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‘Reprimida, a cultura produz mais’, provoca brasileira com filme em Berlim

Diretora Eliza Capai fala sobre 'Espero Tua (Re)volta', que retrata a ocupação de escolas por alunos e concorre a melhor documentário no festival europeu

Por Juliana Varella - Atualizado em 9 fev 2019, 21h34 - Publicado em 9 fev 2019, 18h59

Como explicar aos europeus (sem perder de vista o público brasileiro) o que vem acontecendo no Brasil desde que o povo tomou as ruas em 2013 até as eleições de 2018, cujos desdobramentos apenas começaram a se revelar? O documentário Espero Tua (Re)volta, que estreia neste sábado, 9, no Festival Internacional de Cinema de Berlim, abraça essa tarefa com unhas, dentes, rimas e algumas espinhas na cara.

O filme, dirigido por Eliza Capai, coloca o microfone na boca de três adolescentes — Lucas “Koka”, Marcela Jesus e Nayara Souza — que viram de perto o nascimento e a evolução das mobilizações estudantis nesse período e, ao longo de uma hora e meia, desenha uma linha do tempo clara e didática ligando as “marchas de 2013” às ocupações de escolas públicas em 2015, ao escândalo do desvio de verbas de merendas em 2016, ao impeachment de Dilma Rousseff (PT) no mesmo ano e à ascensão de Jair Bolsonaro (PSL) em 2018.

A produção será exibida na mostra Geração 14+ e concorrerá ao prêmio Glashütte Original de melhor documentário. Ele viaja acompanhado por outros onze filmes brasileiros (entre eles seis coproduções) que competem em outras mostras. Em 2018, cinco longas nacionais saíram premiados do evento, sendo quatro documentários: Ex-Pajé, Bixa Travesty, Aeroporto Central e O Processo, que investigava a mesma fase recente da história do país, mas com foco no impeachment.

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Em entrevista a VEJA, Capai descreveu as lições que aprendeu com esses personagens “jovens demais para terem vivido tudo isso” e falou sobre o futuro do cinema, dos movimentos estudantis e do Brasil:

Por que contar essa história do ponto de vista dos estudantes? Eu estava gravando uma série do canal Futura sobre democracia e consegui entrar na ocupação que os estudantes estavam fazendo na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) em 2016, em protesto contra a “máfia das merendas”. Lá, fiquei impressionada com a capacidade de organização daqueles meninos que, em geral, vinham de escolas sucateadas e da periferia. Percebi que boa parte da grande mídia não tinha acesso àqueles bastidores e que ela apenas via, de fora, os momentos em que se fazia um espetáculo. Senti a necessidade de traduzir para um público mais amplo o que estava realmente acontecendo.

Como foi a escolha dos protagonistas? O movimento não era homogêneo: na Alesp, foram as entidades estudantis que protestaram, ligadas a partidos e adeptas da transformação por meio do sistema. Já nas escolas, foram os autonomistas, estudantes independentes que negavam as organizações estudantis e os partidos. Os três personagens que escolhi representam essa pluralidade: a Nayara é parte de uma liderança organizada, que “peita” o sistema de frente ao mesmo tempo em que consegue articular com os estudantes. A Marcela, neta de uma mulher analfabeta, traz uma visão pessoal de dentro das manifestações, sentindo na pele a necessidade e os efeitos dela. O Koka, por sua vez, é um garoto que se destacou muito na comunicação com sua poesia e sua música. Ele foi presidente de grêmio, mas começa a frequentar as ocupações dos autonomistas, então é alguém que se distancia, olha para tudo isso e questiona.

Por que partir das marchas de 2013 para analisar as ocupações? Ao longo de entrevistas que fizemos com dezenas de estudantes sobre as mobilizações de 2015, descobrimos que quem já tinha ido para a rua naquele momento tinha ido em 2013. E quem não tinha, tinha assistido à mobilização pela TV, o que também foi transformador. Você imagina como é ser adolescente e a sua primeira manifestação ser aquela? Foi ali que eles entenderam o poder da união e da revolta.

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Como foi o processo de edição? Durou um ano e meio. A primeira versão do roteiro se baseava nessas entrevistas e em gravações feitas por outros cinegrafistas durante as manifestações. Fui tentando entender quais eram os pontos de vista envolvidos, selecionei as três vozes e montei um roteiro, que passei para Nayara, Marcela e Koka. Eles começaram a transformá-lo – às vezes reescrevendo com suas palavras, às vezes trazendo novas ideias. Também mostrei a eles um corte do filme para que comentassem por cima – então os comentários que o público vê na tela são autênticos. Paralelamente, criamos um grupo de estudos com outros secundaristas e ex-secundaristas que tinham participado das ocupações, e promovemos discussões em torno do filme.

E o que esses diálogos revelaram que o público normalmente não vê? Uma questão que eles trouxeram, por exemplo, foi a importância de mostrar o ataque de ansiedade que Marcela sente no filme. Eles diziam: “Ou a gente é apresentado como marginal, ou como herói, e a gente não é nem um nem outro. Nós lutamos por uma causa justa e isso traz consequências muito pesadas”. E é verdade: são crianças lidando com uma pressão e com uma violência enorme em nome de algo que ninguém em sã consciência acharia errado: a educação.       .

Você já viveu alguma situação assim na pele, antes de se tornar cineasta? Eu nasci na ditadura, meus pais eram do movimento estudantil e meu pai foi um preso político, então cresci escutando histórias desse tempo e entendendo o privilégio de ter acesso a tudo. Quando acabou a ditadura, eu e meus amiguinhos do primeiro grau fundamos o primeiro grêmio estudantil da escola, o que foi muito forte para mim, mas logo depois tive um choque de realidade ao mudar para outra escola, no segundo grau, onde era proibido ter um grêmio. A ditadura ainda estava ali.

O filme também dá essa sensação de “choque de realidade”, ao encerrar com as eleições de 2018 e com uma declaração do novo presidente classificando as ocupações como “terrorismo”… Sabe, o filme teria estreado um pouco antes das eleições, mas ele simplesmente não ficava pronto. Faltava algo para fechar a história… Então, quando escutei a frase de Jair Bolsonaro falando que ia acabar com todas as formas de ativismo, fiquei pensando no que isso significaria para essa geração que despertou em 2013. Eu sei que é duro, é frustrante, mas essa é a realidade em que estamos agora. Esses meninos protagonizaram essas lutas e agora estão contando para as próximas gerações como foi sua experiência, porque o mundo que os jovens vão enfrentar agora é diferente do deles. Não estamos mais num governo que quer dar voz às minorias – que foi o governo em que esses estudantes foram alfabetizados e cresceram – mas sim num governo que quer “varrer”, em suas palavras, aqueles que lutam por uma sociedade mais igualitária.

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Considerando esse novo contexto, o que você pensa sobre o fim do Ministério da Cultura? Acha que vai afetar o cinema nacional? É óbvio que, quando você vê um governo assumindo e, no primeiro dia, extinguindo o Ministério da Cultura, é muito preocupante. E isso fala muito sobre o país. Uma das funções da cultura é deixar um registro histórico e fazer provocações sobre a sociedade e acho que extinguir o Ministério é uma tentativa de silenciamento dessa voz. E as mudanças já começaram há uns dois anos: desde a posse de Michel Temer, a Agência Nacional de Cinema (Ancine) já vem alterando a forma como se selecionam projetos. Antes, a relevância da obra, do tema, tinha um peso muito forte e isso vem gradualmente desaparecendo, priorizando cada vez mais uma pontuação econômica. Não me entenda mal: acho muito importante o Brasil ter comédia, ter sucesso de bilheteria, mas ter só isso é um problema. Porque a gente já viu como era o cinema quando era só assim e, quando era assim, não tínhamos doze filmes estreando no Festival de Berlim.

Você acha que os filmes que estão em Berlim têm um perfil mais subversivo? Se a gente observar os filmes deste ano, temos Marighella, que conta uma história silenciada de resistência, de luta… Temos um filme chamado Chão, que acompanha o Movimento dos Sem Terra, cujas ações são consideradas “invasões” pelo presidente, e temos o Espero Tua (Re)volta, que também aborda ocupações. E, pela primeira vez em sei lá quantos anos, a embaixada brasileira cancelou a festa que tradicionalmente faz para receber os cineastas. Isso é muito representativo. Para mim, esse cancelamento passa uma mensagem clara de que não se deseja a construção de uma história plural. Mas o governo deveria saber que, em geral, quando se reprime a cultura, o que a cultura faz é produzir mais ainda.

Quem vai assistir ao filme nas sessões do Festival? São adolescentes de 14 a 18 anos. Estamos numa mostra chamada Geração 14+, que é voltada para essa faixa etária e que tem um júri composto por jovens dessa idade, que entrega o Urso de Cristal. O mais interessante é que, a cada filme, o público é incentivado a escrever suas próprias críticas e é a partir delas que se escolhe o júri do ano seguinte.

E depois de Berlim? No primeiro semestre circularemos em festivais e, no segundo, o filme vai para os cinemas e para o canal pago GloboNews, que é parceiro da produção. Também queremos abrir a possibilidade de as pessoas organizarem suas próprias sessões e pensamos em fazer um produto específico para as escolas, um filme mais interativo. Isso, porém, é algo que me preocupa quando penso nas discussões sobre o (projeto de lei conhecido como) Escola Sem Partido… O que vai acontecer nas escolas quando há um movimento tão grande de proibir debates críticos? Isso me enche de angústia.

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