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Renata Lucas expõe obra na Documenta 13

Por Camila Molina

Kassel – Um simulacro em que Kassel é tomada por tempestades de areia. Mais ainda, uma obra formada por partes de pirâmides encravadas em porões e sótãos de edifícios: “Ontem, Areias Movediças”, que a artista brasileira Renata Lucas criou especialmente para a Documenta 13, a ser aberta no sábado para o público, é mais um de seus trabalhos conceituais que envolvem o espaço urbano e expositivo. Suas intervenções, à primeira vista estranhas, requerem a percepção de quem está desatento e desafiam o espectador. No caso desse projeto, ele se faz como que em simbiose com o tecido da cidade e sua história, guardando em camadas a potência da materialização poética e crítica de uma ação artística.

Sempre há algo de crítico nas obras de Renata. Numa descrição de seu trabalho para a Documenta 13, seis pontos com sinal gratuito de internet, delimitados por um quadrilátero no centro de Kassel abrangendo o porão do museu Fridericianum, o subsolo do prédio onde se hospedou a curadora da exposição, Carolyn Christov-Bakargiev – local era a antiga casa dos irmãos Grimm -, o piso inferior da loja de departamentos Kaufhof; e mais uma outra localidade da Friedrichsplatz, possibilitam aos visitantes capturar com telefones, tablets e computadores vídeos que a artista produziu usando imagens artificiais de locais da cidade alemã sendo invadida por tempestades de areia como as dos desertos. Renata usou o Photoshop e se apropriou de cenas da internet. Mais ainda, esculpiu em madeira e concreto o que seriam os fragmentos de uma pirâmide nos quatro pontos que formam o quadrilátero de sua ação.

“Escolhi a pirâmide por ser um elemento comum, mas ainda assim um sólido geométrico calculado matematicamente e comum a diversas culturas”, diz a artista. Mas há outros sentidos complexos por trás dessa escolha. “Além de qualquer aspecto místico intrínseco, a pirâmide faz referência à monumentalidade da Documenta, à mística da própria mostra, ao modo como as pessoas chegam em massa a Kassel atrás de um sinal”, conta ela. “Preferi buscar um símbolo para falar de uma história materializada no subsolo, do número de mortos e escondidos que caracteriza o subsolo da cidade como uma urbanização em paralelo.”

A artista faz menção, nesse sentido, à “indústria armamentista que sustenta a cidade ao mesmo tempo que alimenta os conflitos no Oriente Médio; à fantasia de uma cultura superior anciã; à própria fantasia delicada da curadoria ao ir buscar parceria com o Afeganistão e Egito; à fantasia comum em relação ao Oriente, ao exótico; às imagens facilmente recolhidas da internet e que você pode pegar e colar para construir ficções como provas da realidade nas telas de vigilância; aos processos migratórios e migrações de paisagem”.

A obra, assim, é um escopo de disparos contundentes de Renata Lucas. Quando passamos pelo porão do Fridericianum, por exemplo, não temos ideia de que aquele pedaço de uma base de pirâmide poderia abrigar tantas questões. Curiosamente, ainda, o título do projeto foi baseado em texto surrealista do escultor e pintor Alberto Giacometti.

Renata Lucas foi convidada em 2009 pela escritora e curadora Carolyn Christov-Bakargiev a participar da Documenta 13. Volta e meia, está escalada para as principais mostras de arte contemporânea, como a última Bienal de Istambul, a 53.ª Bienal de Veneza e a 27.ª Bienal de São Paulo, entre outras, além de ter recebido prêmios e residências no exterior. “Não há hierarquia, toda exposição é perturbadora e todo lugar tem assunto”, diz a artista.

“A Documenta é muito importante porque permite um tempo de pesquisa e reflexão maior, tem um time curatorial afiado e o artista também tem oportunidade de acompanhar o processo de outros artistas. Mas está longe de ser ideal com seus problemas de comunicação, autorização (restrições de segurança inviabilizaram vários trabalhos) e orçamento. Entretanto, a Documenta permite um certo afastamento que o circuito frenético de bienais e feiras já consumiu. Ela ocorre num lugar absolutamente inexpressivo, que literalmente ‘incorpora’ uma entidade que está fora do movimento local, e você precisa cavar fundo nesse falso contexto de mesmice e banalidade que é a cidade de Kassel para entender sobre o que esta urbanidade plácida está construída.” As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.