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Ruth de Souza: a primeira estrela negra

A atriz morreu no Rio de Janeiro, aos 98 anos, de complicações de uma pneumonia

Entre as lembranças da infância, havia um episódio que Ruth de Souza gostava de narrar até bem perto do fim de sua vida quase centenária. Na escola que frequentava, no bairro carioca de Copacabana da década de 30, os alunos tinham de ler um livro que louvava as qualidades do povo brasileiro. Mas, ao falar dos negros, a obra descambava para o puro preconceito. “O livro dizia que o negro tinha cérebro atrofiado. Depois de ler aquilo, eu só queria tirar 10 para mostrar que não era assim”, contava. Na adolescência, quando se maravilhou com a descoberta do cinema, Ruth tomou a decisão: pretendia ser atriz. Enfrentou o descrédito geral. “Riam de mim e falavam: ‘Imagina, não existem artistas negros’.” No Brasil de até então, essa era uma verdade triste, mas irrefutável. Caberia à própria Ruth de Souza transformar a realidade.

Eu consegui fazer o que queria com tenacidade e sem desanimar.”

Ruth de Souza (1921-2019)

Foi sua mãe, uma lavadeira (o pai era lavrador emigrado para a cidade), quem deu o primeiro empurrão. “Minha mãe dizia: ‘Com educação e postura, você pode fazer tudo na sua vida, seja de que cor ou condição social for’”, recordava-se Ruth. E assim foi. Em 8 de maio de 1945, aos 24 anos, ela se tornou a primeira atriz negra a subir ao palco do Theatro Municipal do Rio. Em 1954, converteu-se na primeira mulher brasileira indicada a um grande prêmio internacional de cinema — o Leão de Ouro do Festival de Veneza, pelo filme Sinhá Moça. No advento da televisão, Ruth reafirmou a sina de desbravadora. Foi, de novo, a primeira estrela negra das telenovelas — em A Deusa Vencida, exibida pela extinta TV Excelsior em 1965. Três anos depois, fez sua estreia na Globo, onde acumularia papéis em mais de vinte produções. Conhecida entre os colegas pelo bom humor, pela garra e pela personalidade inspiradora, Ruth fez aparições memoráveis na tela até a idade avançada — a última delas, na série Se Eu Fechar os Olhos Agora, levada ao ar pela Globo em abril. Morreu no Rio de Janeiro, aos 98 anos, de complicações de uma pneumonia.

Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2019, edição nº 2646