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“Sou tricolor, ainda quero jogar uns anos no São Paulo”

Entrevista com o uruguaio Diego Forlán, o melhor jogador da Copa 2010

Diego Forlán foi o grande protagonista da campanha da seleção uruguaia na Copa do Mundo da África do Sul, encerrada no último domingo. É o melhor desempenho do país desde o Mundial de 1970. Mesmo sem jogar a grande decisão – o Uruguai terminou a Copa na 4ª posição -, o atacante de 31 anos foi eleito pela Fifa o melhor jogador da competição, desbancando outros favoritos ao caneco (o holandês Sneijder e os espanhóis Xavi e Iniesta, por exemplo). Autor de cinco gols no Mundial deste ano, Forlán falou a VEJA.com por telefone de sua casa em Montevidéu sobre o valor do troféu que recebeu, da campanha do Uruguai e da sua vontade de jogar no Brasil.

Qual a sensação de ser um dos protagonistas da melhor campanha do Uruguai nos últimos 40 anos?

Estou muito contente de ter correspondido à expectativa popular. O Uruguai é um país que tem uma tradição futebolística muito rica, tem uma torcida tão exigente quanto a brasileira. Estou muito feliz.

O que faltou ao Uruguai para chegar à final?

Tomamos três gols em uma partida decisiva, contra a Holanda – isso é muito para uma semifinal. Marcamos dois gols, mas levamos três. Essa foi a nossa falha, porque nos outros jogos tomamos poucos gols. Tentar virar uma partida perdendo por um é difícil, imagine por três…

Qual derrota doeu mais, contra a Holanda ou contra a Alemanha (na disputa do terceiro lugar)?

Contra a Holanda. Perdemos a oportunidade de jogar uma final. Toda a energia, toda a concentração estava naquela partida. Depois, retomar o foco para disputar o terceiro lugar é quase impossível.

A recepção em Montevidéu foi para verdadeiros campeões. Você se sente um campeão?

Pessoalmente, não. Desperdiçamos uma oportunidade única de chegar à final de uma Copa. Ficamos a uma partida de realizar algo histórico. Nunca saberemos se venceríamos, mas só o fato de ficar com essa dúvida já deixa uma certa bronca. O carinho que recebemos na volta a Montevidéu aconteceu pela maneira como a equipe jogou. Em outras Copas, fomos criticados por jogar mais defensivamente. Dessa vez os torcedores viram nossa seleção jogando um bom futebol. Por isso ficaram tão orgulhosos.

O que significa o prêmio de melhor jogador da Copa?

É algo que nunca imaginei acontecer, ser melhor da Copa, o número 1. É algo incrível, se olharmos a quantidade de bons jogadores que disputaram esse Mundial, as estrelas de quem tanto se esperava, e terem escolhido justamente a mim como o número 1… é algo extraordinário.

É também um prêmio de consolação para o time?

É o produto do trabalho de um grupo. Se cheguei em primeiro foi graças aos companheiros que me permitiram fazer o trabalho da melhor maneira possível. Por isso acho que esse prêmio é importante para toda a seleção: é como se cada um tivesse sido premiado.

Nem Brasil nem Argentina. Por que vocês chegaram à semi?

Em um campeonato curto, um erro apenas pode custar muito caro. Tinha certeza que passaríamos da fase de grupos, mas o que aconteceria dali em diante era imprevisível. Veja o Brasil, um dos favoritos: dominou a partida no primeiro tempo contra a Holanda e merecia vencer. Assistindo ao jogo pensei: “Vão fazer 3 a 0”.

Mas aí veio o segundo tempo…

Pois é, e aconteceram dois erros cruciais que decidiram a partida. O Brasil ficou fora e não merecia, pois a Holanda não fazia uma Copa melhor que a do Brasil. Chegamos mais longe que Brasil e Argentina porque cometemos menos erros, mas só até a semifinal…

Diego Forlan Diego Forlan

Diego Forlan (/)

Contra Gana, quando Suárez pôs a mão na bola, o que passou pela sua cabeça?

Naquele momento, não tinha dúvidas de que estávamos fora. E o que mais doía era a maneira pela qual estávamos saindo: com um pênalti, no último minuto da prorrogação, após conseguirmos empatar uma partida tão dura. O que aconteceu na sequência foi incrível: o ganês perdeu a cobrança, o jogo terminou e nos classificamos por pênaltis. Ao final da partida disse ao Suárez: “Você não marcou com os pés, mas praticamente marcou um gol quando defendeu aquela bola com a mão”.

O que você achou do título da Espanha?

Ficou em boas mãos. Apesar do tropeço no início, os espanhóis terminaram o Mundial jogando bem e, quando isso acontece, é um resultado justo.

Na próxima Copa você terá 35 anos. Acha que poderá jogar no Brasil?

Espero que sim. Seria fantástico jogar no Brasil, mas ainda faltam quatro anos. É cedo para falar qualquer coisa.

Será que acontecerá um novo “Maracanazo”?

Não, não. Acho difícil acontecer novamente. Primeiro, vamos nos classificar e depois da Copa falamos sobre isso. Realizamos um ótimo trabalho na África do Sul, mas ainda não foi o suficiente. É preciso seguir trabalhando, com humildade e respeito, para evoluir e poder pensar em títulos.

Você foi campeão europeu com o Atletico de Madri. Não é hora de ir para um clube maior?

Acho que não. Estou na melhor fase de minha carreira e feliz no Atlético, com mais três anos de contrato. O que quero agora é sair em férias e descansar. Não vou pensar nisso agora.

Seu pai – Pablo – jogou no São Paulo e Cruzeiro e foi ídolo por aqui. Você pensa em atuar em gramados brasileiros?

É um dos meus objetivos. Seria a realização de um sonho jogar alguns anos no São Paulo. Meu pai é ídolo do clube e sou um torcedor do “tricolor”.