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Tropeços de J.K. e Depp: a tempestade perfeita sobre ‘Animais Fantásticos’

Revelações do mau comportamento do ator e declarações desastradas da autora de 'Harry Potter' ameaçam spin off de uma das sagas mais amadas da atualidade

Por Amanda Capuano - Atualizado em 13 jul 2020, 13h24 - Publicado em 10 jul 2020, 10h54

É preciso muito esforço para destruir o legado de uma história que é parte indissociável de uma geração, mas J.K Rowling tem se mostrado extremamente talentosa nessa função ultimamente. Em julho de 2011, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 estreou nos cinemas com recorde de bilheteria. Enquanto esteve em cartaz, o último filme da franquia arrecadou sozinho 1,3 bilhão de dólares -o que, somado aos anteriores, elevou o faturamento da saga para 7,7 bilhões de dólares. Com um público sempre fiel, não foi surpresa que a autora quisesse drenar até a última gota do sucesso. Cinco anos depois, fãs nostálgicos lotaram as salas de cinema para ver o universo do bruxinho de volta às telas no spin off Animais Fantásticos e Onde Habitam. Mesmo assim, a história de Newt Scamander passou longe de causar a mesma comoção da história original. Agora, uma tempestade perfeita, digna dos desejos mais sombrios de Lord Voldemort, coloca em xeque o futuro – e até a boa memória do passado – da franquia.

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Não são poucas as controvérsias que cercam as planejadas continuações de Animais Fantásticos. Com três filmes ainda por vir, a história viu aquilo que parecia ser um trunfo se transformar em calcanhar de aquiles: a escalação de Johnny Depp para o papel do vilão Gellert Grindelwald já provocava celeuma entre os fãs de início e, conforme o astro se enreda em escândalos fora da tela, a antipatia só faz crescer. É preciso ser justo: quando foi escolhido para o personagem, a pesada troca de acusações entre Depp e a ex-esposa Amber Heard ainda não havia estourado, e a participação do ator no longa era mínima. O mesmo não se pode dizer da sequência Os Crimes de Grindewald, na qual o ator assume o papel central da trama – e é aí que o combo de problemas começa.

Na quarta-feira 8, conversas de Depp com o ator Paull Bettany foram apresentadas pela defesa no julgamento de uma ação movida por ele contra o jornal The Sun – o tabloide britânico é interpelado por tê-lo chamado de “espancador de mulheres”. Nas interações, os dois falam em tom de piada (de muito mau gosto, aliás) sobre maneiras de ganhar dinheiro expondo Amber em sites pornô e discutem maneiras de matá-la, que vão do afogamento às brasas. O ex-casal tem trocado farpas desde 2016, quando Amber acusou Depp, de quem estava se divorciando, de agressão física e psicológica. De lá para cá, imagens da atriz machucada pelo ex-marido e áudios apresentados por Depp em que a ex-esposa afirma tê-lo agredido (na tentativa de convencer o público de que ele, na verdade, era a vítima no relacionamento) caíram na mídia de tempos em tempos. Em 2017, no auge do movimento #MeeToo – que expôs uma série de casos de abusos em Hollywood -, os fãs foram às redes sociais pedir a substituição do ator na saga. O pedido não só foi negado como  Rowling ainda publicou uma carta aberta em defesa do ator, depois que ele Amber chegaram a um acordo na Justiça. A tomada de partido não agradou aos fãs, que organizaram movimentos de boicote ao longa. De nada adiantou: Depp seguiu no elenco.

Johnny Depp em animais Fantásticos Warner Bros./Reprodução

Não contente com o impacto desastroso de seu posicionamento em favor do ator em um momento extremamente crítico para as discussões sobre violência doméstica – da qual a própria Rowling afirma ter sido vítima -, a autora criou ainda as suas própria polêmicas. Tentando encaixar-se, sem sucesso, no mundo pautado pela diversidade, a autora passou a tirar da cartola histórias absurdas sobre seus personagens. Tentou dizer que Dumbledore era gay, mas, ao contrário de agradar o público LGBT, foi acusada de maquiar a sexualidade do diretor de Hogwarts e aproveitar-se disso apenas em um momento oportuno. Nos últimos meses, ela figura constantemente nos assuntos mais comentados do Twitter por usar a rede para dar repetidas declarações consideradas transfóbicas. Chegou, inclusive, a comparar os tratamentos hormonais usados pelos transgêneros no processo de transição de gênero a uma nova espécie de “cura gay”, o que praticamente pulverizou de vez a imagem de ídolo juvenil que ostentou durante décadas.

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Se antes um eventual descarte de Johnny Depp do elenco era uma opção-coringa para acalmar os fãs e tentar conquistar algum prestígio com o spinn off, agora o buraco é mais embaixo. Afinal, é impossível dissociar J.K Rowling de Harry Potter e a espiral descendente de popularidade da autora já fez os fãs questionarem, inclusive, a validade da obra. Threads no Twitter foram feitas expondo diversos pontos falhos em uma das franquias mais amadas do mundo – desde a redução de personagens asiáticos a estereótipos e a exaltação de linhagens sanguíneas, até uma romantização da escravidão por meio dos elfos domésticos. Se até mesmo a memória afetiva Harry Potter foi abalada pelos tropeços de sua criadora, é difícil imaginar que um spinn off sem a metade de seu prestígio não sofra o mesmo destino, ou pior.

Outro que também colabora para o futuro incerto de Animais Fantásticos é Ezra Miller. Há alguns meses, o ator foi flagrado num vídeo em que aparece enforcando uma fã. Ao que parece, um grupo interceptou o ator e o desafiou, na brincadeira, a participar de uma lutinha. O que era para ser divertido subiu à cabeça e acabou em confusão: a fã foi jogada no chão, e o vídeo levantou protestos nas redes sociais. Para completar o combo, a pandemia de coronavírus interrompeu a produção da sequência da franquia, que tinha estreia prevista para 2021, e teria o Rio de Janeiro como cenário principal. Desde então, não há mais informações sobre o destino da saga. Se depender dos babados que não param de surgir, o futuro de Animais Fantásticos não parece tão fantástico assim.

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