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Oscar 2014: boa safra de filmes divide favoritismo

Na competição mais acirrada da premiação em anos, matemático de Harvard lança mão dos números para tentar prever quem são os melhores da sétima arte

Por Raquel Carneiro - 2 mar 2014, 15h44

Assim como os bolões que antecedem a Copa do Mundo, tentar prever os vencedores da cerimônia do Oscar faz parte da rotina anual dos cinéfilos. A 86ª edição do prêmio, marcada para o dia 2 de março, em pleno fim de semana de Carnaval no Brasil, tornou a brincadeira mais interessante. Uma seleção de ótimas produções, que fogem da fórmula básica e conservadora da premiação – que tende a privilegiar histórias edificantes e épicas, e repelir produções autorais, assim como as de orçamento muito alto ou muito baixo – fez desta disputa a mais acirrada dos últimos anos, especialmente na categoria de melhor filme.

Os indicados ao prêmio mais importante da noite são as comédias amorais Trapaça, de David O. Russell, e O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese; a superprodução Gravidade, do diretor Alfonso Cuáron; os longas de baixo custo e alta voltagem emocional Clube de Compras Dallas, de Jean-Marc Vallée, e Nebraska, de Alexander Payne; os dramas 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen, e Philomena, de Stephen Frears; o romance futurista Ela, de Spike Jonze; e o thriller Capitão Phillips, de Paul Greengrass.

“Há tempos não víamos uma seleção tão boa, nenhuma concessão ao blockbuster, nenhum ponto fraco. O que deve resultar em uma festa mais disputada e interessante.”, diz Rubens Ewald Filho, crítico de cinema e apresentador da cerimônia no Brasil pelo canal TNT.

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A última vez que o prêmio viu uma disputa semelhante na categoria de melhor filme foi em 2002. Na época, estavam indicadas as produções Uma Mente Brilhante, de Ron Howard; Moulin Rouge: Amor em Vermelho, de Baz Luhrmann; Assassinato em Gosford Park, de Robert Altman; Entre Quatro Paredes, Todd Field; e O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel, de Peter Jackson. Os cinco selecionados dividiram opiniões. No fim, Uma Mente Brilhante levou a estatueta, juntamente com a de melhor atriz para Jennifer Connelly, melhor diretor e roteiro adaptado. O favoritismo foi pulverizado entre as produções por causa das premiações anteriores, caso do Bafta, que consagrou O Senhor dos Anéis, e o Producers Guild Awards Winners (PGA), prêmio do sindicato de produtores de Hollywood, que elegeu Moulin Rouge como o melhor naquele ano. No entanto, o longa de Howard levou a melhor no Globo de Ouro.

A trinca Globo de Ouro, Bafta e PGA é considerada um termômetro para a badalada cerimônia do cinema americano. Especialmente o PGA, que possui entre os votantes alguns membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, organizadora do Oscar. Para corroborar a concorrência apertada deste ano, o prêmio dos produtores viu um fato inédito acontecer na categoria de melhor filme: o empate entre Gravidade e 12 Anos de Escravidão. Um sinal de que tudo pode acontecer na noite de domingo.

Além do prêmio dos produtores, outros sindicatos como o dos roteiristas, atores e diretores costumam ter um peso relevante na hora de antecipar quem deve sair com a cobiçada estatueta do homenzinho nu dourado.

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Matemática do Oscar – De olho nesses termômetros, o estudante de Harvard Ben Zauzmer criou uma equação que o fez ganhar o apelido de “guru do Oscar”. Em 2012, ele acertou 75% dos vencedores, no ano seguinte foram 81%. A fama rendeu a Zauzmer o emprego de colunista na revista americana The Hollywood Reporter.

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“Para fazer as previsões matemáticas da festa, eu organizo as informações dos prêmios anteriores e dou pesos diferentes para cada cerimônia e categoria”, diz Zauzmer em entrevista ao site de VEJA. “Para a fórmula, uso variáveis como pontuações de críticos especializados, indicações em diferentes premiações e prêmios dos sindicatos. Quando aplico os dados ao modelo tenho a porcentagem dos vencedores.”

Apesar de ser confiante nos números, o matemático tem dúvidas de que seu modelo funcione este ano. Sua conta aponta Gravidade como o vencedor na categoria de melhor filme, aposta controversa já que nunca na história da premiação uma ficção científica levou o prêmio, e também por que estão no páreo os premiados 12 Anos de Escravidão e Trapaça.

Os longas de Steve McQueen e David O. Russell são os que possuem o maior número de indicações nos prêmios dos sindicatos, somados ao Globo de Ouro e ao Bafta. No entanto, Gravidade é o que mais tem vitórias, como revela o gráfico abaixo:

A boa safra deste ano indica não só um olhar mais apurado de Hollywood sobre as variadas produções lançadas em 2013, como também mostra uma reação da indústria cinematográfica ao sucesso da televisão, que nos últimos anos deu um salto de qualidade e popularidade, atraindo atores, diretores e roteiristas do cinema para seriados.

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Os votantes – Criado em 1920 pela Academia de Hollywood, o Oscar sustenta o título de premiação mais cobiçada e badalada do meio, não necessariamente a mais importante. Contudo, ter uma estatueta (ou apenas uma indicação) no currículo é sinônimo de validação e portas abertas. Os estúdios responsáveis pelos filmes celebram quando seus títulos entram na disputa. Além de ter uma produção gabaritada, o que dá cacife aos seus envolvidos, estar no Oscar faz com que os números em bilheteria aumentem antes e depois do prêmio, atraindo a curiosidade do público em torno da obra. No Brasil, a visibilidade destes longas interfere até mesmo em suas datas de estreia no país. Nos Estados Unidos eles são lançados no último trimestre, e por aqui entre janeiro e fevereiro. “As distribuidoras seguram as estreias no Brasil, pois indicações ao Oscar agregam valor à produção”, explica Cesar Silva, diretor geral da distribuidora Paramount no Brasil.

Para entrar na disputa do Oscar – e para sair com um prêmio na mão -, os filmes precisam passar pelo crivo dos membros votantes da Academia. O grupo conta com 6.028 profissionais, todos convidados pela instituição. Para ter o poder de voto na premiação, eles devem pagar uma anuidade de 250 dólares. É possível saber quem são os profissionais da área que já foram convidados para fazer parte da patota da Academia, porém não se tem disponível uma lista completa e oficial dos membros ativos, com a anuidade em dia. Caso do diretor brasileiro Fernando Meirelles, indicado por Cidade de Deus, em 2004, que parou de pagar a taxa e não tem mais o direito de votar.

O perfil desses membros ativos é o que define os vencedores do Oscar. O pouco que se sabe deles é que são compostos por uma maioria de homens, brancos e acima dos 50 anos. “O aspecto conservador dos membros da Academia deve ser levado em conta na hora de prever os possíveis vencedores. No caso, um dos favoritos é 12 Anos de Escravidão, um filme normal, que não merece o prêmio principal, mas que explora a culpa que os americanos sentem pelas atrocidades da escravidão”, diz Hugo de Almeida Harris, professor de Cinema da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). “O longa também é um drama violento, que não exige muito do espectador, diferentemente de Gravidade. Por isso 12 Anos tem grandes chances de ganhar, mesmo sem merecer.”

Os outros – Já nas categorias de atuação, as dúvidas são menores. Cate Blanchett é favorita absoluta ao prêmio de melhor atriz por Blue Jasmine. O mesmo para Jared Leto, por Clube de Compras Dallas, na categoria de melhor ator coadjuvante. Ambos ganharam todos os prêmios de atuação até agora e são apontados como vitórias certas no domingo. Já entre os atores e as atrizes coadjuvantes, a disputa está mais acirrada. Jennifer Lawrence (Trapaça) e a estreante Lupita Nyong’o (12 Anos de Escravidão) são as mais prováveis para levar o prêmio de coadjuvante. Enquanto Matthew McConaughey (Clube de Compras Dallas) e Leonardo DiCaprio (O Lobo de Wall Street) protagonizam a disputa mais esperada da noite na categoria de melhor ator. Sendo Jennifer e McConaughey as principais apostas do matemático Zauzmer.

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E se Gravidade não levar o prêmio de melhor filme, Zauzmer garante que o mexicano Alfonso Cuáron deve levar para casa a estatueta de diretor. Um prêmio de consolação que provavelmente virá junto com outros técnicos, como os de efeitos especiais e edição de som.

Enquanto isso, o que resta aos fãs e apostadores é esperar pela cerimônia, que vai ao ar em terras brasileiras, ao vivo, pela TNT, a partir das 20h30 no domingo. Na TV aberta, a rede Globo exibirá uma versão editada do prêmio na tarde do dia seguinte, 3 de março, após o Compacto dos Desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. A emissora, detentora dos direitos da festa no Brasil, preferiu levar ao ar o desfile de Carnaval do Rio de Janeiro, que acontece no mesmo horário da premiação.

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