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Telas de Rodrigo de Souza Leão são doadas a museu

Por AE

São Paulo – Em novembro passado, quando abriu a pequena, porém ruidosa exposição de Rodrigo de Souza Leão (1965-2009) no Museu de Arte Moderna do Rio, o curador de sua obra, o poeta e ator Ramon Mello, ouviu mais de uma vez: “Quero comprar um quadro, tem para vender?”.

A resposta, naturalmente, foi negativa. Não fazia sentido desmembrar a coleção, de pouco menos de 60 óleos, que complementa e empresta ainda mais sentido à produção literária de Rodrigo, e que trata de suas questões mais íntimas: a convivência com a esquizofrenia, os remédios, religiosidade, sexo, vida, morte.

“Rodrigo é beato. Acredita em Deuses. Cristo. Iemanjá. Apolo. Afrodite. Exu. Afrodite. Mickey Mouse. Chaves”, se autodefinira, em “Me Roubaram Uns Dias Contados”. Foi o último livro, lançado no primeiro aniversário de sua morte pela Record. Ele sofreu um ataque cardíaco durante uma internação voluntária. Tinha 43 anos e muito a imaginar.

Semana passada, 37 telas, que estavam com a família no mesmo apartamento entre a Lagoa e Copacabana onde haviam sido pintadas, foram doadas ao Museu de Imagens do Inconsciente. Fundado numa pequena sala há 60 anos pela médica Nise da Silveira (1905-1999), pioneira no uso terapêutico da arte em substituição a métodos violentos, como o eletrochoque, o museu é ligado à Secretaria Municipal de Saúde.

Localizado no Engenho de Dentro, distante do circuito de museus e galerias do centro e da zona sul, a instituição, cara a estudantes de áreas como artes e psicologia, abriga obras de ex-pacientes psiquiátricos, como Fernando Diniz, Adelina Gomes, Emygdio de Barros e Rafael Domingues – talentos depois reconhecidos pela crítica. As telas de Rodrigo se juntam a um acervo de 350 mil obras, o maior do mundo entre os nascidos em hospitais do gênero.

“Rodrigo achava Nise maravilhosa, via a importância do trabalho dela. A arte também o salvou”, conta Ramon. A ideia inicial, sua e da família de Rodrigo, era doá-las, assim como seus escritos e 100 disquetes, à Casa de Rui Barbosa (a fundação carioca mantém acervos de escritores como Clarice Lispector e Carlos Drummond de Andrade).

Como não havia espaço, decidiu-se que a parte literária iria para lá, e os quadros, para o museu. Além das 37, estima-se que existam, dispersas, mais 20, presenteadas a amigos. “Ele sai do estereótipo de louco, é um poeta, e a obra está além das questões psiquiátricas”, diz Ramon.

A pintura o moveu nos últimos três meses de vida, quando frequentou a Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Nas telas, expunha a mesma lucidez que espantava o padrinho nas conversas telefônicas – “uma lucidez que chegava a queimar”. Fazia máscaras, cristos, o antipsicótico Haldol, com o qual convivia desde que, aos 24 anos, fora diagnosticado esquizofrênico-paranoico, e que, em seus textos, virava personagem. O MAM foi o primeiro museu a lhe dar espaço. No Museu de Imagens do Inconsciente, seu infinito particular estará a salvo. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.