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Bernie Ecclestone: ‘O Brasil é bom. Só é mal administrado’

Casado com uma brasileira e com negócios no país, o ex-chefão da F1 falou de sua vida longe do poder do esporte

Por Alexandre Salvador, Luiz Felipe Castro, Silvio Nascimento - Atualizado em 12 nov 2017, 11h49 - Publicado em 12 nov 2017, 09h40

A clareza de pensamentos, a articulação meticulosa, a voz baixa e a fala pausada em nada denotam que o homem sentado na poltrona de couro preto, em frente a uma grande janela iluminada pela luz do dia ensolarado no autódromo de Interlagos, tem 87 anos, completados no último dia 28, quase meio século deles vividos na e para a Fórmula 1. Bernard Charles Ecclestone, o chefão da F1, vendeu seu negócio por supostos 8 bilhões de dólares ao grupo americano Liberty Media em 2016 e no início de 2017 foi demitido. A situação o incomoda, mas nada o faz ter qualquer movimento mais brusco não importa a pergunta. Sorriso maroto, pensado, humor ácido típico britânico, falou sobre todos assuntos e nem a fleugma da camisa branca de mangas compridas e calça escura o fez perder o tom ao anunciar que a entrevista já deveria terminar.

Bernie foi um piloto mediano, mas se transformou num astuto empresário a perceber o potencial econômico das corridas de carro. Como vendedor de carros usados, entrou no automobilismo no final dos anos 1950, incentivado pelo lucro que a publicidade trazia para sua loja de veículos de passeio. Na década de 70, passou a ingressar o circo da F1. Foi dono da equipe Brabham, que revolucionou o paddock com sua organização profissional e que deu o primeiro título mundial ao brasileiro Nelson Piquet, em 1981. Em 1987, vendeu sua parte na escuderia para tocar exclusivamente a Formula One Constructor’s Association (Foca), entidade criada por ele e que defendia os interesses das equipes da F1. Ou seja, era Ecclestone o responsável por fechar todos os contratos comerciais ligado à categoria mais importante do automobilismo: de fornecimento de pneus a direitos de transmissão de televisão.

Bernie também foi o grande responsável pela migração das corridas do continente europeu para países endinheirados da Ásia e Oriente Médio. Tanto poder o tornou um dos homens mais ricos do mundo. É casado com a brasileira Fabiana Flosi, de 39 anos, bacharel em Direito e ex-funcionária da organização do GP Brasil de F1. Atualmente o casal se dedica a cuidar da fazenda de café em Amparo, em São Paulo, e do hotel de Bernie na Suíça -além, claro, de frequentar circuitos de F1. Acompanhe o que tinha a dizer o homem que praticamente inventou a F1 dos moldes atuais e que foi defenestrado pelos executivos americanos da Liberty.

Por quanto tempo o senhor pensou em abrir mão da Fórmula 1? Essas coisas não precisam de muito pensamento, pelo contrário. Quanto mais se pensa mais razões se encontra para não fazer algo. Por isso, não estava diretamente envolvido. Estava em uma posição hierárquica que não tinha como interferir nesse processo.

Como foi não estar no comando este ano? Diferente.

Em que sentido? Se você deixa de fazer o que fazia há muito tempo, é evidente que será diferente. Foi bom esse período fora das pistas. Não consigo ficar envolvido parcialmente em qualquer assunto. Ou estou dentro, ou não estou.

Mesmo assim, foi a algumas corridas, certo? Sim, se não estou enganado fui ao Bahrein, Rússia, Áustria e Azerbaijão, e, agora, no Brasil.

E sua decisão tem a ver com o fato de o Liberty Group não o querer por aqui? Tenho certeza que eles não me queriam por perto.

Acha justa essa posição? Só quero fazer as pessoas felizes. Então não me envolvo.

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O senhor acha que a categoria está em boas mãos? Acho que eles deveriam responder isso.

Mas o senhor tem uma opinião? Eles não estão fazendo tantas coisa, e eu não faria o que têm feito. Você viu o que fizeram no GP dos Estados Unidos? (Os pilotos foram anunciados, um a um, por Michael Buffer, tradicional locutor de lutas de boxe. Além disso os pneus e parte do macacão dos pilotos tinham a cor rosa como parte da campanha de prevenção ao câncer de mama.)

O senhor disse ao jornal italiano La Repubblica que estão transformando o seu restaurante estrelado em um McDonald’s. É realmente isso que o senhor pensa? Sim, não acho certo o que tem sido feito. Nós estamos no ramo do entretenimento. Se o que estamos fazendo deixa de entreter o público, você está fadado à falência. Pessoalmente, não acredito que muitas dessas ideias vão entreter o público. Você não pode ir a um recital de balé usando tênis de corrida. Não seria apropriado. Você pode pular e para cima e para baixo com eles, mas não foi para isso que foram criados.

Nessa mesma entrevista, o senhor disse que sempre buscou ajudar a Ferrari. Pode explicar melhor como era essa ajuda? De várias formas, o senhor Enzo Ferrari sempre controlou a Fórmula 1. Essas duas entidades estarão unidas para sempre

Mas durante sua carreira como chefão da categoria, por vezes a Ferrari ameaçou deixar o campeonato, caso suas demandas não fossem atendidas. Um dia isso vai realmente acontecer ou sempre será instrumento de negociação? Acredito que há mais chance disso ocorrer hoje do que antes. Se os gráficos de receita continuarem apontados para cima, eles estarão felizes. No momento que cair, eles certamente verão quais outras possibilidades terão à disposição.

As demandas por economia de combustível e outras de fora do universo das pistas estão tornando a competição mais desinteressante? Tudo isso começou quando meu amigo Max Mosley, à época presidente da Federação Internacional de Automobilismo, fez a seguinte presunção: um motor menor, mais barato, atrairia um número maior de fabricantes. Com mais fabricantes, supostamente teríamos mais recursos envolvidos e o esporte seria diferente. Hoje, até o Max admite que essa ideia de diminuir os motores destruiria a Fórmula 1. Se formos para as arquibancadas perguntar quantos cilindros tem o motor, eles não saberão responder. Os torcedores não se importam com isso. Eles querem saber quem vencerá a corrida, se a prova terá emoção.

E as corridas têm perdido justamente emoção, não? Se uma competição fica previsível demais, ela perde o seu propósito.

O que senhor faria para melhorar essa situação? Acho que cometemos um erro no passado. Deveríamos ter estabelecido um motor-padrão, comum a todas as equipes, mais barato. Ou, ao menos, deveríamos ter insistido para que a Mercedes fornecesse motores para a Red Bull. Evidentemente, os alemães ficaram felizes, pois sabiam que se tivessem cedido o motor para a Red Bull, provavelmente perderiam essa larga vantagem que têm hoje. E não dá para culpá-los. Se fosse dono da equipe provavelmente teria feito o mesmo. Por que raios daria um equipamento melhor para meu inimigo? Mas isso foi ruim para a competitividade.

Os novos donos da Fórmula 1 conseguiram solucionar essa questão? Os americanos (o grupo Liberty) estão em uma posição difícil. Eles pensam muito em termos locais, estão acostumados com suas competições tipo beisebol ou qualquer outra. Por essa razão a Fórmula 1 nunca foi popular nos Estados Unidos, da mesma forma que o futebol nunca foi popular por lá. Ficar sentado por 45 minutos vendo uns caras chutar a bola, sem pontuação. Não foi como eles foram criados. Além disso, a maioria das provas de Fórmula 1 acontece na Europa. Para a audiência subir por lá seria necessário colocar ao menos umas 10 provas em solo americano para fazer o negócio pegar.

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Ou seja, para ser bem-sucedida nos Estados Unidos é preciso arruiná-la no resto do mundo? Vamos bater um papo daqui a alguns anos…

O senhor tem vontade de voltar ao automobilismo, talvez criar uma outra categoria? Por ter estado tanto tempo no topo, preferiria voltar a ser vendedor de carros usados.

O senhor ainda tem prazer em assistir às corridas? Assisto a todas.

Como o senhor vê a interferência da direção das equipes no que acontece dentro da pista? Por exemplo, a definição de que um piloto deve ceder a posição ao companheiro de equipe. Depende de como essa equipe é gerida. Agora, com o campeonato definido, isso não faz grande diferença. Mas imagine que estivéssemos em uma situação em que Lewis Hamilton ainda não tivesse assegurado o título e Bottas estivesse andando a sua frente. Ele venceria uma corrida, ok. Mas não estava na disputa pelo título.

No próximo ano, será a primeira vez em 48 anos que não teremos um piloto brasileiro no grid. Enquanto estive no comando, isso nunca aconteceu.

Que impacto o senhor prevê para o automobilismo no Brasil? Acredito que aqueles garotos que quiserem mesmo seguir a carreira de pilotos terão oportunidades. O problema sempre foi a transição. Todos querem chegar à Fórmula 1. Mas como chegar lá? As equipes não estão preparadas para receber um piloto apenas por seu talento. Eles precisam de dinheiro. De onde uma jovem promessa vai tirar 25 milhões de dólares para se bancar? Além disso, quem é desapegado a ponto de adiantar tamanha verba sem a garantia de que o retorno virá? Para a equipe é um investimento arriscado também, por isso tentam se garantir minimamente com o dinheiro trazido pelo piloto.

Sem um brasileiro na Fórmula 1, faz sentido manter um Grande Prêmio do Brasil? Não é algo essencial, mas certamente ajudaria os promotores do evento a vender ingressos e encontrar patrocínio. Na Inglaterra, por exemplo, a venda de ingressos e os valores dos direitos de transmissão dispararam por causa de Hamilton. As pessoas seguem os pilotos, e o Brasil teve o privilégio de ter alguns dos melhores.

Bernie Ecclestone e Nelson Piquet, durante os treinos do GP Brasil de Fórmua 1, em 1980
Bernie Ecclestone e Nelson Piquet, durante o do GP Brasil de Fórmula 1, em 1980 Lemyr Martins/VEJA

Qual foi o melhor deles? Sempre é um problema responder essa pergunta. Depende das circunstâncias, que carro estavam guiando. Nelson Piquet foi meu piloto, então o conheço bem. Mas terei de dizer que foi o Ayrton Senna por tudo que alcançou. Ele teria chances de ser o maior vencedor, pois sempre foi inteligente o bastante para escolher o melhor equipamento, estar na equipe certa no momento certo.

Ele também seria o maior entre todas as nacionalidades? Também um problema responder esta pergunta. Sempre escolhi Alain Prost. Ele venceu quatro campeonatos, perdeu um por uma diferença de meio ponto, outro foi perdido por má sorte no final da temporada. E ele nunca teve o total apoio das equipes pelas quais passou. Nunca teve um segundo piloto que o ajudasse nas provas. Naquela época era exatamente o contrário. Ele teve companheiros de equipe que queriam vencê-lo a todo custo.

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A personalidade dos pilotos mudou muito nos últimos anos? Absolutamente. Não que isso seja um problema, mas hoje vivem estilos de vida bem diferentes. E, em parte, a culpa também é do regulamento atual, cujo primeiro mandamento deveria ser: “Não corra”. Porque dizem que o piloto não pode fazer isso, fazer aquilo, não passe por cima da área de escape…

Senna tem uma frase famosa que diz: “Se você não aproveita uma chance, você não é um piloto”. O senhor concorda? Totalmente, 100%. Mas existem jovens que ainda tentam aproveitá-la, como o Max Verstappen. Ele vê uma oportunidade de vencer e a agarra com todas as forças.

Com 87 anos, não pensa em se aposentar? Nem um pouco. Sempre trabalhei, acho que não sei fazer outra coisa.

Mas fazendo o que, exatamente? Não sei, veremos. No momento, estou ajudando a Fabiana (Flosi, sua mulher) no negócio de produção de café. Coisas novas sempre são empolgantes, então estou curtindo. Se der certo, ótimo.

Mas para uma pessoa acostumada a estar no centro das atenções, não é frustrante se tornar produtor de café? Quando não se ocupa mais as manchetes, as pessoas vão, aos poucos, se esquecendo de quem você é. Mas felizmente meu objetivo nunca foi estar nas manchetes, foi sempre fazer meu trabalho.

Mas não faz falta esse contato com as pessoas? Eu ainda me relaciono bastante com todos. Ontem, passei mais de uma hora com o Niki Lauda (tricampeão em 1975, 1977 e 1984) e com Christian Horner (chefe de equipe da Red Bull), falando sobre aviões.

O que o motiva hoje em dia? O senhor tem hobby? (Olha para Fabiana e pergunta: Qual meu hobby?) Eu coleciono coisas.

O que por exemplo? Tenho fotos históricas emolduradas na minha fazenda em Amparo (interior de São Paulo), de pessoas como Muhammad Ali.

O senhor é fã do Muhammad Ali? Ele terminava o serviço. Valorizo o tipo de pessoa que se esforça muito para vencer.

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Ele é o maior esportista de todos os tempos? Não sei, é difícil tirá-lo do contexto do boxe. Teríamos que incluir nessa lista alguém como Roger Federer (tenista suíço), que foi brilhante em sua modalidade. Em todas elas sempre há alguém que se sobressai.

Mas por que emoldurar fotos de Ali? Ele era falastrão. Tinha muita confiança em suas habilidades, o que admiro. Ele fazia questão de mostrar que não tinha medo de ninguém. Ele encarava de peito aberto.

(Fabiana intervém e diz que Bernie é um grande arquiteto)

Qual seu grande projeto arquitetônico? Bem, acabamos de construir uma casa em Ibiza (Espanha). E tem o projeto da sede da fazenda em Amparo.

O senhor tem um passaporte brasileiro? Não tenho.

Consideraria tornar o Brasil sua moradia permanente? Não me oponho. Mas como estou viajando na maior parte do tempo, não vejo muito sentido. Se o Brasil fosse um pouquinho mais próximo da Ásia, seria fantástico. Sempre achei que essa parte do mundo era a mais próspera, muito mais que os Estados Unidos.

O sequestro da sua sogra mudou de alguma forma a imagem que tem do país? Não. É algo a que estamos sujeitos em outras partes do mundo. A diferença é que talvez aqui seja mais corriqueiro. Creio que a polícia daqui fez um bom trabalho. Não é uma situação fácil de lidar. Há também um problema de mentalidade, de que é mais fácil roubar do que trabalhar. A impunidade ajuda a reforçar essa teoria.

O senhor tem negócios no Brasil, como avalia a atual situação socioeconômica? Venho ao Brasil há quase 50 anos, e desde cedo me disseram que era o país do futuro. É preciso um presidente que coloque o Brasil em sua posição de direito. As pessoas são boas, os recursos são bons. Não estão errando tanto, a não ser na administração. Existe um abismo entre o norte e o sul do país. Creio ser muito difícil criar uma unidade. Não consigo ver o mesmo interesse na população do norte em melhorar as coisas. Todos estão felizes com a situação do jeito que está. Recebem recursos sem necessariamente ter de trabalhar. Não vejo isso como um fator de motivação.

‘Não Sou um Anjo’ é o título de biografia sua, escrita recentemente por um jornalista britânico. Ele atribui essa definição ao senhor. Para ser bem-sucedido, o senhor acredita que é preciso deixar os bons modos em casa? Eu quis dizer que é preciso se assegurar claramente que outras pessoas não se aproveitem de você. Se tem um propósito na vida, e se realmente acredita nele, não deixe ninguém tirá-lo do curso. Se estiver errado, porém, é preciso admitir.

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Por que as pessoas têm medo do senhor? Ou têm uma imagem negativa a seu respeito? Por causa de pessoas que têm opinião sobre outras pessoas sem conhecê-las. Como ter uma ter uma opinião formada a meu respeito? É esse pré-julgamento, algo que acontece com políticos também. Muitas das coisas que são ditas ou escritas não deveriam vir a público pois as pessoas que a escreveram não sabem do que estão falando. Você citou uma reportagem de um outro jornal para me perguntar algo. Como você tem a certeza de que aquilo corresponde à verdade?

Foi por isso que perguntamos. Não era verdade? Era, mas o ponto não é esse. Você só pode falar sobre alguém a partir do momento que conhece a pessoa.

Outra afirmação sua é de que coisas sem importância o aborrecem. Pode dar um exemplo? Fico triste quando pessoas não recebem o reconhecimento por algo notável que tenham feito.

É o seu caso, em relação a todo o seu trabalho na Fórmula 1? Não sei, sempre fiz as coisas para mim. Se outras pessoas se beneficiaram por alguma atitude minha, bom para eles. Não faço coisas para receber aplausos.

O senhor disse que o presidente russo Vladmir Putin seria o líder ideal para o continente europeu. Por que? Ele tem opinião formada sobre o que é certo e age conforme pensa. Se estiver equivocado, creio que está preparado para admitir o erro e tentar algo diferente. Ninguém se aproveita dele, definitivamente.

Qual é o boato mais absurdo que escreveram a seu respeito? Que eu roubei um trem. A história é verdadeira, mas eu não participei dela. Não havia dinheiro o bastante no trem (assalto a um trem postal em 1963, que transportava mais de 2,6 milhões de libras, da Escócia para a Inglaterra, com participação de 17 pessoas – um dos ladrões era Ronald Biggs, que viveu por mais de 30 anos Brasil, voltou à Inglaterra, foi preso e morreu em 2013 em Londres.)

E qual gostaria que fosse verdadeiro? Tem gente por aí dizendo que sou um cara bacana.

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