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Whindersson Nunes fala sobre sua depressão: ‘Me senti enclausurado’

Choro, crise de pânico e medo de o avião cair: como o youtuber mais popular do Brasil enfrentou a doença

Você é a pessoa que tem o maior número de seguidores do Brasil, com 36 milhões de inscritos em seu canal no YouTube, e é considerado o humorista mais engraçado da geração digital. Como é fazer milhões cair na gargalhada enquanto enfrentava a depressão? Nunca vi uma ligação entre a doença e ser engraçado. Na verdade, sempre fui feliz. Mas muitas coisas aconteceram na minha vida, como eu ser novo e ter muita responsabilidade. Também há um choque de cultura. Sou do interior do Piauí, a minha vivência era outra. As pessoas que me ro­dea­vam eram outras. Hoje é tudo diferente.

Você sofreu alguma crise de pânico? Chegaram a publicar que foi preciso chamar uma ambulância do serviço de saúde pública para me salvar, mas não é verdade. Eu tive, sim, uma crise dentro de casa. Estava sozinho e me vi agoniado, não sabia o que era.

Foi quando você escreveu no Twitter: “Eu vivo rodeado de abutres, urubus, cada um querendo a sua fatia do bolo”, no dia 12 de abril? Sim. Na verdade, aquele foi meu estopim. Eu não sabia o que estava acontecendo. Fiquei refletindo a tarde toda, quando vi era noite e eu estava olhando para as paredes. Não sou essa pessoa que fica assim. Sempre estou fazendo esporte, vendo um filme. Mas me percebi enclausurado e saquei: “Tenho um problema”.

E o que você fez? Fui à terapia para identificar que era algo psicológico, para entender o sentimento que me deixava preocupado. Faço terapia três vezes por semana desde então.

A presença permanente nas redes sociais potencializou a depressão? Para dizer a verdade, sou zero viciado em celular, fico de boa em casa. Não tenho raiva dos haters nem me preocupo com eles. Meu trabalho é fazer com que a maioria goste de mim.

Embora você diga que não é viciado em smartphone, precisa estar conectado, postando quase o tempo todo. Essa pressão constante não pode ter alimentado a depressão? Talvez sim, mas o ponto é que trabalho demais. Não me sinto especial por ser um cara que nasceu pobre e me tornei o que me tornei, mas, sim, especial por fazer o meu humor. Por outro lado, eu era um cara que não tinha nada, daí passei a poder comprar tudo e não ter como usar, aproveitar. Por exemplo, sempre gostei de instrumentos musicais. Comprei uma guitarra, mas não havia tempo livre para tocar. Combinava de receber um amigo, mas, quando ele chegava, já era hora de dar uma entrevista, e então não podia dispensar a devida atenção a ele. Quero continuar fazendo shows? Sim, mas preciso organizar meu tempo. Eu saía do Acre, viajava para Santa Catarina e depois voltava a Manaus. Nada de parar em casa. Quero ter uma agenda organizada. Fazia mais de vinte shows por mês, agora quero respeitar o meu limite.

Além da terapia, o que você tem feito? Ficado em casa, brincado com meus cachorros, tocado guitarra, piano, violão. Também tomo remédio prescrito pela médica.

Teve algum medo? Sempre me perguntava: “Será que fiquei famoso para morrer como os artistas que partem aos 20 e tantos anos?”. Entrei na bad, achando que tudo poderia resultar em um fim trágico. Cada vez mais eu ficava com medo de que acontecesse uma tragédia, de o avião cair, de não concluir as coisas, meus planos.

Por que expôs sua doença?  Muita gente me relatou ter ficado feliz após escutar uma piada minha, que eu levo alegria em momentos tristes. Então achei justo dividir quando era a minha vez de pedir ajuda. Recebi muita oração e carinho, foi gratificante.

O senhor mudou a forma de fazer piada? Sim, em vários pontos. Nos vídeos do meu canal, era normal aquele negócio de chamar um cara de ‘viadinho’. Hoje, não falo mais. Também lembro de falar ‘gordinho’ para se referir a um rapaz. Todo mundo caminha para ser uma pessoa melhor, se libertar. Esse é o meu caso. Eu era evangélico, então não tinha música que não fosse evangélica em meu celular, as chamadas mundanas. Hoje, escuto toda música sem isso ter problema com a minha fé. Sou cristão.

Onde o senhor investe o seu dinheiro? Cara, sou o rico mais pobre que tem (risos). Eu dou muito dinheiro. A galera acha que eu tenho um prédio na Avenida Paulista (Nunes investe em imóveis, em fazenda, em cavalos…).

Ao decidir sair de cena por três meses para tratar a depressão, o senhor disse “não” para dinheiro. Como foi essa decisão? Não era uma decisão, eu tinha de cuidar de mim. A maioria dos anunciantes interrompeu as campanhas em andamento, não podia esperar o dia em que eu fosse ficar bem. Mas teve empresa que topou ficar comigo. Não ligo para dinheiro, tanto que não faço eventos corporativos. Além de ser outra galera como público, tem aquele negócio de falar que ama a empresa que eu nem conheço. Se tenho uma relação com o dono da empresa, aí é outra pegada. Também não faço nada associado a política.

Valeu a pena tirar esses meses sabáticos? Eu não tenho problema em falar da questão de saúde, sou resolvido sobre isso. Há pessoas que têm depressão e não sabem. Não podemos ligar para comentários que condenam aquele que sorri, pois seria a prova de que não teria depressão. Tem gente que queria ver a gente morrendo para falar: “Verdade, o cara tem depressão”. Por outro lado, não é porque o cara sorriu ou saiu de casa que precisa interromper a terapia. É preciso encarar o problema como algo real. O corpo manifesta o que o cérebro está sentindo, sente febre, dor. Eu tive até um problema no “furico” (um abscesso na nádega). As pessoas precisam entender que é fundamental pedir ajuda. Quem tem dor de dente vai fazer canal, quem sofre do coração coloca um marca-passo, se for preciso. Temos de tratar as doenças da cabeça da mesma forma: elas também são urgentes.

Qual é o seu maior sonho? Ter um cachorro do meu tamanho. É sério.

Sua agenda para o segundo semestre está cheia? Tem muita coisa legal. Vou estrear o YouTube Premium no Brasil com uma série de oito episódios gravados em minha turnê mundial. No Netflix, vai estrear um show gravado no Ceará para 22 000 pessoas. Também tem a estreia da segunda temporada de Os Roni, no Multishow, e do filme Os Parças 2.

 

Publicado em VEJA de 17 de julho de 2019, edição nº 2643

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