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‘Rubberband’, de Miles Davis: uma joia escondida do jazz

Disco perdido por 34 anos capta o furor criativo do artista americano ao abraçar o pop e o funk

No início dos anos 80, o trompetista americano Miles Davis (1926-1991) estava tão obcecado em tocar nas rádios que criou um estranhíssimo ritual. O músico assistia aos videoclipes da então nascente MTV — mas na função “mudo”. Se a imagem o interessava, ele aumentava o volume da televisão. Se a canção lhe provocava o mesmo impacto que as cenas do clipe, ele pedia a seu produtor que corresse atrás da música que tinha visto, escutado e curtido. O método redundou em releituras simpáticas de Time after Time, de Cyndi Lauper, e Human Nature, de Michael Jackson, registradas por Davis no disco You’re under Arrest, de 1985. O jazzista, contudo, desejava se popularizar ainda mais. De mudança para a gravadora Warner — depois de trinta anos na Columbia —, chamou para um novo projeto o guitarrista e vocalista Randy Hall e o guitarrista e baixista Attala Zane Giles, além de seu sobrinho e baterista Vince Wilburn Jr. Hall e Giles já eram conhecidos no métier do pop, por terem trabalhado com Ray Parker Jr. (do sucesso Ghostbusters), The Jacksons e Earth, Wind & Fire. Já o sobrinho integrava a banda de Davis. “Tio Miles queria que as canções tivessem o mesmo apelo popular daquilo que ele escutava nas rádios”, lembra o pupilo. O processo de composição e gravação foi finalizado no início de 1986. Mas, em vez de ir para as prateleiras das lojas, o disco foi parar no arquivo da Warner. Tommy LiPuma, diretor da companhia, não gostou do resultado e quis que Davis lhe apresentasse outro projeto — no caso, Tutu (1986), um dos melhores álbuns do trompetista. Só agora, 34 anos depois, o fruto pop perdido de Miles Davis sairá finalmente do baú.

Com lançamento mundial na sexta 6, Rubberband, o velho/novo álbum de Davis, coroa um momento de comemorações em torno do trompetista que mudou a história da música. No dia 17 de agosto, completou-se o sexagésimo aniversário de Kind of Blue, disco em que ele concebeu o casamento perfeito da melodia com a improvisação, e que se tornou uma das obras de jazz mais vendidas de todos os tempos (cerca de 4 milhões de cópias). Há cinquenta anos, entre 19 e 21 de agosto de 1969, Davis inovaria de novo ao gravar Bitches Brew. Lançado alguns meses depois, em abril de 1970, o álbum é um marco do movimento do jazz rock, com forte presença da guitarra e de teclados elétricos.

Rubberband — ao qual VEJA teve acesso em primeira mão no Brasil — acrescenta um item curioso à discografia de Davis. As gravações perdidas foram retrabalhadas por Wilburn Jr., Hall e Giles. O trio manteve o trompete de Davis — uma solução óbvia —, mas criou outros arranjos e adicionou instrumentações aqui e acolá. Lalah Hathaway e Ledisi, intérpretes de ponta da soul music atual, foram chamadas para dar voz às canções de maior teor pop do álbum. “A ideia original de tio Miles era convidar o cantor de jazz Al Jarreau e a intérprete de soul Chaka Khan”, lembra Wilburn Jr. Nas gravações originais, a meta era afastar-se de tudo o que tivesse qualquer pingo de jazz. “A gente perguntava a Miles se desejava fazer jazz, e ele dizia: ‘Nem ferrando!’ ”, lembra Giles.

Davis, mestre da improvisação, levou esse know-how para as gravações de Rubberband. O acaso era a regra até na hora de dar nome às músicas. “A gente tocava um trecho e ele batizava a composição na hora”, lembra Giles. Embora tenha sido vetado por LiPuma, o repertório do álbum foi incluído nas apresentações ao vivo nos anos 80. “O público se aproximava e perguntava em qual disco estava a canção que havíamos acabado de tocar”, conta Wilburn Jr. Foi preciso esperar muito até vir a resposta. Só no ano passado um single com uma faixa de Rubberband foi lançado no Record Store Day, evento em que as companhias disponibilizam preciosidades para colecionadores.

RELÍQUIA - A capa do álbum: a levada dançante assustou a gravadora

RELÍQUIA - A capa do álbum: a levada dançante assustou a gravadora (//Divulgação)

Rubberband não chega a ser uma obra-prima, mas merecia um destino melhor que os depósitos da Warner. Davis desejava emular o funk americano dos anos 80 e fez um disco dançante — o que deve ter assustado os executivos da gravadora. “Ele queria uma sonoridade urbana, próxima de coisas que eu e Giles estávamos criando em nossa carreira-solo”, lembra Randy Hall. Econômico nos solos, Davis deixa a banda brilhar em várias oportunidades — como em This Is It, cuja batida bebe do hip-­hop. A faixa de abertura, Rubberband of Life, antecipa o neo soul, vertente da soul music que floresceria apenas mais adiante, nos anos 90. Há até um momento brasileiro no disco póstumo. A versão original de Paradise era um calipso, gênero que Davis adorava. Mas os produtores adicionaram uma bateria de samba-reggae à la Olodum. “Tio Miles era fã da percussão brasileira. Quando visitamos o Brasil, em 1986, fizemos uma festa com o baterista Robertinho Silva”, conta Wilburn Jr. Giles é ambicioso em relação a Paradise. “Ela tem de virar videoclipe. De preferência, gravado numa praia brasileira.” O maior potencial pop do álbum é So Emotional. Cantada por Lalah Hathaway, a balada poderosa abrirá os trabalhos de divulgação do disco.

O “gostinho” de um Miles Davis redivivo atiça seus admiradores, sempre à espera de raridades. Depois de Rubberband, outras iniciativas virão por aí. Wilburn Jr. informa que uma versão de Broken Wings, sucesso meloso (e bota meloso nisso) do grupo Mr. Mister, constará do próximo projeto de resgate dos arquivos do jazzista. Pretende-se também desenterrar em um futuro breve o encontro do trompetista com outro astro negro do pop: Prince. Davis tinha obsessão pelo cantor e considerava sua música o que havia de melhor para ouvir no início dos anos 80. Enquanto essa pérola não chega ao mercado, Rubberband confirma a força de um artista cuja trajetória foi marcada pela compulsão para inovar e pela vontade de abraçar todos os estilos musicais. “Ele nunca gostou de nostalgia. Sempre achou que a música devia andar para a frente”, diz Wilburn Jr. Se for para resgatar tesouros do baú do titio, andar para trás também está valendo.

Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2019, edição nº 2650