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‘Toy Story 4’: brincadeiras existenciais

No quarto capítulo da série de animação, o caubói Woody e amigos experimentam uma vida orientada por seus desejos, e não pelo ‘trabalho’ como brinquedos

Woody, o caubói de pano, já enfrentou muitos rodeios na vida. Foi suplantado nas afeições de seu dono pelo astronauta Buzz Lightyear, que se acreditava real e não sabia ser um brinquedo — e, nesse tempo, em sua sanha de livrar-se do recém-chegado, Woody quase pôs a perder a própria sobrevivência, e a dos demais brinquedos do quarto. Teve a cabeça virada pela fama ao descobrir que havia sido astro de um desenho muito popular nos anos 50, e quase tarde demais percebe que Buzz (o astronauta e o caubói, como se sabe, acabam virando melhores amigos) lutava com o dilema inverso, o de constatar que não era único e especial, mas sim fruto da produção em série. Junto com seus companheiros, escapou por um triz de um verdadeiro holocausto de brinquedos abandonados. E, durante toda a sua existência como protagonista de desenho animado, bateu-se sempre com os fantasmas do esquecimento, da rejeição e da perda absoluta da razão de ser de um brinquedo: ter uma criança que queira brincar com ele. No mundo de Woody, as crianças são o fundamento e a finalidade — são, enfim, os deuses dos brinquedos. E, em Toy Story 4 (Estados Unidos, 2019), já em cartaz no país, uma deusa insegura abala a ordem natural ao enamorar-se de sua criação imperfeita: Garfinho, o boneco que a menina Bonnie faz com um utensílio de plástico, fios de lã e botões no seu primeiro dia de aula no jardim de infância, e com o qual se consola e protege-se do pavor de ser depositada no meio de coleguinhas que fingem não vê-la. Bonnie não larga mais de Garfinho. A questão, porém, é que ele sabe que não é um brinquedo, e não quer sê-lo: deseja apenas ir para o lixo, o paraíso dos talheres descartáveis — e, por isso, não para de tentar o suicídio, atirando-se em todo latão que encontra.

O primeiro Toy Story não apenas foi o marco fundador da produtora Pixar, como deflagrou uma revolução: a partir desse longa pioneiro, a animação americana rapidamente teve de se converter do 2D convencional para o 3D digital e replicar esse aprofundamento da imagem também nos roteiros. Debates existenciais e psicossociais não faziam parte do repertório dos desenhos de grande público, mas praticamente viraram norma. Ninguém os promoveu com a franqueza, a fineza e a imaginação que a equipe de John Lasseter, o então todo-poderoso da Pixar, demonstrou em Monstros S.A., Procurando Nemo, Os Incríveis, Ratatouille, Wall-E, Up, Valente e Divertida Mente — e sobretudo nos três primeiros Toy Story, de 1995, 1999 e 2010.

No fim de 2017, entretanto, Lasseter se afastou da Disney (que comprara a Pixar anos antes) sob suspeita de que seu gosto por abraços ia além da afabilidade. Em junho do ano passado, na onda do movimento MeToo, seu desligamento se tornou oficial, e Toy Story 4 já foi feito sem sua participação. Essa ausência, somada ao histórico comprometedor da Pixar com continuações (como atestam Carros 2 e 3 e Os Incríveis 2), bastaria para cercar o quarto Toy Story de desconfiança. Mas Garfinho é um personagem fabulosamente bem concebido e bem escrito, e a confusão que ele cria com sua mania suicida enseja discussões instigantes acerca do grau em que a realização pessoal depende não do que se é, mas do que se faz, e sobre o temor que a independência inspira em quem nunca a experimentou.

De outro lado, a pastorinha Bo Peep, jogada fora tempos atrás, se reinventou como uma agente livre. Woody gostaria de acompanhá-la, mas uma vida sem dono não cabe na sua perspectiva limitada. Entra em cena, ainda, a boneca Gabby Gabby (ou “Gabi Tagarela”), que, por ter saído de fábrica com um defeito na caixa de voz, nunca conseguiu atrair uma criança. Gabby tem aspecto angelical, mas é amarga, cheia de malícia e de cálculo, e usa uma tropa de horrendos bonecos de ventríloquo para tiranizar os brinquedos que por acaso entrem no antiquário em que mora — como Woody, que foi lá procurar Garfinho e calha de ter uma caixa de voz compatível e em perfeito estado. Talvez Toy Story 4 não desperte as emoções ardorosas dos capítulos anteriores. Mas, como eles, é um primor na maneira como equilibra personagens que estão em pontos muito diferentes de suas trajetórias — alguns necessitados de servir a um propósito, outros tendo de procurá-lo dentro de si mesmos. É o que faz também a Pixar aqui, obrigada a proteger seu patrimônio mais valioso e, ao mesmo tempo, imaginar uma nova etapa na vida de Woody, Buzz e companheiros.

Publicado em VEJA de 26 de junho de 2019, edição nº 2640

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