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Vidigal, uma fábrica de boxeadores

Situado na favela, o centro de treinamento por onde passou Patrick Lourenço e Michel Borges é um exemplo de como o empenho pode vencer a falta de dinheiro

É em uma antiga oficina mecânica que o talento de dois pugilistas foi descoberto e talhado. Patrick Lourenço, já eliminado da Olimpíada, e Michel Borges, que disputa uma vaga nas semifinais do boxe no domingo, jamais se imaginaram no picadeiro máximo do esporte. Muito cedo, chamaram a atenção do ex-boxeador Raff Giglio, 51 anos, dono de um centro de treinamento na favela do Vidigal, Zona Sul do Rio de Janeiro. O espaço de 200 metros quadrados recebe crianças do morro e lhes oferece, de graça, condições para que se tornem atletas.

O centro vive na corda-bamba financeira. Às vezes, falta faxina, falta ringue e até luvas. É nessa estrutura, sem qualquer apoio da Confederação Nacional ou de governos, que nascem atletas como Patrick e Michel. “Há muito talento na favela, mas ninguém investe. É triste constatar a escassez de dinheiro para treinar potenciais pugilistas olímpicos. Conseguir patrocínio é uma saga, quando conseguem.”

Raff Giglio, o idealizador do centro de treinamento de boxe na favela do Vidigal Raff Giglio, o idealizador do centro de treinamento de boxe na favela do Vidigal

Raff Giglio, o idealizador do centro de treinamento de boxe na favela do Vidigal (Veja/VEJA)

Giglio, o ex-boxeador que banca o centro, é de Ipanema. Em 1993, ele montou uma academia de boxe no acesso à favela, bom negócio até que uma longa guerra entre traficantes fez o lugar ficar às moscas. Só restaram ali os moradores do morro. Giglio encontrou uma oficina mecânica que estava prestes a fechar e, com a ajuda do ator Malvino Salvador, conseguiu pagar o aluguel. O próprio Giglio refez o teto e tirou a graxa espalhada nas paredes. A reforma, custeada com venda de doces e festas beneficentes, se arrastou um ano pela falta de pessoal e de dinheiro. Hoje, 100 crianças estão no projeto social.

“Os alunos que moram nos bairros nobres do Rio não querem levar soco de verdade. Na favela, os garotos já nascem lutando para sobreviver, por isso a maioria dos boxeadores é de periferia”, diz Giglio, a propósito da alta procura. A um mês da Olimpíada, ele não arranjou dinheiro para mandar um atleta e um técnico para o campeonato brasileiro de boxe em Cuiabá, na categoria Cadete, de 15 a 16 anos. “Foi uma ironia, às vésperas dos Jogos, não conseguir com o governo nenhum tostão. É esse o incentivo que temos”, se queixa. A solução foi a de sempre: pagou do próprio bolso.

É consenso no esporte que, sem um bom sistema de rastreamento e treino de talentos na base, não é possível avançar em qualquer modalidade. Mas, no Brasil, a base vive muitas vezes da boa vontade de gente como Giglio. Potenciais atletas também perdem o estímulo, principalmente nas favelas, porque têm que trabalhar mais cedo para ajudar em casa. Os que não têm a pressão do dinheiro podem investir mais. É o caso do boxeador Esquiva Falcão, prata em Londres e também formado no Vidigal.

Foi Giglio que o levou à favela para voltar a treinar, justamente em um momento em que ele havia largado o boxe, em 2007. Depositou 100 reais para que Esquiva comprasse a passagem do Espírito Santo ao Rio, o buscou na rodoviária e ofereceu a academia como casa. Um ano depois, ele foi chamado à seleção brasileira e acabou conquistando a medalha em Londres. Desde então, Giglio passou a ser chamado de “paizão”. No domingo, ele estará o mais próximo que conseguir de Michel Borges. Vai sair de casa na expectativa de ver o pupilo no pódio.