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Ponto-final

Com uma tensa e apimentada história policial ambientada no século XVIII, Alberto Mussa encerra seu extraordinário ciclo de romances policiais cariocas

Uma mulher misteriosa vem de uma visitação noturna ao cemitério quando, oculta pelas sombras do Rio de Janeiro no século XVIII, testemunha um crime: um homem tenta matar um rival, mas é desarmado e ferido pela própria pistola — morrerá dias depois. O início de A Biblioteca Elementar mantém em suspense a identidade da testemunha, do assassino e de sua vítima. Contra as convenções do gênero policial, no entanto, os três personagens já serão conhecidos quando ainda faltarem mais de 100 páginas para o fim do livro. Alberto Mussa, de 57 anos, mostra o domínio narrativo que o consagrou como um dos mais instigantes escritores brasileiros contemporâneos: prende o leitor com a apresentação gradual, finamente calculada, de cada personagem e evento da história.

‘A Biblioteca Elementar’, de Alberto Mussa (Record; 192 páginas; 37,90 reais ou 29,90 reais em versão digital)

‘A Biblioteca Elementar’, de Alberto Mussa (Record; 192 páginas; 37,90 reais ou 29,90 reais em versão digital) (//Divulgação)

Este é o último título de uma série de cinco romances nos quais o autor se propôs a fazer um “compêndio mítico” de seu Rio natal, sempre a partir de um crime — dos primórdios coloniais em A Primeira História do Mundo à Velha República em O Senhor do Lado Esquerdo. O conjunto oferece um panorama deslumbrante da história social carioca, com toda a vibração e conflito de suas diferentes etnias, classes, credos, e entre eles os mistérios que constituem a propalada matéria mítica, forjada no choque imaginativo de fé católica, lendas indígenas e religiões de matriz africana. A Biblioteca Elementar volta-se para o microcosmo dos ciganos, moradores da Rua do Egito (atual Rua da Carioca), onde se dá o crime. Há um misticismo natural em uma história frequentada por mulheres que leem cartas e a palma da mão, além de um erotismo talvez mais explícito do que nos demais livros da série. De quebra, o Santo Ofício lança sua sombra inquisitorial sobre os moradores da Rua do Egito.

Enganosa em seus avanços e recuos, a narrativa reserva uma revelação para as últimas páginas — uma revelação que surpreenderá o leitor, ainda que, à luz de vários indícios plantados ao longo do livro, possa parecer tão elementar quanto a biblioteca aludida no título. Um belíssimo ponto-final.

Publicado em VEJA de 10 de outubro de 2018, edição nº 2603