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Credibilidade da Fifa está em jogo no caso de suborno

Por The New York Times - 20 out 2010, 09h44

No mínimo, Adamu e Temarii são culpados por uma ingenuidade imprópria no processo de votação que irá determinar o destino de duas Copas do Mundo, em 2018 e 2022

A credibilidade da Fifa, o organismo esportivo mais rico e influente do mundo, está em jogo nesta quarta-feira, em Zurique, na Suíça. Seu comitê de ética, comandado por um advogado suíço, se reunirá para determinar se dois membros do comitê executivo, formado por 24 pessoas, ofereceram-se para vender seus votos na eleição que vai determinar as sedes das duas Copas do Mundo que ocorrerão depois do Brasil-2014.

A votação para os dois torneios está agendada para 2 de dezembro. A Fifa não pode se dar ao luxo de obstruir a discussão. Cada minuto que passa é vital para sua integridade. No entanto, o advogado (o ex-jogador da seleção suíça Claudio Sulser) e seu comitê têm de garantir a legalidade e correção do processo.

Diante deles estão Amos Adamu, um nigeriano, e Reynald Temarii, um taitiano que é o presidente da confederação regional da Fifa na Oceania. No mínimo, Adamu e Temarii são culpados por uma ingenuidade imprópria no processo de votação que irá determinar o destino de duas Copas do Mundo e bilhões de dólares para a Fifa e para os países que irão sediá-las.

Adamu e Temarii permitiram ser ludibriados por uma técnica comum usada pela imprensa inglesa. O Sunday Times de Londres os atraiu para conversas privadas, passando-se por lobista de um consórcio que procurava comprar votos para a candidatura dos Estados Unidos.

Conta pessoal – A federação de futebol americana nada sabia sobre os encontros. Na verdade, quando as falsas negociações estavam em andamento e foram gravadas secretamente, os Estados Unidos aspiravam sediar os torneios de 2018 e de 2022. Mais tarde, desistiu da campanha por 2018, aceitando que essa Copa acontecerá na Europa.

No entanto, Adamu e Temarii não sabiam disso com certeza no momento de suas reuniões com os repórteres disfarçados. As imagens filmadas dessas reuniões, em face disso, são condenatórias. Adamu pede cerca de 790.000 dólares, supostamente para campos de futebol na Nigéria. Ele pediu que o dinheiro fosse depositado em sua conta pessoal.

Temarii disse que queria cerca de 2,3 milhões de dólares para financiar uma academia de esportes em Auckland, na Nova Zelândia. Temarii disse aos repórteres que estava avaliando duas ofertas de outras países interessados, com ainda mais dinheiro envolvido.

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Votos cruciais – Esse é o resumo das denúncias. O dinheiro não mudou de mãos, e essa é a aposta de parte da defesa que Adamu e Temarii podem adotar, alegando que perceberam que as abordagens eram irregulares e tentaram afastar os candidatos desonestos – para o bem do jogo. Pode ou não funcionar. E essa é a decisão que cabe a Sulser e seus colegas.

A Fifa pode culpar o Sunday Times pela armadilha. Mas não pode deixar de agir contra dois de seus privilegiados membros do comitê executivo. Dois votos podem ser cruciais para o destino dos torneios mundiais e todos os gastos em melhorias de infraestrutura que eles trazem. A Copa do Mundo de 2006 foi para a Alemanha por um voto, depois que um membro do comitê da Fifa, o representante da Nova Zelândia, se absteve na última rodada de votação.

Esse representante, Charles Dempsey, disse na ocasião que deixou de votar depois de ser submetido a uma “pressão insustentável”. Integrantes da Fifa podem estar ofendidos pelas táticas do jornal sobre dois de seus membros. Mas Adamu e Temarii deveriam saber disso depois de tentativas anteriores ganharem publicidade, sobretudo o papel do irmão do Sunday Times, o News of the World, que criou armadilhas envolvendo gestores do futebol e um jovem membro da família real.

A Fifa poderia expulsar Adamu e Temarii do comitê executivo, seu órgão mais poderoso. Poderia exonerá-los e criticar os repórteres. Ou poderia camuflar a questão e excluir Adamu e Temarii da eleição de 2 de dezembro. O escândalo, porém, ainda não é comparável ao fiasco no Comitê Olímpico Internacional em 1998. Ele terminou com a expulsão de dez membros do COI por aceitar suborno do comitê organizador dos Jogos de Inverno de Salt Lake City.

Poder e prestígio – Entretanto, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, disse que o artigo do Sunday Times “criou um impacto muito negativo na Fifa e no processo de definição das futuras sedes”. O próprio presidente da Fifa esteve em Londres, na quarta-feira passada, visitando o primeiro-ministro David Cameron.

Os políticos não participam das operações da Fifa. A Fifa está ameaçando impedir a Nigéria de competir por causa da suposta interferência política em sua federação de futebol. No entanto, do número 10 de Downing Sreet à Casa Branca, em cada canto de poder nas candidaturas, os chefes de governo devem dar seu apoio para garantir tais eventos monumentais, como a Olimpíada e a Copa do Mundo.

Para Blatter, encontrar presidentes e primeiros-ministros é um dever, assim como um sinal de prestígio pessoal. Mas uma promessa que Cameron fez na quarta-feira passada envolveu uma garantia de dinheiro acima e além de sua oferta. Cameron anunciou que se a Inglaterra receber a Copa de 2018, vai criar um fundo chamado Footboall United equivalente ao investimento anual da Fifa de 120 milhões de dólares em futebol de base e no desenvolvimento social, de agora até o Mundial.

Apenas 24 horas antes, a Coreia do Sul se comprometeu a pagar 777 milhões de dólares ao longo de onze anos em um fundo de valorização social e do futebol se abrigar a Copa do Mundo de 2022. Em comparação, o dinheiro que Adamu e Tematti estavam discutindo é troco.

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