dez terroristas entraram no local e começaram a separar os argelinos dos estrangeiros. Cinco estrangeiros negros se esconderam entre os argelinos e foram autorizados ir com eles até um edifício próximo. Trabalhadores que o argelino identificou como paquistaneses foram levados entre os estrangeiros, mesmo depois de se identificarem como muçulmanos.

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Um dos reféns libertados, o francês Alexandre Berceaux, disse que se escondeu em um quarto afastado de outros estrangeiros e sobreviveu graças à ajuda de colegas argelinos, que lhe levavam comida. Após ser resgatado, Berceaux disse à rádio Europe 1 que a tomada de reféns na quarta-feira foi uma completa surpresa. “Ouvi uma grande quantidade de tiros”, disse ele. “Um alarme nos dizia para ficarmos onde estávamos. Eu não sabia se era real. Ninguém esperava isso. O local era protegido.” Ele ficou escondido por quase 40 horas. “Tinha certeza de que seria morto”, acrescentou.

O argelino entrevistado pelo NYT disse que muitos dos sequestradores não tinham sotaque do país, sugerindo que eles tivessem vindo da Líbia ou da Síria. Segundo a fonte, um deles seria francês. Em determinado momento, os rebeldes teriam atirado em um europeu pelas costas, na presença de outros reféns, mas não ficou claro o motivo ou se a vítima morreu após o disparo. De acordo com o argelino, houve “várias execuções” ao longo do sequestro, embora ele não as tenha presenciado. Na tarde de quinta-feira, os sequestradores pediram que ele deixasse o local com outros argelinos. Eles se deslocaram com um ônibus até que as forças de segurança os encontraram.

Libertações – Segundo a agência estatal APS, cerca de 650 reféns foram libertados pelas forças especiais do país. Entre os reféns libertados, estariam 573 argelinos e mais da metade dos 132 reféns estrangeiros. Dezenas ainda estariam em poder dos terroristas islâmicos. “O Exército busca um final pacífico para a crise”, afirma a APS.

Segundo a rede BBC, pelo menos quatro funcionários da central In Amenas morreram quando as tropas atacaram os sequestradores na quinta-feira, além de vários extremistas. Aqueles que ainda estão presos no local buscam pontos seguros para se refugiar dentro do complexo, de acordo com fontes de segurança. As instalações de gás foram colocadas fora de uso para evitar riscos de explosão.

A crise teve início na quarta-feira, quando militantes islâmicos fizeram reféns no campo operado por uma joint venture que inclui British Petroleum (BP), a Statoil, da Noruega, e a Sonatrach, estatal argelina. O grupo terrorista afirmou que o ataque é uma retaliação à intervenção militar francesa no Mali. O presidente francês, François Hollande, considerou que a situação na Argélia justifica ainda mais a decisão de seu governo de intervir militarmente no território malinês.

Terror – A milícia islâmica responsável pelo ataque é o Batalhão de Sangue, que nasceu há pouco tempo a partir da Al Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI). Segundo o governo argelino, todos os terroristas são subordinados a um ex-comandante da Al Qaeda no Magreb Islâmico, Mokhtar Belmokthar, que teria fundado a nova milícia no fim do ano passado após ter se desentendido com outros líderes extremistas.

Belmoktar é um jihadista veterano conhecido por tomar reféns e contrabandear desde imigrantes ilegais até cigarros, o que lhe rendeu o apelido de “Sr. Malboro”. Belmoktar nasceu em 1972 na Argélia e viajou ao Afeganistão em 1991 para combater o governo local. Nesses combates, ele perdeu um olho, o que lhe rendeu um outro apelido, Belaouar, ou “o homem de um olho só”.

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