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Afeganistão: sai a guerra dos EUA, entra luta das mulheres

Com retirada das tropas ocidentais do país, elas temem volta da opressão talibã, que pode jogar por terra as conquistas importantes adquiridas na última década

Por Cecília Araújo - 11 out 2011, 07h16

“Infelizmente, com a saída das tropas, a defesa dos direitos humanos, incentivada pelos ocidentais, pode voltar a ser ignorada ou esquecida em troca da chamada ‘reconciliação’ com o Talibã”

Sima Samar, presidente da Comissão Independente Afegã de Direitos Humanos

O presidente americano, Barack Obama, afirmou há poucos dias que a guerra no Afeganistão está perto do fim e, ao que tudo indica, o calendário de retirada das tropas do país deve ser cumprido – 33.000 soldados até 2012 -, e seguido por outras potências ocidentais, como Espanha e França, que devem sair até 2014. A partir de então, a segurança da população ficará a cargo de seus próprios militares. E aí, deve começar uma nova luta: a das mulheres afegãs, para manter as conquistas adquiridas desde o início do conflito que derrubou o Talibã (1996-2001) há exatos dez anos. Desde 2001, elas avançaram muito no que se refere a participação política, respeito de seus direitos e educação. Mais de 2,7 milhões de meninas frequentam a escola hoje – realidade bem diferente de outros tempos, quando isso só era possível de forma clandestina. Tais mudanças, porém, apesar de significativas, são frágeis. Um relatório recente da ONG Oxfam aponta que toda essa nova realidade deve ser sacrificada com a saída das tropas ocidentais, em troca de um possível acordo de paz com o antigo regime, que pode determinar o renascimento de uma repressão implacável.

É isso o que temem Louise Hancock, conselheira política e legal da Oxfam no Afeganistão, e Orzala Ashraf Nemat, acadêmica afegã e ativista de longa data. Autoras do documento, elas entrevistaram inúmeras mulheres e concluíram que os ganhos da última década podem ser revertidos. “Elas estão agora sob a ameaça crescente da insegurança que se espalha pelo país”, resume Louise ao site de VEJA. Sima Samar, presidente da Comissão Independente Afegã de Direitos Humanos (AIHRC, na sigla em inglês) – que se dedica à defesa e à investigação das violações desses direitos no país -, concorda que a situação atual é muito melhor do que na época em que o Talibã governava o país. “Há 10 anos, as pessoas sequer conheciam os direitos humanos globais. Agora, pelo menos a maioria sabe que eles existem, embora isso não signifique que todos tenham os seus direitos básicos respeitados”, destaca ela, que também antevê um retrocesso sem a presença das potências ocidentais. “Infelizmente, com a saída das tropas, a defesa dos direitos humanos, incentivada pelos ocidentais, pode voltar a ser ignorada ou esquecida em troca da chamada ‘reconciliação’ com o Talibã. Trabalhar com direitos humanos e direitos das mulheres é algo extremamente perigoso em um ambiente conflituoso como o Afeganistão.”

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Áreas anteriormente consideradas seguras estão ficando perigosas novamente, especialmente no norte, centro e oeste do país. “Sabemos que as mulheres são as mais vulneráveis à insegurança, principalmente no Afeganistão, onde passaram por três décadas de conflito. Torna-se ainda mais difícil para elas deixarem suas casas, frequentar escolas e ir a hospitais”, exemplifica Louise. Há também evidências de que, quando grupos armados de oposição controlam uma área, eles restringem especialmente os movimentos das mulheres. Por isso, mesmo que o Talibã tenha declarado que não se opõe à educação das meninas, por exemplo, é difícil acreditar. Apesar de fortes acontecimentos recentes, como o assassinato do ex-presidente Burhanuddin Rabbani, responsável pelas negociações de paz com a milícia fundamentalista islâmica, tudo indica que o diálogo entre os governos americano e afegão com o Talibã será retomado em breve. Nesse contexto, as mulheres sabem que seus direitos podem não ser considerados prioridade.

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A ativista Sima Samar cede entrevista em sua casa em Cabul, em 2002
A ativista Sima Samar cede entrevista em sua casa em Cabul, em 2002 VEJA

Direitos humanos – Coincidência ou não, o Prêmio Nobel da Paz deste ano foi entregue a três representantes femininas “pela luta pacífica pela segurança das mulheres e pelo direito de participar nos processos de paz”. O trabalho das laureadas em busca de mais espaço e respeito é o mesmo de Sima Samar – que foi indicada e chegou a ser apontada como uma das favoritas para vencer. A comissão de direitos humanos que preside é a primeira da história do Afeganistão. Por meio dela, a ativista ajuda a supervisionar a implementação de programas nacionais de educação sobre os direitos das mulheres, além do monitoramento e da investigação de abusos dos direitos humanos em todo o país. Mas, muito antes disso, ela já se comprometia pessoalmente com a causa afegã. Quando nasceu no Afeganistão, em 1957, parecia que tudo conspirava contra ela: por ser mulher e por fazer parte da mais perseguida minoria do país, chamada Hazara.

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No entanto, foram exatamente essas circunstâncias que a levaram a colocar sua vida e liberdade em risco, ao se transformar em uma porta-voz dos “excluídos”. Formada em medicina em 1982, na Universidade de Cabul, seu objetivo era transformar a nação. Porém, acabou se mudando para o Paquistão, à procura de seu marido desaparecido durante uma invasão russa ao Afeganistão. Foi lá que ela começou seu trabalho com a educação de afegãs, fundando a organização Shuhada. Entre 2001 e 2002, foi vice-presidente e ministra dos Assuntos das Mulheres para o governo interino do Afeganistão, quando garantiu uma série de cargos políticos para elas. Em 2005, devido à luta incansável, nacional e internacionalmente, foi nomeada Relatora Especial das Nações Unidas sobre a Situação dos Direitos Humanos para o Sudão.

“Sima teve um papel importante na melhoria da situação das mulheres afegãs nos últimos 20 anos, primeiro como ativista, depois como ministra dos assuntos das mulheres, agora como presidente da AIHRC. A comissão é única no Afeganistão, um instrumento independente que monitora os direitos humanos e traz todos os afegãos, inclusive as mulheres, para a atenção do governo e da comunidade internacional. A AIHRC e Sima fazem um trabalho importantíssimo em meio a circunstâncias extremamente difíceis”, exalta Louise. Não é à toa que esta não foi sua primeira a indicação ao Nobel da Paz. Sima também recebeu mais de 15 prêmios relacionados à defesa dos direitos humanos. Para ela, a única solução para o problema no Afeganistão é a defesa dos princípios democráticos e os direitos básicos – especialmente das mulheres. “Elas merecem ser tratadas como seres humanos e precisam de proteção”, enfatiza.

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