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Uma voz da Europa

Talvez o mais arguto intelectual da Alemanha, o quase nonagenário Hans Magnus Enzensberger revisita os agitados anos 60 em 'Tumulto', belo livro de memórias

Hans Magnus Enzensberger, poeta, ensaísta, tradutor, editor, escritor alemão que chega neste ano aos 90, é provavelmente o mais agudo e versátil intelectual europeu vivo. Talvez seja ainda o último grande autor que, tendo conhecido o mundo de antes da II Guerra Mundial, contribuiu de várias maneiras para entender e moldar a cultura e a política do cenário que emergiu daquela catástrofe. É um intelectual à moda antiga: sem ligação com alguma instituição famosa e sem ostentar títulos ou posições acadêmicas, sua principal forma de comunicação com o público é a palavra escrita não especializada nem vazada em algum tipo de jargão. Parte substancial de sua obra está traduzida no Brasil — tanto os ensaios, que discutiram do socialismo real à sociedade de consumo e do gangsterismo e terrorismo tradicionais ao terror islâmico atual, quanto sua poesia, que, descendendo diretamente do modernismo conversacional, seco e analítico, tem se mantido por mais de meio século num altíssimo nível de lucidez e precisão, como se pode constatar no seu longo poema narrativo O Naufrágio do Titanic. Infelizmente, porém, seus livros, espalhados por diversas editoras, não têm sido republicados.

LIVRO – ‘Tumulto’, de Hans Magnus Enzensberger (tradução de Sonali Bertuol; Todavia; 264 páginas; 64,90 reais ou 48,90 reais na versão digital)

LIVRO – ‘Tumulto’, de Hans Magnus Enzensberger (tradução de Sonali Bertuol; Todavia; 264 páginas; 64,90 reais ou 48,90 reais na versão digital) (//Divulgação)

O recém-lançado Tumulto é um volume de memórias — memórias seletas, seletivas, escritas às vezes meio a contragosto, com um pé atrás. Como se poderia esperar de um autor como Enzensberger, o livro fala muito mais do que ele viu que de si mesmo. Não se trata de uma obra confessional ou intimista. Enzensberger é um mestre do ensaio, forma que cultivou e aperfeiçoou seguindo compatriotas que admirava, como o poeta Gottfried Benn ou o crítico Walter Benjamin. Em um livro anterior, A Outra Europa (Companhia das Letras), reunião de ensaios memorialísticos dos anos 70 e 80, ele já falava dos diversos países europeus onde viveu por algum tempo (Suécia, Noruega, Espanha, Portugal). Em Tumulto, o poeta volta a percorrer os eixos cruzados da geografia e da história, que, determinando seus encontros e desencontros, acabam encaminhando e desencaminhando seu destino pessoal.

O tumulto a que se refere o título é, de fato, um conjunto convergente de tumultos: a Guerra Fria, a Guerra do Vietnã, a agitação política dos anos 60. Enzensberger estava em Cuba quando começou (ou se evidenciou) a crise da revolução. No plano pessoal, encerrou um primeiro casamento e apaixonou-­se por uma jovem russa. Tudo isso começa quando ele é convidado, no início daquela década, para sua primeira viagem à União Soviética. Participaria de um congresso literário, cujos pontos altos, afinal, seriam o encontro dos participantes com Nikita Kruschev — e o de Enzensberger com uma poeta, Margarita Aliguer, e com sua filha, Maria (ou Masha), catorze anos mais nova que ele, com quem se envolve imediatamente.

Crescer na Alemanha dos anos 30 mostrou ao poeta, desde muito cedo, todo o potencial destrutivo do totalitarismo. Na juventude, ele se inclinou para a esquerda, o que era basicamente inevitável não só por causa da experiência de um regime de extrema direita, mas porque então e ainda por várias décadas o grosso da criatividade e da inteligência cultural estaria à esquerda. Mas a cautela de Enzensberger — intelectual dotado de ceticismo e de um espírito analítico capaz de examinar detalhes que seus pares costumam ignorar — permitiu-lhe ver claramente a União Soviética e seu bloco (e, mais tarde, Cuba) sem ilusões, desde o primeiro encontro.

A aptidão de Enzensberger para selecionar o fato revelador num ensaio, a imagem exata no poema, o momento certo numa narração sempre foi um de seus trunfos. Nestas memórias, é deixando que suas reflexões fluam ocasionalmente com uma indisciplina medida que o autor entremostra como se localiza o ponto de equilíbrio do qual é possível acompanhar o rebuliço geral sem sair dele. Essa perspectiva faz do escritor quase nonagenário uma testemunha e ao mesmo tempo um analista sem igual de nosso tempo.

Publicado em VEJA de 15 de maio de 2019, edição nº 2634

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