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Wenders filma o luto em 3D em ‘Every Thing Will Be Fine’

Como o filme tem uma atmosfera meio fantasmagórica, de conto de fadas, a tecnologia funciona, sem ser chamativo e distrativo demais

Wim Wenders Wim Wenders

Wim Wenders (/)

Wim Wenders está em jornada tripla neste 65º Festival de Berlim. Every Thing Will Be Fine, seu 30º longa-metragem, é exibido fora de competição, alguns de seus longas antigos, como Asas do Desejo e Paris, Texas, estão sendo reapresentados, e o cineasta ainda recebe um Urso de Ouro Honorário na quinta-feira. Seria o James Franco desta edição, caso o onipresente James Franco também não estivesse em três funções durante a Berlinale: como ator principal do longa de Wenders, como protagonista de Queen of the Desert, dirigido por Werner Herzog, que está em competição, e ainda em I am Michael, de Justin Kelly, na mostra Panorama.

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Franco interpreta o escritor Tomas, que, voltando para casa, atinge com seu carro um pequeno trenó que desliza por um monte de neve até a estrada. O trágico acidente não é culpa de ninguém, na verdade: nem de Tomas, nem de Christopher (Jack Fulton), o irmão mais velho da vítima, nem da mãe dos dois garotos, Kate (Charlotte Gainsbourg). Todos carregam a dor consigo. Só que Tomas escolhe não lidar com a depressão, que acaba com seu relacionamento com Sara (Rachel McAdams). Os anos vão passando, todos tentam reconstruir suas vidas, até que Christopher, agora adolescente (e interpretado por Robert Naylor), procura Tomas para restabelecer o contato.

Wim Wenders faz um discreto estudo sobre o luto. “O período de cicatrização depois de um trauma é importante. Muitos filmes lidam com a dor, poucos lidam com a cura. E é fundamental perdoar e perdoar a si mesmo”, disse o cineasta alemão em entrevista coletiva depois da exibição para a imprensa. Mas seu trabalho poderia se beneficiar de um ator com mais recursos do que James Franco – ele anda fazendo tanta coisa que fica impossível realmente mergulhar em um personagem. Que cineastas como Wenders e Herzog o escalem para tantos papéis difíceis é um mistério.

O diretor decidiu continuar seus experimentos com o 3D, iniciados no curta sobre arquitetura If Buildings Could Talk e seguidos pelo documentário sobre dança Pina. “Achei que o roteiro de Bjørn Olaf Johannessen era discreto o suficiente para ser amplificado em 3D”, disse Wenders. Como o filme tem uma atmosfera meio fantasmagórica, de conto de fadas, funciona, sem ser chamativo e distrativo demais.

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‘Nadie Quiere La Noche’

Nascida em Barcelona, Isabel Coixet vai à Groenlândia para contar a história de Josephine (Juliette Binoche), mulher de um explorador do Ártico que parte para as terras geladas e acaba descobrindo afinidades com Allaka (Rinko Kikuchi), uma mulher inuit. O longa, que está em competição, abre o 65º Festival de Berlim.

Jafar Panahi conduz pessoas pelas ruas de Teerã em seu novo filme, 'Táxi' Jafar Panahi conduz pessoas pelas ruas de Teerã em seu novo filme, ‘Táxi’

Jafar Panahi conduz pessoas pelas ruas de Teerã em seu novo filme, ‘Táxi’ (/)


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‘Life’

O holandês Anton Corbijn fotografou alguns dos maiores nomes da música, como David Bowie, Bob Dylan, Bruce Springsteen e Miles Davis e teve uma longa colaboração com o U2. Seu filme de estreia, Control, falava sobre o líder do Joy Division, Ian Curtis. Seu quarto longa, Life, mostra a relação entre o fotógrafo Dennis Stock e James Dean.

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‘Knight of Cups’

Em 41 anos, Terrence Malick lançou apenas sete longas-metragens. Mas ele deu uma acelerada nos últimos tempos, estreando A Árvore da Vida em 2011, Amor Pleno em 2012 e agora Knight of Cups, sobre um ator de Hollywood (Christian Bale) à procura de significado na vida. Natalie Portman e Cate Blanchett também estão no elenco. 

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‘Que Horas Ela Volta?’

Diretora de Durval Discos (2002), É Proibido Fumar (2009) e Chamada a Cobrar (2012), a paulistana Anna Muylaert foca seu novo filme em Val (Regina Casé), empregada faz anos de uma mesma família. Sua filha Jéssica (Camila Márdila), com quem não se encontra há uma década, aparece de repente, alterando o delicado equilíbrio da casa.

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‘Everything Will Be Fine’

Numa noite de inverno, Tomas (James Franco) não consegue frear seu carro a tempo e acaba pegando Christopher e seu irmão, filhos de Kate (Charlotte Gainsbourg). Anos mais tarde, Christopher (Robert Naylor) resolve procurar o homem que transformou sua vida para sempre. O alemão Wim Wenders filmou essa história de culpa e perdão em 3D.

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‘Cinquenta Tons de Cinza’

A adaptação do best-seller de E. L. James finalmente chega aos cinemas depois de alguns percalços, como a troca do ator principal. Dakota Johnson é Anastasia Steele, a estudante ingênua que cai nas garras do milionário Christian Grey (Jamie Dornan), chegado em umas práticas sadomasoquistas. O filme é dirigido por Sam Taylor-Johnson, de O Garoto de Liverpool.

Atrás do Urso de Ouro – Enquanto isso, a competição continua apontando para um ano sólido em Berlim, mas ainda sem um Urso de Ouro indiscutível. Depois do ótimo El Botón de Nácar, documentário de Patricio Guzmán, o Chile apresentou seu outro forte concorrente, um feito e tanto para nossos vizinhos. El Club (“O clube”) é o quinto longa de Pablo Larraín, de Tony Manero, Post Mortem e No, todos sobre a ditadura de Augusto Pinochet. O novo trabalho se afasta desse tema, mas continua falando de culpa, impunidade, passado, segredos. O cenário é uma casa amarela à beira-mar onde vivem quatro homens, sob os cuidados de uma mulher (Antonia Zegers). Todos estão ali para expurgar faltas – pecados – do passado, que eles fazem o possível para deixar bem enterrado. Um incidente violento faz com que os padres Vidal (Alfredo Castro, ator de Tony Manero, Post Mortem e No), Silva (Jaime Vadell), Ortega (Alejandro Goic) e Ramirez (Alejandro Sieveking) sejam obrigados a encarar o que tentam esconder. A Igreja manda o Padre Garcia (Marcel Alonso) para desvendar a verdade por trás daquelas fachadas pacíficas. O início pontuado por um humor negro vai lentamente cedendo espaço ao horror das revelações, mas, ainda assim, o final é completamente imprevisível. Larraín, de 38 anos, firma-se como uma voz original.

Menos bem-sucedido na tentativa de falar de religião e misticismo é Body (“Corpo”), da polonesa Malgorzata Szumowska. Um investigador (Janusz Gajos) cético e prático, que não se comove nem com as cenas de crime mais horrendas, é o centro do filme. Em casa, um problema: sua filha Olga (Justyna Suwala), anoréxica e bulímica, com quem não consegue se comunicar. Ela sofre ainda com a perda da mãe, alguns anos atrás. Anna (Maja Ostaszewska) é uma terapeuta especialista em bulimia e anorexia, mas também devota do espiritismo – ela psicografa cartas dos mortos, tal qual Chico Xavier (que aparece num pôster na parede numa das cenas). Quando coisas estranhas começam a acontecer no apartamento do investigador, ele considera passar por cima de suas descrenças e chamar Anna para ajudar. Body até começa bem, mas vai perdendo substância ao longo do caminho. Seu tom oscila um bocado, sem consistência. Pior, de cara zomba de Anna, fazendo com que perca a força sua tentativa de crítica à religião e ao misticismo.

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Já o alemão Als Wir Träumten (“Enquanto nós sonhávamos”), de Andreas Dresen, guarda semelhanças com a outra produção alemã da competição, Victoria, de Sebastian Schipper. Ambos falam de jovens à beira da delinquência, meio sem rumo, só que separados por duas décadas. O filme de Dresen se passa logo após a queda do Muro de Berlim, em 1989. Dani (Merlin Rose) é o quase bom menino que sonha ser jornalista e serve de elo para Mark (Joel Basman), Rico (Julius Nitschkoff), Pitbull (Marcel Heuperman) e Paul (Frederic Haselon). A narrativa pula entre diferentes épocas, mostrando a amizade entre os meninos quando eram pequenos e em duas fases distintas da adolescência. O filme tem certa energia, mas por vezes se aproxima de um amontoado de vinhetas. De qualquer maneira, é bem superior a Victoria, que tem um único plano-sequência, sem nenhum beneficio para o filme.