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A reabertura do MoMA em uma Nova York em constante transformação

Um dos mais importantes museus de arte moderna do mundo volta à ativa e reflete a reinvenção do seu entorno

Por Maria Clara Vieira, de Nova York - Atualizado em 1 nov 2019, 10h42 - Publicado em 1 nov 2019, 06h00

Depois de três anos de reforma, o Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, reabriu as portas e, com elas, a oportunidade de admirar A Noite Estrelada, de Van Gogh, em que o holandês crava com pinceladas nervosas a vista do quarto do hospício onde se internou no sul da França, e Les Demoiselles d’Avignon, a tela de geometria desconcertante com que Pablo Picasso inaugurou o cubismo. Tem mais: estão lá o célebre A Dança, de Henri Matisse, e a série Latas de Sopa Campbell’s, de Andy Warhol, ícone da pop art. Parando por aí, a visita já seria obrigatória. Mas o MoMA remodelado abriga surpresas — e não é apenas porque agora, com mais 24 galerias, pode exibir um naco maior de seu acervo de 200 000 itens. Na versão que estreou no último dia 21, com direito a um “laboratório de criatividade” para que qualquer mortal criasse a própria obra, a ordem cronológica e por movimento artístico que colocava invariavelmente em uma parede Picasso e seu escudeiro Georges Braque foi rompida para vê-lo na inesperada companhia da americana Faith Ring­gold, a pintora do Harlem que sorveu inspiração de Guernica, tela do grande mestre sobre a Guerra Civil Espanhola, para retratar conflitos raciais nos Estados Unidos. Por todo o museu, essa lógica de exibição oferece contrastes intrigantes e sacode a tradicional narrativa da arte moderna.

Para fugir do risco de ofuscar-se em uma cidade que abriga arte em profusão — o concorrente Whitney, inclusive, resplandece novo em folha no Chelsea —, o MoMA investiu 450 milhões de dólares em uma renovação que envolveu a polêmica derrubada do vizinho Museu Americano de Arte Folk (com apenas treze anos de vida) e uma extensão arrojada por galerias que invadem três andares de um prédio de apartamentos arquitetado pelo tão em voga Jean Nouvel, o mesmo do Louvre de Abu Dhabi. No dia da inauguração, depois de fazerem fila, 10 000 pessoas cruzaram as catracas. “Ao dispormos artistas consagrados ao lado de nomes da atualidade, queremos mostrar que a arte moderna é abrangente, dinâmica, e que o novo conversa com o velho”, disse a VEJA Glenn Lowry, diretor do MoMA. Embora essa seja uma tendência entre museus da primeiríssima divisão, como a Tate Modern, de Londres, e o Rijks­museum, de Amsterdã — todos preocupados em pôr os pés no século XXI —, especialistas temem que os leigos se percam no espaço ampliado, e isso faz sentido. Fica a dica: aqueles fones com tour guiado alugados na entrada enriquecem o passeio e lhe dão um norte.

O CÉU NÃO É O LIMITE – Prédios-lápis: as finíssimas construções são impulsionadas por uma lei flexível

O CÉU NÃO É O LIMITE – Prédios-lápis: as finíssimas construções são impulsionadas por uma lei flexível Luis Davilla/Getty Images

Ao mexer com os alicerces no edifício em forma de caixa que discretamente abrilhanta a Rua 57, próximo ao furor consumista da Quinta Avenida, e tentar espantar a sina, com o perdão do trocadilho, de que “quem vive de passado é museu”, o MoMA está no ritmo de uma cidade em constante transformação. “Nova York é veloz, e o fato de estar sob a vigilância do mundo serve de empurrão para que siga em sua constante busca pela modernidade”, afirma a urbanista Michelle Young, da Universidade Columbia. Em seu seminal artigo “Delirious New York”, de 1978, o urbanista holandês Rem Koolhaas, da Universidade Harvard, define a delirante Man­hattan como um laboratório para a experimentação, “o teatro do progresso”, como viria a ficar conhecida no universo dessa turma que tem a prancheta na mão e dinheiro para tirar dela ideias que parecem querer desafiar a engenharia — ainda que façam, e não é raro, muita gente torcer o nariz. E quem está em busca de unanimidade em Nova York?

A polêmica do momento (e no instante em que o leitor estiver passando os olhos por esta reportagem ela já pode ter mudado) chama-se Hudson Yards, bairro construído sobre uma área degradada colada ao rio, na porção oeste de Manhattan. Uma década de idas e vindas e 25 bilhões de dólares depois, brotou ali um conjunto luxuoso de prédios residenciais que orna com um shopping center e a instalação The Vessel (o navio). Habitantes da ilha se exasperaram com o caminhão de verbas públicas despejado em um lugar para bem poucos, mas, à revelia da contenda, turistas esperam pacientemente a vez para escalar até o topo da tal “embarcação”. E se esbaldam com as selfies. A poucos passos do recente cartão-­postal, Nova York segue dando mostras de vitalidade com o High Line Park, um jardim suspenso criado em 2009 sobre uma linha abandonada de trem — caso exemplar do que os urbanistas entendem por gentrificação, quando uma área é reanimada pela ocupação humana. O parque continua a se expandir (acaba de ganhar novo trecho coroado de esculturas) e a estimular no entorno o florescimento de construções generosas de aço, vidro e inovação que vão do Chelsea ao Meat­packing. Nessa zona antes povoada por galpões de processamento de carne em que ninguém queria estar, há hoje restaurantes, lojas e galerias onde, bobeou, se está diante de uma tela de Warhol. O preço acompanha o charme, e os nova-iorquinos que não têm como arcar com ele buscam áreas mais distantes, que o olhar do turista não alcança.

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PASSADO E PRESENTE – O High Line nos anos 1990 (à esquerda) e hoje: a linha de trem abandonada virou parque, atraiu moradores e mudou a história do entorno

PASSADO E PRESENTE – O High Line nos anos 1990 (à esquerda) e hoje: a linha de trem abandonada virou parque, atraiu moradores e mudou a história do entorno Thomas Monaster/NY Daily News Archive/Getty Images ; Michael Urmann/Shutterstock

Muitas ondas de renovação embalaram Manhattan desde sua fundação pelos holandeses, que se apossaram do sul da ilha em 1624 para fazer dela um entreposto comercial. Na virada do século XIX para o XX, os primeiros arranha-céus despontaram no cenário, instaurando uma vocação que a cidade cultiva até os dias de hoje. Era início dos anos 1920 quando Robert Moses, um controverso arquiteto que trabalharia em obras públicas por mais de quatro décadas, inaugurou uma longa fase de bota-abaixo que passou por cima de bairros históricos e moradias populares para erguer no lugar parques, pontes e vias expressas. Moses foi em seu tempo uma espécie de Barão Haussmann, o prefeito francês que atropelou as vielas medievais de Paris e a rasgou com bulevares um século antes. Depois do marasmo imposto pela economia nas décadas de 70 e 80, foi a vez de a Times Square, infestada de cinemas pornô, ser reabilitada na gestão do prefeito linha-dura Rudolph Giuliani (hoje advogado de Trump e envolvido na trama que pode até custar o mandato do presidente).

TOQUE DE GRIFE – Shopping center assinado por Calatrava: a área devastada do World Trade Center pulsa no sul da ilha

TOQUE DE GRIFE – Shopping center assinado por Calatrava: a área devastada do World Trade Center pulsa no sul da ilha Eugene Gologursky/Westfield/Getty Images

O capítulo escrito agora flerta com a cartilha da sustentabilidade — um dos maiores aterros sanitários do mundo, por exemplo, está sendo convertido em um gigantesco espaço verde em Staten Island, o Freshkills Park. Ao longo do processo, o metano produzido pelo lixo vai virar energia e poupar alguns milhões de dólares aos cofres da cidade. Ao mesmo tempo, pesos-pesados da arquitetura vêm sendo chamados a dar seu toque original a prédios públicos — delegacias de polícia, quartéis de bombeiros — e reavivar áreas degradadas ou destruídas, como aquela onde ficava o World Trade Center antes dos ataques terroristas de 11 de setembro. Um shopping center assinado pelo espanhol Santiago Calatrava (o do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro) atrai as câmeras naquelas bandas inteiramente refeitas de Manhattan.

O maior prédio da cidade hoje, aliás, se exibe por lá: o One World, que ostenta 541 metros. Dado o afã local pelas alturas, logo, logo deve perder a dianteira para uma nova safra de arranha-céus longilíneos apelidados de prédios-lápis. Eles estão crescendo impulsionados pelos avanços da engenharia e por uma legislação flexível, que permite que se compre (isso mesmo) o espaço aéreo do vizinho. É simples: se o dono do prédio ao lado não quer usar sua cota de andares, vende-a. E assim nasceu o Central Park Tower, a torre residencial mais alta do planeta, com 472 metros. As apostas para saber quanto tempo vai manter-se no topo estão abertas.

Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2019, edição nº 2659

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