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A permanente guerra do Irã contra o “Grande Satã” americano

O objetivo iraniano é o confronto com os Estados Unidos, e isso tem sido feito de maneira constante, de forma direta ou terceirizada, com resultados brutais

Por Vilma Gryzinski - Atualizado em 10 jan 2020, 10h36 - Publicado em 10 jan 2020, 06h00

Um pouco de memória ajuda a dar perspectiva. Principalmente quando o calor dos acontecimentos — e dos mísseis Hellfire que pulverizaram Qasem Soleimani — parece anunciar o fim do mundo. Nos últimos quarenta anos, o Irã dos aiatolás tem tentado sangrar o Grande Satã de diferentes maneiras. Algumas delas surpreendentemente bem-sucedidas. Como, por exemplo, derrubar um presidente americano — indiretamente, claro. Jimmy Carter, que acabou se transformando numa espécie de evangélico de esquerda, perdeu a reeleição por causa da tomada da embaixada americana em Teerã, com 52 americanos dentro, que ele tentou inutilmente resolver primeiro pela diplomacia e depois por meio de uma operação militar desastrosa, a Garra da Águia, em 1980. A águia nem chegou ao destino final, com helicópteros quebrados ou caídos no deserto. Foi uma humilhação acachapante.

Ronald Reagan, o ex-ator que derrotou Carter, comemorou a libertação dos americanos minutos depois de tomar posse, mas não escapou da praga. Através de seu preposto no Líbano, o Hezbollah, o Irã causou o maior número de mortes de americanos por terrorismo antes do 11 de Setembro. No terrível ano de 1983, sucederam-se o atentado contra a embaixada americana que dizimou toda a estrutura da CIA no Líbano e o caminhão-bomba que estraçalhou 241 fuzileiros navais. Como tinham sido enviados como força de paz, deixavam o portão de sua base aberto. Reagan retirou rapidamente os militares americanos. Mesmo assim, no ano seguinte o Hezbollah sequestrou o chefe da CIA, William Buckley. Voluntário para reconstruir a agência de espionagem no que era o país mais perigoso do mundo, ele foi levado para o Irã e torturado durante mais de um ano. Os filmes da tortura foram mandados para os Estados Unidos. Um dos torturadores era o psiquiatra Aziz al-Abub, responsável pelos medicamentos que “quebraram” Buckley completamente. Outro, Imad Mughnieh, um gênio do terrorismo explodido ao atravessar a rua em frente a seu esconderijo em Damasco, numa operação conjunta do Mossad e da CIA. Seu filho, Jihad, foi preparado para tomar o lugar do pai e de certa maneira adotado por Qasem Soleimani. Uma das primeiras vezes em que Soleimani bombou nas redes sociais foi ao visitar a sepultura de Jihad, explodido por aviões israelenses quando viajava num comboio na Síria, onde era uma peça importante da rede de sustentação ao regime de Bashar Assad que seu mentor havia montado, com sucesso.

A roda gira e volta para o mesmo lugar? Com certeza. Marg bar Amrika, a “morte à América” repetida em farsi milhões e milhões de vezes nos últimos quarenta anos em diferentes estados de apoplexia, talvez atingindo o ápice no cortejo fúnebre de Soleimani — mais de sessenta mortos, um recorde —, é um dos pilares da revolução islâmica, não um slogan político ao sabor dos acontecimentos. Antes mesmo de seu retorno triunfal ao Irã, sob os escombros do regime do xá Mohammed Reza Pahlevi, no explosivo ano de 1979, o aiatolá Khomeini já explicava o alcance e a ambição da revolução dos turbantes: “Queremos secar as raízes corruptas do sionismo, do capitalismo e do comunismo em todo o mundo. Queremos, tal como quer Alá todo-­poderoso, destruir os sistemas que sustentam esses três pilares e promover a ordem islâmica do profeta”.

“DÉSPOTA ASCÉTICO” – Khomeini: ele queria minar as “raízes corruptas” do capitalismo Bettmann/Getty Images

Osama bin Laden assinaria 100% das palavras de Khomeini, o “déspota ascético” que seu substituto e quase xará, Ali Khamenei, tenta imitar em tudo — bem, talvez a parte do ascetismo seja mais encenação, considerando-se o império de mais de 90 bilhões de dólares que ele e o filho controlam, tudo, claro, em nome da revolução. A diferença é que os ultrarradicais sunitas, primeiro da Al Qaeda e depois do Estado Islâmico, abominam acima de tudo, talvez mais ainda do que os americanos, os takfiri, ou apóstatas xiitas. Quando o Isis irrompeu, na esteira do caos da guerra da Síria e do Iraque desocupado pelos americanos, conquistando uma extensa faixa territorial nos dois países, os xiitas que capturavam vivos só tinham duas opções: “converter-se” de volta ao sunismo ou ser executados. A crueldade em escala inacreditável até para o Oriente Médio e o sucesso além-fronteiras da mensagem religiosa e ideológica que atraiu jovens muçulmanos do mundo todo criaram uma situação peculiar: americanos e iranianos agindo em conjunto contra um inimigo comum. Sem o incomparável poderio aéreo dos Estados Unidos, fora o treinamento dos sempre desorganizados militares iraquianos e a coordenação com os famosamente indômitos curdos, Qasem Soleimani e as milícias que se orgulhava de ser capaz de “montar em um dia”, da Síria ao Afeganistão, ainda estariam penando com um inimigo implacável.

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Assim, numa das muitas ironias da história, o sucesso na desarticulação do Estado Islâmico permitiu ao regime iraniano e a seu mais conhecido operador retomar o foco no objetivo permanente: incorporar o Iraque, definitivamente, ao arco xiita, o corredor de países aliados que dá ao Irã uma massa territorial que chega ao Mediterrâneo e uma vantagem estratégica que não tinha desde o Império Sassânida, o último antes da conquista muçulmana, no século VII. Com o programa nuclear bélico, agora sem sequer o véu do disfarce, o Irã retomaria a posição de potência regional dominante e se tornaria inexpugnável bem debaixo do nariz dos Estados Unidos e de Israel. Ninguém consegue imaginar Donald Trump tomando decisões estratégicas frias e calculadas, com consequências a longo prazo. Mas uma guerra em grande escala atrasaria em muito, muito tempo o grande plano iraniano.

Publicado em VEJA de 15 de janeiro de 2020, edição nº 2669

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