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Quando o medo está no ar

Há fantasmas deformados e tenebrosos em 'A Maldição da Residência Hill' — mas a série só triunfa por causa da sutileza com que cria sua atmosfera opressiva

Por Jerônimo Teixeira - 26 out 2018, 07h00

A carreira literária de Steven Crain (Michiel Huisman) patinava até ele lançar um livro contando a própria história. Mais velho de cinco irmãos, Steven, quando criança, passou um verão traumático em uma mansão rural nos arredores de Boston. Seus pais compraram o velho casarão para reformá-lo e revendê-lo. O que prometia ser bom negócio torna-se pesadelo. À noite, presenças sombrias arrastam-­se pelos corredores, ouvem-se batidas nas paredes, maçanetas giram sem que se saiba quem tenta abrir a porta. Embora ganhe dinheiro com histórias de fantasma, Steven acha que é tudo delírio, fruto de problemas mentais inscritos no DNA da família Crain. Como é habitual na ficção de terror, céticos como Steven estão sempre errados.

Todas as convenções das histórias de casa mal-assombrada batem ponto em A Maldição da Residência Hill, série em dez episódios da Netflix livremente baseada na ficção da americana Shirley Jackson. Mas o criador Mike Flanagan emprega esses clichês com sutileza rara. O espectador leva sustos pontuais com aparições de pescoço torcido e rosto cadavérico — mas o medo está sobretudo no ambiente soturno em que a família Crain vai se dissolvendo, até o aparente suicídio da mãe (Carla Gugino) e o consequente afastamento do pai (vivido, em diferentes idades, por Henry Thomas e Timothy Hutton). Com uma hábil alternância de planos temporais, diálogos poderosos e planos-sequência vertiginosos, a série só perde o impulso no capítulo final, demasiado explicativo. Ainda assim, sua sinistra atmosfera permanece na nossa sala mesmo depois de desligada a TV.

Publicado em VEJA de 31 de outubro de 2018, edição nº 2606

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