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Além de Buenos Aires

O dólar mais alto faz com que os brasileiros fujam da Europa e dos Estados Unidos e voltem em massa à velha e boa Argentina

Uma vez por ano, o administrador carioca Rafael Fernandes, de 39 anos, viaja para algum lugar que tenha neve e permita a prática de seu esporte preferido, o snowboard. Nesse turismo esportivo, visitou a charmosa Chamonix, nos Alpes Franceses, e Cervinia, na fronteira entre Itália e Suíça. Em 2018, mudou de rota e de data: em vez de partir no começo do ano, inverno no Hemisfério Norte, seguiu em julho para uma temporada de dez dias em Ushuaia, a capital da Terra do Fogo, arquipélago no extremo sul da Argentina que tem o apelido de “fim do mundo”. “Nem cogitei Europa e Estados Unidos. Cheguei a orçar estações no Chile, mas também estavam muito caras”, diz Fernandes, que ficou impressionado com a qualidade do turismo local.

Ao optar pela Argentina, Fernandes percorreu uma trilha conhecidíssima dos brasileiros, mas que nos últimos tempos, com o dólar razoável e mais dinheiro no bolso, os turistas vinham trocando por locais distantes. Não mais: em 2017, 1,2 milhão de passageiros do Brasil desembarcaram em terras portenhas, um aumento de 15% em relação a 2016, enquanto nos Estados Unidos, no mesmo período, o número recuou 7%. O Airbnb, plataforma de aluguel de imóveis, também sentiu a mudança de rumo: em agosto, as reservas de brasileiros em Buenos Aires subiram 55% em comparação às do mesmo mês do último ano. “O principal motivo é o câmbio. O dólar está subindo aqui e o peso argentino passou por uma forte desvalorização”, diz Geraldo Rocha, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav). Em setembro do ano passado, 1 real comprava pouco mais de 5 pesos; agora compra o dobro, quase 10.

Com o peso desvalorizado pela crise que abate a Argentina, os preços dos serviços caíram quase 20%, segundo um levantamento feito pela agência de turismo CVC. “Dá para ficar ali em hotéis estrelados pelo valor de albergues na Europa”, avalia a advogada Carolina Becman, de 27 anos, que acaba de voltar de uma semana em Mendoza, a região vinícola que se tornou a meca do turismo argentino. Isso mesmo: enquanto os célebres quatro dias em Buenos Aires continuam a ser o destino número 1 de turistas de primeira ou segunda viagem, os mais experientes estão agora explorando a Argentina dos vinhos e a Patagônia — além de Ushuaia, na pontinha do continente, El Calafate, porta de entrada para um magnífico parque nacional cercado de geleiras. Não, Bariloche (“Brasiloche” para os íntimos) não ficou para trás. Neste inverno, dos 400 000 turistas que recebeu, 42 000 eram brasileiros.

A inflação em alta na Argentina decretou o sumiço das pechinchas de antigamente. Mas os preços são atraentes: uma empanada de carne custa o equivalente a 5 reais, um alfajor sai por 3 reais e um menu degustação em restaurante chique, por 320 reais (aqui fica em torno de 500). Sem falar nos bons vinhos a um terço do preço cobrado no Brasil. Os brasileiros são os estrangeiros mais presentes na Argentina e os que mais gastam: 139 dólares (520 reais) por dia. Por isso mesmo, receberão um agrado. A partir de dezembro, o Aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, terá mapas, placas e anúncios do sistema de som em português, além de quiosques de pão de queijo e o real aceito em todo o terminal. Uma demonstração de que são muy bienvenidos — pelo menos fora dos campos de futebol.

Publicado em VEJA de 17 de outubro de 2018, edição nº 2604