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‘Vidas Partidas’ traz Domingos Montagner como marido violento

Estreia de Marcos Schechtman, da Globo, como diretor de longa-metragem trata de violência doméstica

Neste domingo, a Lei Maria da Penha, que busca coibir atos de violência doméstica contra a mulher, completa dez anos. O final de semana não poderia ser mais adequado para o lançamento de Vidas Partidas, um drama sobre um homem (Domingos Montagner, o Santo de Velho Chico) que se torna violento de forma crescente, até passar a agredir fisicamente a mulher, Graça (Naura Schneider). O filme de Marcos Schechtman aborda o tema da violência doméstica com uma crueza que assusta e impacta, características essenciais para denunciar uma situação inaceitável que continua atual, uma década depois da homologação da Lei Maria da Penha.

O roteiro, que bem poderia se passar nos dias de hoje, é situado no Recife dos anos 1980. Logo na primeira cena do filme, o público recebe informações sobre a complicada relação do casal. O marido, Raul, chega em casa com o molho de chaves em punho, fecha todas as portas e janelas, de forma controladora, e se tranca com a esposa no quarto. Segue-se uma cena de sexo tensa.

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Apesar disso, no início, Raul, com quem Graça tem duas filhas, não é claramente um agressor. Sua personalidade se torna bruta — e brutal — à medida que cresce o ciúme, amoroso e profissional. A mulher – que é bioquímica – vai bem na carreira, enquanto ele amarga dificuldades para arrumar emprego. A situação vai deixando Raul cada vez mais nervoso, até que ele parte para a pancadaria. O comportamento abusivo atinge inclusive as filhas do casal, vítimas indiretas do desequilíbrio e da fúria do pai. O público é representado pela empregada da casa, Nice (Georgina Castro), que percebe a situação e aos poucos passa a defender Graça.

O script não é surpreendente: ele apenas evidencia aquele que é o cotidiano de tantas famílias brasileiras. O trunfo do longa é mesmo o choque e a frieza com que a situação é retratada por Marcos Schechtman, diretor de novelas como América, Celebridade e Caminho das Índias, aqui em sua estreia como realizador de longas-metragens. A tensão criada por ele é tamanha que faz o filme, um drama, se aproximar do gênero do suspense.

Naura, que também é produtora do filme, ajudou muito na criação. A atriz se interessa e pesquisa sobre violência doméstica, o que já resultou no documentário O Silêncio das Inocentes (2010), sobre a criação da Lei Maria da Penha e a história da mulher que a nomeia. Ao site de VEJA, ela contou que a ideia inicial era fazer um filme sobre Maria, mas optou-se pela ficção. “Tem vários pontos em que todas as situações acabam sendo iguais, independentemente da classe social ou grau de instrução”, diz.

A produtora ainda conta que não pretende parar de abordar o tema. “A arte é uma coisa tão mais palatável de se digerir e mostrar questões importantes e relevantes como essa”, diz. “Um filme que fale sobre o assunto pode transformar as pessoas”, afirma, antes de elogiar Luiza Brunet, que recentemente foi a público denunciar o ex-marido, Lírio Parisotto. “Acho que ela prestou um serviço muito importante. Aquela senhorinha mais humilde que sofre disso vai pensar: ‘Se aquela mulher, que tem tudo, teve a coragem de fazer isso, eu também tenho. Se ela mostrou que é mais do que isso e pode sair desse ciclo, eu também posso.”