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Voz da razão e da imaginação

Amós Oz morreu na sexta-feira 28 de dezembro, em Tel Aviv, aos 79 anos, em decorrência de um câncer

Em uma madrugada no fim de 1947, o menino Amós Klausner acordou, em Jerusalém, para participar das festividades que tomavam as ruas da ancestral cidade judaica. O rádio acabava de transmitir o voto decisivo da Assembleia-Geral das Nações Unidas que consagrou o direito dos judeus a uma pátria: nascia o moderno Estado de Israel. Mais tarde, quando o menino voltou para a cama onde, em dias ordinários, já estaria dormindo faria muito tempo, seu pai veio conversar na penumbra do quarto. O imigrante do Leste Europeu contou ao filho nascido em Israel que, em sua infância em Odessa, foi muitas vezes acossado por valentões antissemitas. É possível, dizia o pai, que algum brutamontes venha um dia a puxar briga com Amós — mas ele jamais seria atacado só por ser judeu, não neste novo país: “Isso acabou. Acabou para sempre”.

Amós Klausner nunca deixou de ser um entusiasta dessa nação que ao mesmo tempo remontava à antiguidade bíblica e estava entre os mais jovens Estados modernos. Na juventude, depois de passar anos em um kibutz — fazenda coletiva israelense —, renomeou-se Amós Oz (em hebraico, “oz” é bravura, coragem) para se tornar um dos mais vigorosos escritores israelenses, devassando os dilemas históricos de seu país em romances como Fima, Meu Michel e A Caixa Preta. Oz participou de uma aventura única na história: renovar literariamente o hebraico, uma língua que por séculos só teve existência efe­tiva nas sinagogas. Orgulhava-se de ter cunhado palavras que se integraram à língua moderna. Em paralelo à carreira de escritor, também se tornou célebre por advogar dois Estados — um israelense e um palestino — como solução para a paz na região. Amós Oz morreu na sexta-feira 28 de dezembro, em Tel Aviv, aos 79 anos, em decorrência de um câncer.

A tocante cena em que seu pai relata sua história de humilhações na noite em que Israel se tornou um país figura em De Amor e Trevas, magistral livro de memórias em que Oz narra sua formação em um país judaico ainda sob ameaça bélica de seus vizinhos árabes — e em uma casa que vivia sob a sombra da depressão de sua mãe, que cometeu suicídio quando o menino contava 12 anos. O memorialista não deixa de registrar o silêncio que caiu sobre os bairros árabes de Jerusalém na noite em que, na sua rua, todos comemoravam e cantavam.

Esta terra é menor que a Sicília, mas é o único lar dos árabes palestinos e dos judeus israelenses. Será doloroso mas inevitável dividi-la em dois países.

Amós Oz

Homem da esquerda social-­de­mo­crata, Oz sempre foi um advogado da paz, mas não propriamente um pacifista. Em 2014 aprovou, com res­trições, ataques a posições na Faixa de Gaza a partir das quais o Hamas disparava foguetes sobre Israel. E era um veterano das Forças Armadas: lutou na Guerra dos Seis Dias, em 1967, e na Guerra do Yom Kip­pur, em 1973 (nunca escreveu a respeito porque considerava a guerra uma experiência extrema demais para ser descrita pela literatura). Acreditava, porém, que israelenses e palestinos poderiam superar sua história contenciosa, com concessões de parte a parte. Defendeu essa posição em entrevistas, conferências e livros como Contra o Fanatismo.

Quando lançou Judas, o último de seus treze romances, Oz recebeu VEJA para uma entrevista em seu apartamento em Tel Aviv e criticou tanto o governo de Benjamin Netanyahu quanto as lideranças da Autoridade Palestina por sua falta de “imaginação e empatia”, qualidades que julgava fundamentais para a resolução de conflitos. Ele admirava, no entanto, a natureza conturbada do povo israe­lense. “Israel é um país de 8 milhões de cidadãos, 8 milhões de primeiros-ministros, 8 milhões de profetas e mes­sias. Todos acham que sabem o que é melhor”, disse naquela entrevista. Sua obra representou muito da natureza vibrante e contenciosa de Israel. É um monumento desse país tão antigo e tão novo.

Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2019, edição nº 2616