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A Copa é agora

O sorteio das eliminatórias, no Rio de Janeiro, na semana que vem, é o primeiro passo de uma disputa de 824 partidas que só terminará em julho de 2014, no Maracanã. É uma chance para voltar a falar de futebol, e não só de escândalos — mas também uma ótima oportunidade de aumentar a vigilância com a infraestrutura das cidades e a construção de estádios

Por Carlos Eduardo Freitas 30 jul 2011, 01h23

Começou a briga para pôr as mãos na taça de ouro de 18 quilates, 36,5 centímetros de altura e 6 quilos, moldada na Fundição Bertoni, em Milão, na Itália. A original está guardada em um cofre da Suíça. Uma cópia exata é da Espanha, a atual campeã do mundo. No próximo sábado, 30 de julho, na Marina da Glória, no Rio, com transmissão ao vivo pela televisão e a presença de craques do passado e do presente, como Zico, Cafu e Neymar, o sorteio dos grupos das eliminatórias representará o pontapé inicial para uma disputa que só terminará no Maracanã em 13 de julho de 2014. O Brasil, como país-sede, não participará do torneio classificatório – assistirá a distância a escolha das outras 31 seleções para disputar a vigésima Copa do Mundo.

O evento é a primeira grande oportunidade, a meio caminho entre a escolha do Brasil como sede, em 2007, e o torneio, em 2014, para fazê-lo mais querido aos olhos da população. Por ora, há desprezo. Uma pesquisa realizada pelo Ibope Inteligência em maio passado, depois de ouvir 2 002 pessoas em todo o país, indica que 48% dos brasileiros têm pouco ou nenhum interesse em relação à Copa, 27% têm interesse, mas não muito, e 25% têm muito interesse. Além da distância no tempo – afinal, ainda faltam três anos, embora seja pouco -, a sucessão de indecisões, atrasos nas obras, descontrole orçamentário e aeroportos saturados contribuem para construir a má impressão e o movimento de dar de ombros, que ainda vigora. Recentemente, o Senado aprovou uma medida provisória que cria o chamado “regime diferenciado de contratação” para as obras da Copa e da Olimpíada de 2016, no Rio. O objetivo da medida, segundo o governo, é tornar mais rápidas as contratações, de modo que o país possa cumprir os prazos das obras. Para isso, ela permite que os valores sejam mantidos em sigilo durante as licitações. A aprovação da MP provocou protesto da oposição, que alega dificuldades de controle sobre os gastos. O governo argumenta que o modelo proposto evita que concorrentes em conluio inflem o preço das empreitadas e que o sigilo se encerra no momento da contratação. O projeto, que depende apenas da assinatura da presidente Dilma Rousseff, desagradou também aos cartolas da Fifa, ao suprimir o artigo que dava à entidade máxima do futebol plenos poderes para interferir nos gastos da Copa. Quem está certo? Nenhum dos dois. Nem o governo, que defende o sigilo, nem a Fifa, que pretende ter poderes de intervenção.

É inescapável, por enquanto, a percepção de que nenhum dos doze estádios selecionados para receber os 64 jogos da Copa do Mundo de 2014 vá ser inaugurado a tempo e a contento. Sabe-se que a final será no Maracanã. A abertura, tudo indica, deve acontecer na arena que o Corinthians constrói na Zona Leste de São Paulo e que não passa de um vasto canteiro de obras. “Não temos estádios, não temos aeroportos, e parece cada vez mais provável que algumas instalações só fiquem prontas algumas semanas antes do evento”, disse o secretário-geral da entidade, Jérôme Valcke, em recente visita ao Brasil. Mas haverá futebol, e já. Esqueçamos por alguns momentos (mas sem desatenção) as estripulias fora do gramado. O sorteio das eliminatórias definirá os primeiros passos de 166 das 203 seleções inscritas para as 31 vagas. Em 30 de julho, quando as bolinhas forem escolhidas aleatoriamente, 28 seleções já terão dado adeus ao sonho. O motivo: oficialmente, as eliminatórias começaram em junho, com a goleada por 5 a 2 de Belize sobre Montserrat, na zona da Concacaf, que agrega as federações das Américas Central e do Norte e do Caribe. Tanto lá quanto na federação asiática, as primeiras fases já terão chegado ao fim. Deste primeiro jogo, entre Belize e Montserrat, até o sorteio dos grupos da Copa, em dezembro de 2013, serão disputadas 824 partidas. Os grupos e confrontos eliminatórios a ser definidos na festa na Marina da Glória levam em consideração o ranking da Fifa. É o que evitará que grandes seleções se enfrentem e se eliminem antes do mundial. Na Europa, as 53 seleções inscritas serão divididas em nove grupos, dos quais oito com seis equipes e um com cinco. Ou seja: as nove melhores seleções européias do ranking, caso de Inglaterra, Espanha, Alemanha e Holanda, serão cabeças de chave, enquanto as 44 restantes se dividirão em outros cinco potes. A única confederação internacional que não participará do sorteio é a Conmebol, da América do Sul, cujo formato de disputa prevê que as nove seleções se enfrentem em jogos de ida e volta. Além do recorde histórico de inscritos (203), as eliminatórias para a próxima Copa têm algumas curiosidades. Na Europa, para evitar problemas diplomáticos entre Rússia e Geórgia, assim como entre Azerbaijão e Armênia, essas seleções já têm desde o início a garantia de que não se enfrentarão. Há ainda a possibilidade de seis seleções sul-americanas se classificarem para a Copa, o maior número desde 1930. A Copa de 2014 será a quinta sediada na América do Sul, depois de Uruguai, em 1930, Brasil, em 1950, Chile, em 1962, e Argentina, em 1978. Nessas quatro edições, o título ficou com um representante do continente. É estatística que ajuda – mas não garante, longe disso – o hexacampeonato do Brasil. Até porque, para que ele seja louvado como merece, em caso de vitória, é preciso que o capitão erga a taça mas o país ofereça ao mundo um espetáculo minimamente organizado – não tanto como aconteceu na Alemanha, em 2006, por ilusório que tenha sido, mas pelo menos do tamanho da África do Sul, em 2010. Menos que isso, e haverá sempre a sensação de derrota.

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