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A prisão da amiga de Jeffrey Epstein que pode incriminar poderosos

A polícia detém Ghislaine Maxwell, cúmplice dos abusos de menores. Colegas, como o príncipe Andrew, tremem nas bases

Por Maria Clara Vieira Atualizado em 10 jul 2020, 11h41 - Publicado em 10 jul 2020, 06h00

Mais de trinta depoimentos em mãos da Justiça de Nova York relatam convites para “massagem” que terminavam em sexo e, não raramente, aliciamento de menores, protagonizados pelo milionário americano Jeffrey Epstein. Em todos eles, a inglesa Ghislaine Maxwell, 58 anos, é apontada como peça central da teia de crimes sexuais praticados por Epstein, achado morto em sua cela em uma prisão de Nova York em agosto passado. Quase um ano depois do suposto suicídio (um prato cheio para especulações), Ghislaine enfim foi presa em uma propriedade curiosamente batizada de Tucked Away (escondida), em um ponto remoto do Estado de New Hampshire, que havia comprado por 1 milhão de dólares, pagos em dinheiro. “Ela vivia em uma casa deslumbrante, enquanto suas vítimas conviviam com o trauma que lhes infligiu”, disse William Sweeney, o agente do FBI que chefiou uma busca que se espalhou por vários estados.

A prisão de Ghislaine — sobre quem pesam quatro acusações de colaboração com aliciamento de menores e duas por perjúrio — faz tremer os poderosos que orbitavam ao redor de Epstein, sendo o mais enrolado deles o príncipe Andrew, filho da rainha Elizabeth. Exatamente por frequentar as mansões e os jatinhos do milionário, onde o entra e sai de menininhas era notório, Andrew é hoje um pária real, afastado de todas as suas funções. A possibilidade de que ela dê detalhes de seu envolvimento, compreensivelmente, arre­pia o Palácio de Buckingham.

Ghislaine e Epstein foram unha e carne por mais de três décadas, começando com um namoro que se transformou em amizade com muitos benefícios. Pelos depoimentos das vítimas, quase todas entre 14 e 17 anos na época, ela era uma espécie de faz-tudo dele tanto na procura de garotas para satisfazer sua obsessão sexual quanto na administração de suas várias propriedades. Ou seja, estava sempre por perto. Em muitos casos, cuidou pessoalmente de atrair, convencer, dar presentes e sustentar adolescentes aliciadas em shopping centers e perto de escolas para alimentar o apetite sexual de Epstein — e dela mesma, segundo algumas vítimas. Além de levar uma vida de festas e viagens, esbarrando em figurões como o ex-presidente Bill Clinton, ela amealhou um bom pé de meia: a polícia localizou quase 40 milhões de dólares em contas em paraísos fiscais.

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Antes de se relacionar com o milionário americano, porém, Ghislaine, filha mimada do magnata da imprensa Robert Maxwell, dono do grupo Mirror (também morto em circunstâncias suspeitas), frequentava os mesmos círculos da alta sociedade londrina que o festeiro e mulherengo Andrew, de quem se tornou amiga. Ele até a levou para um tour exclusivo em Buckingham. Ghislaine apresentou o príncipe a Epstein e está presente, ao fundo, na foto mais comprometedora de Andrew: aquela em que ele aparece abraçado com Virginia Giuffre, então com 17 anos e hoje a mais vociferante acusadora do esquema em que Epstein explorava menores e as emprestava a amigos.

Segundo gente próxima ao príncipe ouvida pelos indefectíveis tabloides britânicos, Andrew ficou “muito nervoso” com a prisão de Ghislaine e planeja nunca mais pôr os pés nos Estados Unidos. Terá, no entanto, de resistir às pressões de toda parte para que apresente logo à polícia sua versão e, se possível, ponha uma pedra sobre o assunto. Há um ano que o FBI o convida a depor formalmente (as leis não permitem intimá-lo). Andrew nega terminantemente que tenha se aproveitado sexualmente de Virginia — alegação que, dado o seu currículo, conta com descrédito geral. Mas a maioria das pessoas ligadas ao caso acredita, isso sim, que o príncipe, descrito como uma pessoa arrogante, meio aérea e totalmente desinteressada dos fatos ao seu redor, provavelmente não atentou para a extensão dos crimes de Epstein, e talvez por isso consiga escapar da cadeia. A não ser que Ghislaine resolva relatar, tim-tim por tim-tim, quem se aproveitou do escandaloso teatro sexual montado e dirigido por Epstein. Aí, o reino desaba.

Publicado em VEJA de 15 de julho de 2020, edição nº 2695

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