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A política do Vaticano e a pedofilia

Por The New York Times 3 Maio 2010, 20h14

Dois ex-seminaristas mexicanos foram ao Vaticano em 1998 para apresentar pessoalmente um caso relatando décadas de abuso sexual cometido por um dos padres mais poderosos da Igreja Católica Romana, o reverendo Marcial Maciel Degollado. Na saída, toparam com o homem que teria nas mãos o destino de Maciel, o cardeal Joseph Ratzinger, e beijaram o anel dele. O encontro não foi acidental. Ratzinger queria conhecê-los, disseram testemunhas mais tarde, e o caso deles logo foi aceito.

Em pouco mais de um ano, porém, veio a notícia de que Ratzinger – o futuro papa Bento XVI – havia paralisado o inquérito. “Não é prudente”, dissera ele a um bispo mexicano, de acordo com duas pessoas que depois conversaram com o bispo. Durante cinco anos o caso permaneceu parado, possivelmente refém dos poderosos protetores de Maciel na Cúria, o aparato de governo do Vaticano, e de sua própria influência na Santa Sé.

De qualquer forma, Ratzinger – já Bento XVI – demorou até 2006, oito anos depois de o caso surgir perante ele, para tratar dos abusos de Maciel, removendo-o das funções clericais e banindo-o a uma vida de rezas e penitência, embora sem admitir publicamente seus crimes ou o sofrimento de suas vítimas. E no sábado, quatro anos depois disso, o Vaticano anunciou que Bento XVI indicaria um delegado especial para dirigir a congregação mundialmente poderosa fundada por Maciel, os Legionários de Cristo.

Um olhar atento aos registros mostra que o caso foi marcado pelos mesmos atrasos e cautela burocrática ocorridos na condução de outras denúncias de abuso sexual que passaram pela mesa de Bento XVI. Os simpatizantes do papa acreditam que ele estava tentando agir no caso de Maciel, mas foi impedido por outras poderosas autoridades da Igreja. Os advogados das vítimas de Maciel, entretanto, dizem que o resultado final e o ajuste de contas do caso foram muito pequenos e demoraram muito.

O reverendo Alberto Athie Gallo, padre mexicano que em 1998 tentou chamar a atenção de Ratzinger para as acusações de abuso sexual contra Maciel, disse que o Vaticano permitiu que o então líder dos Legionários de Cristo, falecido em 2008, levasse uma vida dupla durante décadas. “Isso foi tolerado pela Santa Sé durante anos”, disse Athie Gallo. “Nesse sentido, acho que a Santa Sé não pode chegar até o fim dessa questão. Ela teria de fazer uma autocrítica, como autoridade.”

Antigos seminaristas da Legião disseram que Maciel abusou deles a partir do começo dos anos 1940 até o início dos anos 1960, quando tinham entre 10 e 16 anos. Durante anos, Maciel cultivou aliados poderosos entre os cardeais, por meio de presentes e doações em dinheiro, de acordo com reportagem de Jason Berry no National Catholic Reporter. Liderando esses aliados estavam o ex-secretário de Estado do Vaticano e o homem mais poderoso depois do papa João Paulo II, o cardeal Angelo Sodano, agora decano do Colégio Cardinalício e franco defensor de Bento XVI.

“Até que o papa Bento confronte o papel de Sodano na cobertura de Maciel, não vejo como ele pode se mover para além da crise que engoliu seu papado”, disse Berry. Ele relatou que Ratzinger recusou uma oferta de dinheiro dos Legionários. Sodano não respondeu às solicitações por escrito para uma entrevista. Aproximar-se da verdade do que aconteceu com Maciel é dificultado pelo sigilo do Vaticano sobre as suas políticas e tomadas de decisão interna. Também é difícil em razão da reverência a João Paulo II, que saudava a ortodoxia da Legião e sua capacidade de atrair jovens homens ao sacerdócio.

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Maciel fundou os Legionários de Cristo no México em 1941. Eles cresceram e se tornaram influentes e agora dirigem escolas, universidades, instituições de caridade e veículos de comunicação em 22 países. A congregação ganhou ares de culto à personalidade, com fotos de Maciel dominando os prédios da ordem. Os problemas de Maciel com o Vaticano datam de 1956, quando seu secretário pessoal o acusou de abuso de drogas e má administração financeira; ele foi suspenso por dois anos durante uma investigação, depois da qual foi absolvido e reempossado em 1959. “A partir desse momento, ele estava completamente protegido por todo o alto escalão do Vaticano”, disse Fernando Gonzalez, sociólogo que escreveu um livro sobre o caso.

Os relatos de problemas na congregação continuaram, incluindo acusações de abuso sexual enviadas ao Vaticano, começando no final dos anos 1970. Em 1997, nove ex-seminaristas da Legião detalharam o abuso sofrido nas mãos de Maciel numa série de artigos publicados no The Hartford Courant. Naquele mesmo ano, o jornal mexicano La Jornada publicou uma denúncia similar. No ano seguinte, oito desses homens levaram uma reclamação formal à Congregação para a Doutrina da Fé, então liderada por Ratzinger. José Barba Martin, historiador da universidade Itam, no México, foi um deles.

Barba Martin disse que ele e outra vítima encontraram-se com o reverendo Gianfranco Girotti, um dos secretários de Ratzinger, em 17 de outubro de 1998. Barba afirmou que a advogada canônica deles, Martha Wegan, relatou a Girotti casos de abusos sexuais sofridos pelos oito homens. Na saída do edifício, Barba Martin contou, o grupo encontrou-se com Ratzinger e beijou o anel dele. Eles não conversaram sobre o caso. Depois, Wegan disse que o cardeal queria conhecê-los, de acordo com o historiador. Em fevereiro de 1999, a Congregação aceitou oficialmente o caso, de acordo com uma carta de Wegan.

Por volta da mesma época que o caso foi acatado, Athie, que se interessou pelo assunto e ajudava as vítimas de Maciel, escreveu uma carta relatando outra acusação de abuso e a deu ao bispo Carlos Talavera, do México, que lhe disse tê-la entregue a Ratzinger. Em uma entrevista, Athie disse que Talavera – que depois morreu – contou que o cardeal havia lido a carta e decidido não avançar com o caso. “Ratzinger disse que ele não poderia ser aberto porque ele era uma pessoa muito querida pelo papa”, referindo-se a Maciel, “e havia feito muita coisa boa para a Igreja”. Ele também teria tido “lamento muito, mas não é prudente”, segundo Athie.

Saul Barrales, professor que trabalhou como secretário de Maciel e é primo de Talavera, disse ter ouvido do bispo o mesmo relato sobre a conversa. Pouco antes do Natal de 1999, Wegan, a advogada, escreveu a Barba Martin para dizer que tinha “notícias tristes”. Ela disse que Girotti havia lhe dito que eles haviam decidido fechar o inquérito “por enquanto”. Barba afirmou que, numa conversa posterior com Wegan, ela contou que seria melhor que os oito homens inocentes sofressem do que milhões de pessoas perdessem sua fé. Em outubro de 2002, segundo Barba Martin, Wegan lhe contou que Sodano pressionou Ratzinger, aparentemente favorável a prosseguir com o caso, para que abandonasse a investigação. Wegan recusou as solicitações para ser entrevistada.

Vários ex-legionários também disseram que Sodano, o decano do Colégio Cardinalício, era próximo de Maciel e poderia ter exercido um papel tanto em guardar informações sobre ele de João Paulo ou agir para impedir uma investigação. “Era muito claro que Angelo Sodano iria fazer todo o possível para proteger tanto Maciel como a Legião de Cristo”, disse Glenn Favreau, defensor dos ex-legionários que foi ordenado decano na ordem e trabalhou em seu escritório em Roma. Favreau lembra-se de refeições opulentas nos prédios da Legião na cidade para Sodano e sua família ampliada. “Nós os alimentamos com as melhores comidas”, disse ele.

Outros fatores adiaram o ajuste de contas. Alguns questionaram os relatos de abuso; um dos nove reclamantes originais voltou atrás e a Legião espalhou que diversos deles foram inquiridos, mas nada disseram, durante a investigação dos anos 1950. Há quem suspeite de inveja pelo sucesso de Maciel. “As acusações eram de fato vistas como infundadas e uma vendeta contra ele”, disse Sandro Magister, jornalista italiano que acompanhou de perto o caso.

Mas algo mudou. Em dezembro de 2004, Ratzinger abriu uma investigação canônica e disse a Wegan ter decidido “ir até o fim” das acusações, de acordo com os clientes dela. Magister disse acreditar que, quando o cardeal tornou-se mais ciente da magnitude do problema, ordenou que os casos antigos fossem reexaminados. Os simpatizantes de Maciel mantiveram a briga. Em cinco meses de reabertura da investigação por Ratzinger, os Legionários de Cristo em Roma anunciaram que o inquérito estava encerrado – baseados num fax do gabinete de Sodano. No entanto, a exoneração de Maciel foi anunciada em 19 de maio de 2006. Mas só no último sábado o Vaticano oficialmente divulgou o motivo: o “comportamento objetivamente imoral” de Maciel incluiu atos criminosos “e demonstrou uma vida sem escrúpulos e sem um autêntico sentimento religioso”.

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