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Rocky Balboa troca ringues por autoajuda em ‘Creed’

Pela sétima vez em sua carreira, Sylvester Stallone dá vida ao personagem lutador, agora como mentor do filho de Apollo Creed

Rocky Balboa é uma constante surpresa no cinema. O personagem criado e interpretado por Sylvester Stallone foi aplaudido em 1976, com Rocky: Um Lutador. Depois, a boa trama acabou banalizada pela ambiciosa busca por bilheteria, com quatro sequências de qualidade decadente. A reputação só foi recuperada com o sexto filme, Rocky Balboa, de 2006. Agora, quarenta anos após a estreia do personagem, Rocky retorna às telas com o longa derivado Creed: Nascido para Lutar. Assim como sua trama na ficção, baseada nas agruras e delícias da superação, a franquia se renova de forma sensacional e inesperada. Fênix ficaria com inveja.

Septuagenário, o lutador não sobe mais ao ringue e mal consegue encarar a famosa escadaria do Museu de Arte da Filadélfia, porém, o que lhe falta de força sobra de sabedoria esportiva. Stallone, agora no posto de coadjuvante, assume uma postura filosófica, sem ser presunçoso. Ele surge na trama após uma longa introdução que apresenta Adonis Johnson (Alex Henderson na infância), um garoto com temperamento explosivo, que vive de orfanato em orfanato desde a morte de sua mãe. O jovem é adotado por Mary Anne (Phylicia Rashad), ex-esposa do lutador Apollo Creed (vivido nos filmes anteriores por Carl Weathers). Mary Anne conta a Adonis que ele é filho de Creed, fruto de uma relação extraconjugal, e que ela gostaria de adotá-lo para viver na mansão deixada pelo lutador.

O longa dá um salto de tempo e mostra Adonis aos 20 e poucos anos, agora interpretado por Michael B. Jordan. Apesar de ser um jovem rico com boas oportunidades de emprego, o rapaz prefere encarar lutas clandestinas no México. Ao longo da trama, suas motivações serão questionadas, com o boxe tratado como um esporte para os desafortunados, que buscam uma chance de vencer na vida. Adonis, contudo, faz o que pode para provar que é esta sua vocação, que é só o que sabe e quer fazer.


Ao decidir se tornar um lutador, Adonis vai à Filadélfia procurar por Rocky e pela chance de ser treinado pelo mito esportivo. O antigo protagonista é na atualidade um pacato administrador de restaurante, que não pisa em uma academia há anos. Inicialmente ele rejeita a oferta. O jovem, porém, é insistente, e Rocky cede. Ao mesmo tempo, Adonis conhece sua vizinha Bianca (Tessa Thompson), uma cantora com deficiência auditiva por quem ele se apaixona. Os ingredientes básicos de romance e relacionamento entre discípulo e mestre se misturam com o intenso treinamento físico imposto por Rocky, que não desfere mais socos, apenas conselhos e filosofias motivacionais. Uma mudança e tanto para o personagem caladão. A carga emocional é grande, e Stallone é desafiado a oferecer bons momentos de atuação – prepare-se, olhos lacrimejantes podem acontecer.

Jordan também entrega uma boa atuação, assim como fez no filme Fruitvale Station: A Última Parada. O longa de 2013 foi a primeira parceria dele com o jovem diretor Ryan Coogler, também responsável por Creed. Coogler mostra respeito pela série e pelos personagens do passado, mas também oferece uma renovação à franquia.

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Os tiozões da ação — e da testosterona — no cinema

Além de jogar luz em um novo protagonista, o cineasta de 29 anos utiliza recursos técnicos atrativos e mescla cenas épicas com momentos refinados, detalhistas, como quando Adonis brinca com o cabelo da namorada na cama enquanto conversam sobre destino. Já entre as cenas de pico se destaca a primeira luta profissional do protagonista. Em um plano sequência aparentemente sem cortes, a câmera acompanha o caminho do rapaz ao ringue, sobe com ele e entra na luta. Ela se move conforme os lutadores, por vezes observa um, depois outro e também para ambos ao mesmo tempo, antes de olhar para Rocky no corner gritando com seu pupilo. Ao espectador é oferecida a visão de um participante, que alterna entre juiz e lutador. O momento é de tirar o fôlego.

Quem desacreditava que Rocky ainda renderia uma nova história, se enganou. O lutador de poucas palavras pavimentou bem o caminho para seu sucessor. Tanto que um segundo filme protagonizado por Creed já está no forno, previsto para 2017. Mais socos, sangue e discursos autoajudas são esperados.