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O Pan é uma festa. Mas em Londres não vai ser tão fácil

Uma comparação entre o desempenho dos medalhistas brasileiros no México e as marcas olímpicas alerta: é melhor colocar os pés no chão antes de 2012

Contra rivais melhores, as marcas inevitavelmente melhoram, pois todos estão competindo no topo de sua capacidade. Será assim em Londres, daqui a oito meses

Em 2007, competindo em casa, a delegação brasileira cumpriu bom papel nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro. Apesar de não ter conquistado o segundo lugar no quadro de medalhas, como era sonhado, ficou atrás apenas de Estados Unidos e Cuba – e só por causa do maior número de ouros cubanos, já que, em números totais, os brasileiros faturaram mais medalhas (163 contra 137). Foi o bastante para a equipe olímpica do país embarcar rumo a Pequim, menos de um ano depois, com pretensões ambiciosas. Mas na Olimpíada, evidentemente, as coisas não são tão fáceis assim. O Brasil encerrou sua participação nos Jogos no 23º lugar, com quinze medalhas, apenas três de ouro. Quem esperava muito mais não levou em conta uma das regras de ouro de cada ciclo olímpico: em algumas modalidades, vencer no Pan não significa absolutamente nada quando se trata da maior competição esportiva do planeta. A torcida brasileira se arrisca a sofrer a mesma decepção se levar em conta apenas os resultados do Pan de Guadalajara, que termina neste fim de semana. O país passou boa parte da competição na segunda posição, à frente de Cuba. Levou medalhas nas mais diversas modalidades, e foi soberano em algumas delas. Mas que os brasileiros não pensem que esses resultados já garantem um atalho para o pódio olímpico no ano que vem, em Londres. Antes de embarcar para os Jogos, é bom colocar os pés no chão e reconhecer: ainda que seja agradável e estimulante, uma vitória no Pan está longe de credenciar um atleta à glória olímpica.

Guadalajara é só um ensaio

A participação de Brasil e Estados Unidos no Pan sob o foco da edição de VEJA desta semana:

  • 616 atletas americanos no Pan do México
  • 520 atletas brasileiros
  • 203 medalhas para americanos até o dia 27, 79 de ouro
  • 110 medalhas para brasileiros, 39 de ouro
  • 285 estão entre os melhores dos EUA. As estrelas da natação e do atletismo ficaram de fora. As equipes são compostas, basicamente, de estudantes
  • 93% da delegação brasileira é formada por atletas de elite

Alguns ouros que os atletas brasileiros conseguiram no México podem, é claro, se repetir em 2012. Na natação, César Cielo, campeão nos 50 metros e nos 100 metros nado livre, chegará como favorito a Londres. O vôlei – masculino e feminino, de quadra ou de praia – é candidato forte. O judô, com atletas experientes como Leandro Guilheiro e Tiago Camilo, sempre tem boas chances de medalha. Em algumas provas, entretanto, basta comparar os resultados dos medalhistas brasileiros em Guadalajara com as marcas conquistadas pelos melhores atletas do mundo para saber que é injusto esperar deles um pódio na Olimpíada (confira no quadro abaixo). Não se trata, diga-se, de ignorar a relativa importância do Pan, cujos vencedores têm seus méritos inquestionáveis. Além disso, recomenda-se não perder de vista que os números de Guadalajara podem não ser os melhores que um atleta é capaz de alcançar – a disputa está acontecendo numa cidade de altitude elevada, o que tem impacto comprovado no desempenho dos atletas. Para completar, há um elemento peculiar que qualquer atleta de alto desempenho conhece muito bem: o efeito positivo de uma competição em nível máximo. Contra rivais melhores, as marcas inevitavelmente melhoram, pois todos estão competindo no topo de sua capacidade. Com todos essas ressalvas, no entanto, fica claro que muitos dos campeões pan-americanos terão pouco tempo para saborear suas conquistas em Guadalajara. Restará a eles um período de oito meses para treinar forte e evoluir muito até a viagem rumo à capital olímpica no ano que vem.