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‘Tragédia anunciada’, diz autora de livro sobre incêndio no Ninho do Urubu

Em entrevista exclusiva a VEJA, Daniela Arbex conta detalhes do livro "Longe do Ninho", lançado nesta segunda-feira

Por Mafê Firpo
Atualizado em 5 fev 2024, 15h37 - Publicado em 5 fev 2024, 10h52

Quase cinco anos após a tragédia no Ninho do Urubu, que matou dez adolescentes e deixou outros três feridos, a jornalista Daniela Arbex, autora do Holocausto Brasileiro e Arrastados, lançou nesta segunda-feira, 5, o livro Longe do Ninho (Intríseca). A investigação conta detalhes sobre a madrugada do dia 8 de fevereiro, recriando com minúcias a cena do incêndio e revelando a negligência do Flamengo sobre o ocorrido. Entre as assustadoras revelações do livro está a de que os meninos não morreram dormindo, mas sim lutando por suas vidas. 

Como divulgado anteriormente pelo UOL, o “fogo acidental” alegado pelo Flamengo passava longe de ser verdade, já que os dirigentes e gestores sabiam dos problemas na parte elétrica. Segundo os órgãos públicos, o clube havia sido notificado sobre as irregularidades nas instalações que os garotos estavam abrigados. No entanto, como Daniela revela em seu livro, o Centro de Treinamento que abrigava os adolescentes funcionava sem alvará desde 2012, nove anos antes do incidente. 

O funcionamento impróprio do contêineres foi esquecido pelos agentes públicos até 2017, quando o Ministério Público aplicou a uma multa no valor de R$802,46. A mesma multa foi aplicada quase um mês depois por descumprimento da norma pelo Flamengo, que insistia em manter o local. 

“O Flamengo só agia depois que o Ministério Público os acionava através de uma fiscalização. Mas o clube só reagia, só pensava em agir a rebote”, ressaltou Daniela a VEJA.

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Capa do livro “Longe do Ninho”, de Daniela Arbex. (Intríseca/Reprodução)

Entretanto, para a jornalista, além da negligência por parte do Flamengo, o Ministério Público agiu de maneira lenta, mesmo sabendo do perigo iminente dos dormitórios. Além disso, diversas multas foram aplicadas pela Prefeitura do Rio de Janeiro ao clube, que as pagava mas não mudava a infraestrutura do local. 

“Infelizmente o tempo da justiça não é o mesmo tempo de quem precisa dela”, comentou Daniela. “Quantas vezes você vai aplicar multas e irrisórias e você vai dormir tranquilo que você aplicou uma multa de 802 reais para o maior clube do Brasil. Essa falta de diligência deles de tomarem medidas para acabar com o problema levou ao dia 8 de fevereiro de 2019”, ressaltou.

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Arapuca Mortal 

Já em relação aos contêineres que os meninos dormiam, o livro mostra que sua estrutura era feita com chapas de aço que funcionavam como um “alto-forno”, o que diminuía a chance dos meninos de sobreviver. As portas também estavam em desacordo com as normas de segurança aplicadas na época, já que eram de correr. Havia também apenas uma saída do contêiner. Outra descoberta foi que a espuma encontrada no interior dos painéis era feito de poliuretano,  o mesmo material encontrado na boate Kiss. O tipo de revestimento utilizado na locação dos atletas também chegou a ser alvo de atenção do Comitê Olímpico Brasileiro em 2016.

“Em junho de 2018 já havia sido feita uma fiscalização cujo relatório, e eu falo que é premonitório porque é um relatório que aponta que num caso de uma emergência noturna haveria grandes dificuldades pela presença de apenas um monitor”, contou Daniela a VEJA. “E foi exatamente o que aconteceu, então a gente pode falar que foi uma tragédia anunciada”. 

Durante o incêndio, o abrigo chegou a uma temperatura de 600 graus Celsius, dando apenas alguns minutos para os meninos fugirem. As janelas também não facilitaram a fuga por serem gradeadas, restando apenas a única saída como rota de fuga do incêndio colossal. 

A promessa de transferência dos contêineres ao Centro de Treinamento 2 foi feita em novembro de 2018, quando o local foi inaugurado, e os meninos deveriam se mudar para os novos quartos em janeiro. Porém, esta foi mais uma promessa não cumprida pelo Flamengo que remarcou a transferência para meados de fevereiro.

Fuga pela sobrevivência

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O fogo começou por volta das 5h da manhã no quarto 6 quando um ar-condicionado sofreu um curto-circuito. Dentre os 26 adolescentes que dormiam nos contêineres, dez não conseguiram encontrar a saída. Desses dez, cinco morreram asfixiados pela fumaça. Já os outros lutaram pela sobrevivência em meio ao fogo e calor escaldante. 

Entre os que morreram em fuga por suas vidas, Gedson Santos, Bernardo Pisetta, Vitor Isaías, Arthur Vinícius, e Pablo Henrique, foram os únicos que conseguiram sair do quarto 4. Arthur perdeu os sentidos entre os quartos 3 e 2. Vitor Isaias e Pablo Henrique tentaram sair ajudando um ao outro, com um carregando o outro no colo, mas logo perderam a consciência. Já Gedinho, como Gedson era chamado pelos mais próximos, desmaiou a menos de meio metro da saída. 

“Eles foram tão grandes, tão maduros e capazes de estender a mão para os amigos em um momento em que eu acho que nós adultos não conseguiríamos. A grandeza que eles tiveram de carregar o amigo nas costas e morreram os dois. Eles são um grande exemplo de solidariedade”, afirmou a jornalista. 

Os outros cincos não sobreviventes foram Athila Paixão, Christian Esmério, Jorge Eduardo Santos, Rykelmo de Souza Vianna e Samuel Thomas Rosa. Já entre os feridos estão Cauan Emanuel, Francisco Dyogo e Jonathan Cruz. 

Hoje, os sobreviventes e as famílias enfrentam sofrimento diário em memória aos laços afetivos perdidos. Até o momento, a família do goleiro Christian Esmério foi a única a não aceitar o acordo de indenização com o Flamengo.

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