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Allende pode ter levado dois disparos, diz TV chilena

Relatório refuta a versão oficial de que o presidente chileno, cujo corpo foi exumado este mês, se matou com um tiro de fuzil AK-47 durante o golpe de 73

Por Da Redação - 31 maio 2011, 04h06

O ex-presidente chileno Salvador Allende, morto em 11 de setembro de 1973 durante o ataque de militares golpistas ao Palácio de La Moneda, pode ter levado dois disparos de armas diferentes. É o que indica um relatório revelado nesta segunda-feira pela Televisión Nacional do Chile (TVN), cuja análise refuta a versão oficial de que Allende se matou com um tiro de fuzil AK-47 em meio ao bombardeio do palácio presidencial.

Inédito, o documento divulgado pela TVN em seu programa Informe Especial é um registro da promotoria militar sobre a morte do ex-presidente socialista. Foi encontrado por acaso no ano passado entre os escombros de uma casa que pertenceu ao coronel Horacio Ried, relator da Corte Marcial, já falecido, e entregue à equipe jornalística da TVN. Reúne informações coletadas no local da morte, perícia balística, testemunhas e autópsia e tem a mesma data da morte de Allende.

Segundo o especialista Hugo Rodríguez, diretor do departamento de medicina legal da Universidad de la República, do Uruguai, os dados do relatório indicam que Allende recebeu não um mas dois disparos. Um é o do fuzil AK-47, que, na versão oficial, Allende usou para se suicidar. O outro é de uma arma de calibre menor, que teria sido disparada antes do fuzil.

“O programa confirma algumas verdades que já conhecíamos, que são: a presença de militares e a existência real de mais de um disparo”, disse à TVN, após a divulgação da reportagem, o advogado de direitos humanos Eduardo Contreras. “A sorte de Allende estava lançada: suicídio ou homicídio, o presidente iria morrer naquele dia.”

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Contreras é o autor do requerimento para a exumação do cadáver de Salvador Allende. Na semana passada, os restos mortais do ex-presidente foram retirados do mausoléu de sua família em Santiago e seu corpo foi encaminhado ao Serviço Médico Legal. Os resultados ainda não foram divulgados. O objetivo da exumação, a pedido da filha do ex-presidente, a senadora e escritora Isabel Allende, é justamente determinar se ele foi assassinado pelos golpistas ou se matou durante o bombardeio do La Moneda.

O golpe de 1973 levou à ditadura do general Augusto Pinochet, que Allende havia nomeado chefe do Exército. Durante o regime militar, mais de 3.000 opositores foram mortos ou desapareceram. Pinochet deixou o poder em 1990, mas continuou como chefe do Exército até 1998, período conhecido como “democracia tutelada”. A verificação da causa de morte de Allende é um dos 726 casos de abusos sob investigação no Chile.

(com EFE)

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