Assine VEJA por R$2,00/semana
Continua após publicidade

A volta do prazer de cozinhar em casa

O isolamento tem feito pessoas sem a menor experiência com as panelas. O organismo agradece

Por Adriana Dias Lopes Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 19 jun 2020, 12h37 - Publicado em 19 jun 2020, 06h00

A pandemia do novo coronavírus provocou uma revolução silenciosa, a portas fechadas, na vida dos brasileiros: a mudança na alimentação. O confinamento, que nos obrigou a ficar dentro de casa, em muitas situações sem a ajuda profissional para as tarefas domésticas, pôs a cozinha no lugar central na rotina das famílias. Levantamento feito pela empresa inglesa de mercado GlobalWebIndex com dezessete países mostrou que um terço dos brasileiros passou a cozinhar desde o início da quarentena — e comida de verdade. As receitas prediletas são aquelas em que cada ingrediente é preparado artesanalmente. O prático e insosso caldo de carne em cubos, que pode ser diluído instantaneamente em água fervente, foi substituído por receitas caseiras com pedaços de bife e osso que demandam não menos de uma hora para ficar prontas. Os temperos desidratados, em pó, deram lugar a plantinhas frescas e cheirosas. A saúde agradece, com efeitos evidentemente positivos (veja no quadro ao lado). O ícone dessa transformação é a ex-modelo Rita Lobo, dona da marca de sucesso Panelinha. Em seu programa de televisão pelo canal GNT, Cozinha Prática, e nas apresentações pelo YouTube ela valoriza a “comida de antigamente”, aquela preparada por nossos avós, com jeitinho caseiro, alimentos naturais e o mais decisivo: de forma simples, para quem não tem experiência. Ela mesma se interessou pelo forno e fogão apenas aos 18 anos, já crescida, quando desejou uma atividade paralela que durasse a vida toda — e que se transformou em ganha-pão. “Aprendi a cozinhar em escolas e livros”, diz nas redes sociais.

Pedir a comida pronta em um restaurante ou lanchonete tem ainda papel decisivo em tempos de quarentena, obviamente. Apenas em São Paulo, houve um aumento de 200% no uso dos aplicativos de delivery. Mas, com a reclusão durando mais do que o imaginado, deu-se a urgência de total dedicação às atividades domésticas — além da economia. “O atual movimento de volta para a cozinha é um dos mais significativos das últimas décadas”, diz o nutrólogo especialista em gastronomia Daniel Magnoni, do Hospital do Coração.

(./.)

Depois da II Guerra Mundial, grandes companhias começaram a produzir comida barata e pouco nutritiva. Preocupava-se mais com o barateamento dos produtos e dos processos de produção do que com a saúde dos consumidores. Mas isso não foi de todo ruim. A profusão de alimentos industrializados, alguns muito bons, e as várias formas de empacotamento permitiram o planejamento antecipado de um cardápio inteiro, dispensando a atenção de uma pessoa da casa para o preparo de uma refeição. Paralelamente, as redes de lanches rápidos, lançadas nos Estados Unidos, substituíram os talheres por embalagens. Foi um modo de adaptação à vida moderna, necessário, embora nem sempre saudável. Nos anos 1980, o movimento alimentar chamado slow-food surgiu na Itália como uma reação contrária à tentativa de construção de um McDonald’s na Piazza di Spagna, em Roma. O objetivo: defender as tradições gastronômicas regionais e as refeições de longa duração. A partir de então a sociedade passou a exigir produtos mais equilibrados, com informações transparentes nos rótulos. Gigantes da indústria alimentícia se adaptaram, lançando marcas com baixo teor de açúcar, sal e gorduras, sem lactose, sem glúten ou provenientes de fazendas orgânicas. Empresas e startups usam recursos tecnológicos para tornar os alimentos bons e adaptados às novas demandas, baseadas em rigorosos estudos científicos. “O que se vê agora é diferente”, diz Priscilla Primi, professora de nutrição da Universidade Paulista (Unip). “Não é apenas a procura por uma dieta equilibrada, mas a descoberta do prazer de cozinhar o próprio alimento.” Que a mudança tenha vindo para ficar.

Publicado em VEJA de 24 de junho de 2020, edição nº 2692

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

O Brasil está mudando. O tempo todo.

Acompanhe por VEJA.

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 2,00/semana*

ou
Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 39,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$96, equivalente a R$2 por semana.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.