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Opinião: o que Messi nos Estados Unidos ensina ao futebol brasileiro

A visão que os americanos têm sobre a necessidade de crescimento coletivo do futebol chega a ser utópica quando olhamos para a realidade nacional

Por Eduardo Carlezzo*
Atualizado em 9 jun 2023, 18h13 - Publicado em 9 jun 2023, 16h14

Em uma palavra: solidariedade. De quem? Dos demais 28 clubes americanos com a Inter Miami. De que forma? Deixando de comer um pedaço do bolo agora para comer um bolo inteiro lá na frente. E no Brasil? Aqui a fome é tanta que se quer comer o bolo inteiro de forma imediata sem que o recheio sequer tenha sido colocado.

A visão que os americanos têm sobre a necessidade de crescimento coletivo do futebol chega a ser utópica quando olhamos para a realidade nacional. A transferência do Messi para o Inter Miami é representativa desta diferença entre o coletivo e o individual. Vejamos, com bases nas notícias divulgadas até aqui.

Além de receber um salário anual de impressionantes 60 milhões de dólares, o jogador teria uma participação sobre as receitas geradas pelo acordo de transmissão de jogos assinado pela MLS com a Apple, que pagará 2.5 bilhões de dólares durante 10 anos à MLS. Igualmente, teria uma participação sobre lucros da Adidas em seu contrato com a MLS, que receberá 830 milhões de dólares durante 6 anos para dar a Adidas o direito de ser a provedora exclusiva de material esportivo das 29 equipes.

Não confirmada oficialmente, existe ainda a menção sobre uma possível preferência dada ao Messi para que possa criar um novo clube participante da MLS, semelhante à concedida ao Beckham em 2007. Para dar um exemplo do quanto vale isso, em maio deste ano a liga anunciou a criação de seu trigésimo clube, a ser sediado em San Diego, mediante o pagamento de 500 milhões de dólares à própria liga.

Portanto, não é preciso ser um matemático para rapidamente verificar-se que os demais 28 clubes da MLS estão renunciando a uma receita que poderia ser recebida por eles em algum momento. Além disso, e não menos importante, estão dando condições para que seu adversário se reforce com o maior jogador do planeta, o que deve gerar para o Inter resultados positivos dentro de campo. Porém, nada disso foi um entrave para a conclusão do negócio quando todos jogam, fora das quatro linhas, pelo crescimento coletivo do produto. A maturidade com que os donos dos clubes tratam o assunto nos Estados Unidos é uma das razões do sucesso da MLS.

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Voltemos ao Brasil. Pense rápido: alguém conseguiria imaginar o Neymar retornando ao país para jogar por um dos clubes da série A mediante acordos que resultariam na retirada de recursos dos demais 19 clubes, beneficiando este clube contratante do atleta? Impossível. Inimaginável.

Infelizmente a dinâmica por trás dos nossos clubes é individualista e egoísta, sendo que o objetivo principal é o crescimento exclusivo do próprio clube sem preocupação com o coletivo. Enquanto nos Estados Unidos prevalece o conceito de que “quanto mais fortes sejam todos os clubes melhor para todos”, aqui navegamos pela premissa do “quanto mais forte meu clube melhor para mim”.

Nada mais ilustrativo disto do que a injustificável ruptura para a criação da liga nacional que levou a constituição de 2 blocos de clubes, a Libra e o Futebol Forte. É quase que inacreditável imaginar que após o consentimento da CBF para que os clubes criassem a liga nacional eles ainda não tenham conseguido chegar a um acordo.

Fui diretor jurídico da Primeira Liga quando, em 2015, 12 clubes, contando com algumas das mais tradicionais marcas do futebol brasileiro, se associarem para criar uma liga independente visando dar os primeiros passos para a criação de uma liga nacional. Lembro bem de toda a pressão que a CBF exerceu para que a Primeira Liga fosse rapidamente implodida, entre ameaças de suspensão e afastamento da Libertadores aos seus membros. Hoje nada disso ocorre. A CBF, numa decisão corajosa e muito positiva ao futebol brasileiro, autorizou os clubes a formarem a liga. O mais difícil já ocorreu.

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Por isso, precisamos de uma liga para ontem e a negociação dos direitos de TV a partir de 2025 deve ser coletiva, por 40 clubes, e não por blocos ou individualmente. Todos perdem com isso, além de passar uma imagem tabajara aos olhos do mundo, que se pergunta, sem entender, por que existem duas ligas no Brasil.

Se quisermos elevar nosso futebol ao nível das 5 grandes ligas da Europa temos que pensar e atuar de forma coletiva. Basta de individualismo e protecionismo, precisamos de solidariedade.

 

*Eduardo Carlezzo, sócio do Carlezzo Advogados, é especialista em direito desportivo e ex-diretor jurídico da Primeira Liga

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