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A “estrela” de Hong Kong empalidece

Companhia de ferryboat vai encerrar suas operações na baía de Hong Kong após 113 anos de operação

Durante a Segunda Guerra Mundial, os barcos verdes se tornaram famosos porque serviram para evacuar da península de Kowloon os refugiados das tropas aliadas depois da invasão japonesa de 1941

Uma lenda está prestes a desaparecer na ex-colônia britânica de Hong Kong. Os barcos da centenária companhia Star Ferry deixarão de fazer metade de suas rotas mais emblemáticas, que atravessam a baía de Hong Kong, em março de 2011, devido a perdas financeiras.

Turistas, usuários habituais e saudosistas têm menos de quatro meses para relembrar o encontro entre Robert Lomax (William Holden) e Suzie Wong (Nancy Kwan) nesse ferry, em O Mundo de Suzie Wong (1960, direção de Richard Quine).

Não foi esta, no entanto, a única aparição dos chamativos barcos de cor verde nas telas de cinema. Durante a Segunda Guerra Mundial, se tornaram famosos porque serviram para evacuar da península de Kowloon os refugiados das tropas aliadas depois da invasão japonesa de 1941.

Mas agora a companhia decidiu jogar a toalha, sufocada por anos de prejuízos, a dura concorrência das ferrovias e a abertura de um túnel que une a ilha ao continente. A soma desses fatores provocou uma drástica queda no número de passageiros. Até um ponto em que nas filas para se chegar aos barcos que unem Hung Hom (na parte continental de Kowloon) aos distritos de Central e Wan Chai (na ilha) não se vêem mais homens de negócios. Apenas turistas, e poucos deles.

“É difícil justificar aos acionistas perdas anuais de 10 milhões de dólares de Hong Kong (1 milhão de euros)”, comenta Johnny Leung, diretor-geral da companhia.

E os responsáveis ainda temem tempos piores para a empresa fundada em 1898 por Dorabjee Nowrojee, um cavalheiro pársi, com o nome atual de Star Ferry (inspirado no primeiro verso do poema Crossing the Bar, de Alfred, Lord Tennyson).

Os temores têm sua origem nas obras de construção de um novo terminal de ônibus no píer de Tsim Sha Tsui, em Kowloon, e a reurbanização do píer de Wan Chai, que deve durar dois anos. A única conexão que ainda será mantida pela Star Ferry, junto com a de Tsim Sha Tsui com Central.

A queda começou em 1978, quando foi inaugurado o túnel que cruza a baía. Dois anos depois, começou a funcionar a primeira linha de metrô. O golpe de misericórdia chegou em 2006, quanto teve de abandonar a privilegiada localização de seu terminal no distrito Central, em frente ao Hotel Mandarin Oriental, para dar lugar a uma avenida que une Central com Wan Chai. A troca por um local mais distante representou uma perda diária de 10 mil passageiros, quase 20% do total. O que nem tufões ou guerras foram capazes, foi conseguido pelo crescimento econômico de Hong Kong.