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A natureza sob risco

Relatório das Nações Unidas, fruto do trabalho de 145 cientistas de 50 países, conclui que uma em cada oito espécies pode ser extinta em poucas décadas

Por Jennifer Ann Thomas - 10 maio 2019, 07h00
Arte/VEJA

Qual o real impacto das ações humanas na vida — mais exatamente na sobrevivência — de outros animais e das plantas do planeta? Até a semana passada, não se sabia ao certo a resposta para essa incômoda questão. Na segunda-feira 6, contudo, a Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou um amplo levantamento que dimensionou as consequências mais concretas do avanço civilizatório, desde a pré­-história, sobre os seres vivos, com especial destaque para o que ocorreu nas últimas cinco décadas (leia o quadro).

Ao longo de três anos, 145 cientistas de cinquenta países — ligados à Plataforma Intergovernamental Político-Científica sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), o braço da ONU responsável pela compilação — se debruçaram sobre 15 000 artigos científicos para chegar aos resultados. O cenário é alarmante. Dos cerca de 8 milhões de espécies de animais e plantas existentes no globo, 1 milhão está sob ameaça de extinção. No continente, o principal grupo de risco são os anfíbios — 40% deles podem desaparecer em poucas décadas.

Nos oceanos, o perigo é maior para os mamíferos, com um terço no limiar. Contribuiu decisivamente para isso o fato de que 47% dos ecossistemas foram reduzidos — o que pôs sob ameaça fatal um quarto de todas as espécies de plantas e animais da Terra estudadas mais a fundo. Em números absolutos, a natureza sofreu em um patamar ainda maior. Estima-se que a biomassa global — a soma da massa de todos os organismos vivos — dos mamíferos selvagens tenha sido reduzida em 82%. Somente a partir de 1900, a quan­tidade de espécies nativas de cada hábitat caiu, em média, 20%.

RARIDADE - O sapo-de-kihansi, da Tanzânia, não é mais encontrado em seu hábitat Julie Larsen/.

O relatório identificou os principais fatores que causaram essa trágica situação. São eles: a alteração no uso do solo e dos oceanos, acarretando problemas como o da poluição; a exploração direta dos recursos naturais, o que leva, por exemplo, ao desmatamento; a inserção de espécies não nativas em determinados hábitats, desequilibrando-os; e, em especial, as mudanças climáticas que afetaram o mundo, ocasionando o aumento de 1 grau na temperatura global desde a Revolução Industrial. As Nações Unidas, por meio de outro órgão ambiental de seu organograma, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), pressionam os 193 países-membros a adotar medidas de mitigação capazes de conter o avanço do aquecimento da Terra. Se essas ações não forem eficientes, a elevação poderá chegar a 4 graus até o fim deste século. Em consequência desse aumento, ao menos 16% de todas as espécies de seres vivos poderão ser extintas.

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A raiz do problema está em como a atividade humana — da expansão urbana ao despejo de gases do efeito estufa na atmosfera — interfere nos chamados serviços ecossistêmicos. Qualquer alteração no meio ambiente promove uma consequência em cadeia que chega a levar a alterações radicais no balanço natural, afetando regimes de chuvas, a polinização de plantas e a produção de alimentos, para ficar em apenas alguns aspectos. Trata-se de uma derivação da conclusão da Hipótese de Gaia, formulada na década de 70 pelo cientista ambientalista James Lovelock, segundo a qual o equilíbrio químico da atmosfera e de outras partes de um planeta é determinante para a manutenção da biomassa e da biodiversidade. Ou seja, quando se aumenta o desmatamento em uma floresta, interfere-se também, por exemplo, na produção de chuva, do mesmo modo que, se houver redução da população de abelhas em certo local, ocorrerá interferência na germinação das flores — e, como efeito indireto, na oferta de alimentos aos animais que habitam aquela área.

AMEAÇA PROFUNDA - Nos oceanos, colônias inteiras de corais foram devastadas; o impacto também atingiu tubarões Pete Nielsen/.

O ser humano, claro, também não escapa dessa cadeia. Mais de 2 bilhões de pessoas dependem, por exemplo, da queima de carvão como fonte de energia primária, 4 bilhões necessitam de medicamentos orgânicos, como as ervas, para sobreviver — vale ressaltar que cerca de 70% dos fármacos para tratamento de câncer dependem de produtos naturais. Se há diminuição da oferta desses recursos, por causa da devastação do meio ambiente, seus preços sobem, o que pode fazer com que muitos indivíduos deixem de ter acesso a tais produtos.

Na divulgação do levantamento da ONU, os cientistas foram taxativos quanto à exatidão dos resultados. “Conseguimos assegurar uma base muito sólida de provas que confirmam o declínio da natureza em termos globais. Os dados também mostram a evidência, irrefutável, da escala da queda de biodiversidade”, disse o antropólogo brasileiro Eduardo Brondízio, da Universidade de Indiana (EUA), um dos coordenadores do trabalho. Para ele, tornou-se inegável que o responsável pelo cenário devastador é o ser humano. “Criou-se um efeito cascata na sociedade e na natureza”, concluiu.

Se os responsáveis pelo estudo fizeram questão de não relativizar as ameaças que pairam sobre o planeta, também foram incisivos quando disseram que ainda há tempo de reverter as previsões mais catastróficas. Para tanto, a providência seria incentivar governantes a adotar políticas sustentáveis em seus países. Os cientistas apontaram, por exemplo, em conclusão inédita, qual seria o papel de comunidades tradicionais, como as indígenas, na preservação do meio ambiente. Segundo o levantamento, 35% das áreas protegidas da Terra dependem do cuidado dessas sociedades. Ocorre, no entanto, que, em vez de atentarem para isso, muitas nações têm seguido o caminho oposto. Atualmente, os povos indígenas sofrem com a deterioração de algo em torno de 70% dos indicadores da natureza que seriam fundamentais para a manutenção de seus hábitos cotidianos.

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MANGUES E PÂNTANOS - Áreas úmidas, como o Pantanal, estão ameaçadas ./iStock/Getty Images

O biólogo americano Thomas Lovejoy — um dos mais renomados ambientalistas do planeta e autor de um artigo sobre o novo levantamento da ONU, publicado também na segunda-feira 6 na revista dos EUA Science Advances — disse o seguinte a VEJA: “Os líderes nacionais que negam toda essa realidade estão prestando um desserviço em âmbito local e global. A boa notícia é que países como o Brasil e os Estados Unidos possuem altos níveis de conhecimento sobre as dificuldades ambientais que o mundo enfrenta”. De acordo com um estudo realizado pela ONG ambientalista WWF, no Brasil, as espécies ameaçadas somam 3 286, sendo 1 173 de exemplares da fauna e 2 113 da flora. Do total, não há nenhuma medida de proteção a 316 dessas espécies. No território nacional, 77% dos seres vivos ameaçados de extinção encontram-se nessa categoria por causa da degradação de seus hábitats.

“O Brasil é a maior potência de biodiversidade da Terra. O relatório da ONU aponta problemas conhecidos, e agora precisamos dos meios para enfrentá-los”, afirmou o engenheiro florestal André Ferretti, da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza. “Já há tecnologias e métodos que atendem às necessidades conservacionistas. O que falta é direcionar recursos financeiros para isso, o que só será possível de conseguir por meio de políticas públicas apropriadas.” Nesse quesito, o país não anda bem. Basta levar em conta que, nas últimas duas semanas, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, anunciou uma série de cortes em instituições ambientais. A verba destinada ao Ibama, por exemplo, teve diminuição de 24% (de 368,3 milhões de reais para 279,4 milhões). O que seria alocado para a Política Nacional sobre Mudança do Clima caiu de 11,8 milhões de reais para míseros 500 000 reais — uma redução de 96%.

Com reportagem de Sabrina Brito

Publicado em VEJA de 15 de maio de 2019, edição nº 2634

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