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Virei herói. E agora?

Com sua combinação de ironia pop e inocência juvenil, 'Shazam!' é uma prova de que ainda há território por desbravar nos filmes de super-heróis

Prestes a morrer, um grande mago transfere para Billy Batson (Asher Angel), de 14 anos, todos os seus poderes, transformando-o em um super-herói destinado a impedir o domínio dos sete pecados capitais sobre a humanidade. Billy ignora o nome desse novo ser e não faz ideia das habilidades que possui — mas entre elas não está o dom de se livrar do traje ridículo (vermelho com detalhes dourados, e finalizado por uma capa branca) com que é obrigado a circular pela cidade. Entretanto, ele sabe muito bem como aproveitar a clausura nesse corpo de 30 e poucos anos, 1,93 metro de altura e ombros largos: cata o amigo Freddy (Jack Dylan Grazer) e entra numa loja para comprar o objeto de desejo número 1 de um adolescente americano — a cerveja proibida aos menores de 21 anos. Do lado de fora, felizes, eles brindam, entornam um belo gole e… cospem imediatamente aquela coisa amarga e repulsiva. “Agora, sim!”, dizem, aliviados, ao brindar de novo, desta vez com refrigerantes: assim como seu personagem-título, Shazam! (Estados Unidos, 2019), já em cartaz no país, é uma combinação esfuziante de ironia pop com inocência juvenil. A DC Comics já ia chegando lá com Mulher-Maravilha e Aquaman, mas agora acertou no alvo: em Shazam!, ela tem um filme que trabalha áreas do humor e da ação ainda não exploradas pela rival Marvel, e que equilibra sua ingenuidade cativante com seu entusiasmo e também com algumas notas muito autênticas de melancolia.

Em boa parte, o que faz o filme funcionar tão bem é Zachary Levi, que encarna Billy na sua persona heroica: assim como Tom Hanks em Quero Ser Grande (que ganha aqui várias homenagens), Levi calibra com virtuosismo as manifestações infantis e adultas de seu protagonista, sem nunca parecer falso; ele é, de fato, alguém que está no limiar entre essas duas etapas da vida (é, em outras palavras, um adolescente). O mago o escolheu após décadas de busca, mas Billy mesmo não entende por quê: foge de todos os lares adotivos em que o colocam e não dá muita chance a ninguém, nem mesmo a Freddy e às outras crianças que vivem com o casal adorável em cuja casa ele acaba de ser depositado. Sua obsessão é encontrar a mãe, de quem se perdeu num parque lotado, quando era pequeno (e, agora que virou herói, fazer vídeos campeões de acessos no YouTube).

Também o vilão de Shazam! sofre de uma avaria emocional. Em criança, Thaddeus Sivana (Mark Strong) foi testado pelo mago e reprovado, e nunca se conformou. Como uma criança contrariada, quer o doce que lhe negaram. Sivana é um vilão que serve aos propósitos da trama, e olhe lá. Mas tudo mais no filme é acertado: as gagues visuais são deliciosas, o humor é criativo, a ação é original, o elenco é excelente. O diretor David F. Sandberg vem de dois terrores não exatamente memoráveis, Quando as Luzes Se Apagam e Annabelle 2. Mas, pelo jeito, dentro dele se escondia um jovem Steven Spielberg: um cineasta que filma com júbilo e que tem fé não só no caráter e na inteligência de seus personagens, como também em sua plateia.

Publicado em VEJA de 10 de abril de 2019, edição nº 2629

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