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Os obstáculos à pesquisa de imagens – e à memória do país

Demanda por trabalho de pesquisadores cresce, mas infraestrutura dos acervos ainda ainda não corresponde. Gargalo é maior na Cinemateca Brasileira

Por Carol Nogueira - Atualizado em 10 dez 2018, 10h53 - Publicado em 24 nov 2012, 07h13

Detentora do maior acervo audiovisual do país – há tanto material que, recentemente, foi construída uma unidade na Vila Leopoldina para abrigar uma parte dele -, a Cinemateca é alvo de inúmeras reclamações. Os pesquisadores se queixam da falta de funcionários para atendê-los, da morosidade na resolução dos pedidos e da falta de materiais importantes para consulta

A Música segundo Tom Jobim, Tropicália, Raul – O Início, o Fim e o Meio, Marighella, Gonzaga – De Pai pra Filho, Hélio Oiticica… Esses são apenas alguns títulos de filmes lançados em 2012 que têm um ponto crucial em comum. São longas que, para contar a história de personagens importantíssimos para a cultura brasileira, dependem totalmente de imagens de arquivos. E penam por isso. Profissionais cujo trabalho feito nos bastidores permanece incógnito para quem não faz parte da indústria cinematográfica, os pesquisadores audiovisuais sofrem para obter reconhecimento em um país que ainda engatinha na preservação da própria história.

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Nos últimos meses, a procura por imagens de arquivo para produções cinematográficas tem crescido exponencialmente. O principal motivo é a nova lei da TV paga, pela qual os canais fechados são obrigados a exibir uma cota de atrações brasileiras, o que faz com que aumente a demanda por esses produtos. “O Brasil sempre teve gosto por falar da própria história. Hoje, talvez seja um dos países que mais faz documentários”, diz o pesquisador carioca Antônio Venâncio, pioneiro nessa área no país. E, com a proximidade da Copa do Mundo de 2014, que será realizada em terras brasileiras, a tendência é que essa procura cresça ainda mais, já que o país estará no centro do evento e deve se tornar pauta para novos filmes e documentários.

Projetos, no entanto, esbarram na dificuldade de encontrar boas imagens de arquivo no Brasil – mesmo aquelas que retratam o próprio país. “Tudo é mais fácil, mais rápido e até mais barato no exterior”, diz Venâncio. “No Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, é tudo complicado. É aquela mentalidade de funcionário público.” Para ele, o país deveria facilitar o acesso a imagens de arquivo e, assim, tornar de conhecimento público a história do país. A paulista Eloá Chouzal, que coordenou a pesquisa de Tropicália, concorda. “Fora do Brasil, em lugares como a Cinemateca Francesa, você acha imagens incríveis, que a gente nem sonha existir.”

Raul Seixas e o amigo Claudio Roberto em imagem de arquivo usada em cena do filme 'Raul - O Início, o Fim e o Meio'
Raul Seixas e o amigo Claudio Roberto em imagem de arquivo usada em cena do filme ‘Raul – O Início, o Fim e o Meio’ VEJA

O licenciamento de imagens, parte do trabalho do pesquisador, também tem sido trabalhoso. Para o carioca Remier Lion, 41 anos, 20 deles atuando pela preservação da memória em lugares como a Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, os estúdios Cinédia e a Cinemateca Brasileira, a falta de estrutura se deve à profissionalização recente do setor. “Antigamente, a pesquisa era feita pelo diretor do filme. Com o crescimento dos acervos, começaram a surgir profissionais especializados, que ainda são poucos”, afirma ele, que neste ano fez pesquisa para seus dois primeiros trabalhos em filmes, Raul e Marighella, dirigidos, respectivamente, por Walter Carvalho e Isa Grinspum Ferraz.

Obstáculos – O maior problema enfrentado pelos acervos do país é que, até pouco tempo, não havia um lugar com as condições adequadas para preservar filmes. Há pouco mais de dez anos, esse serviço começou a ser prestado pela Cinemateca Brasileira, no bairro da Vila Mariana, em São Paulo (foto abaixo), que hoje conta com salas climatizadas. Antes disso, porém, muita coisa se perdeu.

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Como mostra o documentário Dino Cazzola – Uma Filmografia de Brasília (veja trecho abaixo), de Andrea Prates e Cleisson Vidal, que estreia na próxima sexta-feira com imagens dos primeiros anos do distrito federal feitas pelo cinegrafista e produtor italiano, esse tipo de conservação é essencial para preservar os acervos e a história.

Outra dificuldade em que esbarram os pesquisadores de imagens é a demora na digitalização dos acervos. “Preservar é o trabalho primordial, porque se trata da memória do país”, diz Sergio Burgi, coordenador do acervo de fotografia do Instituto Moreira Salles, detentor de coleções importantes como a do pesquisador musical Tinhorão. Segundo Burgi, o IMS tem hoje 5.000 imagens digitalizadas, e espera ter, até o fim de 2013, seis vezes mais.

Cinemateca Brasileira – Detentora do maior acervo audiovisual do país – há tanto material que, recentemente, foi construída uma unidade na Vila Leopoldina para abrigar uma parte dele -, a Cinemateca é alvo de inúmeras reclamações. Os pesquisadores se queixam da falta de funcionários para atendê-los, da morosidade na resolução dos pedidos e da falta de materiais importantes para consulta, como o acervo da TV Tupi (composto por cerca de 200.000 reportagens), único registro televisivo do país nos anos 1950 e 60, e do cinejornal Canal 100, maior arquivo do futebol brasileiro. O diretor da Cinemateca, Carlos Magalhães, se defende dizendo que disponibilizar esses acervos é um trabalho “maluco”.

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“Recebemos 9.000 latas de filme do Canal 100. Assistir a tudo isso e digitalizar dá trabalho. Algumas imagens precisam ser tratadas, outras estão perdidas. Isso precisaria ser feito por mais de um profissional”, diz, entregando um dos principais problemas da instituição: a falta de mão-de-obra. Há apenas 34 pessoas contratadas para trabalhar na catalogação e digitalização do acervo. E só duas delas – sim, 2 – atendem às pesquisas solicitadas não somente por brasileiros, mas por profissionais do mundo inteiro. A título de comparação, a Biblioteca Nacional tem 98 funcionários, o IMS tem 16, e o Arquivo Nacional, 12. “Eles encastelam os acervos”, diz a paulista Eloá Chouzal, de Tropicália.

Para o carioca Antônio Venâncio, o problema da Cinemateca é a falta de verba. “Como tudo relacionado à cultura no país, ela tem um orçamento muito baixo.” Já Eloá é mais dura na avaliação. “Eles não têm uma tabela fixa de preços, como os outros, e cobram muito caro pela reprodução dos materiais. A Cinemateca chega a pedir cerca de 3.000 reais por 2 segundos de filme, mesmo sendo uma fundação do governo, paga com os nossos impostos.” Segundo ela, o Arquivo Nacional cobra muito menos, uma média de 100 reais por minuto, por materiais que, muitas vezes, têm a mesma origem dos que estão na Cinemateca.

Carlos Magalhães afirma que a fundação tem, sim, uma tabela fixa de preços, mas não soube informá-los. Diz ainda que alguns preços podem variar, porque dependem dos valores estipulados pelos detentores dos direitos de imagem. No entanto, reconhece que a instituição poderia ter um orçamento e quadro de funcionários maiores. “No Instituto Nacional do Audiovisual da França, eles têm mil funcionários e um orçamento de milhões de euros por ano. Recentemente, recebemos a visita da nova ministra, Marta Suplicy. Ela prometeu ajudar.”

A Cinemateca Brasileira, alvo de polêmicas
A Cinemateca Brasileira, alvo de polêmicas VEJA

Abaixo-assinado – Em maio de 2010, um abaixo-assinado reuniu assinaturas de representantes da indústria cinematográfica – entre eles, os diretores Fernando Meirelles, Lírio Ferreira e Carlos Alberto Riccelli – para pedir a solução dos problemas da Cinemateca. A fundação chegou a convocar uma reunião que no entanto, segundo Eloá, aconteceu no meio de um feriado e teve poucos convidados. Ela mesma não pôde ir, mas Venâncio esteve presente. “Fui quase massacrado lá, porque quase só havia políticos.”

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Depois da reunião, dizem os pesquisadores, a Cinemateca fez algumas poucas melhorias, como a contratação de uma nova pessoa para o atendimento – sim, antes havia um único profissional em pesquisa. “Na época, o Gustavo Dahl (então gerente do Audiovisual no MinC) se propôs a ajudar nas melhorias, mas com a morte dele, em 2011, ficamos sem interlocutor”, conta Eloá. “Não estamos deixando de reconhecer o que a Cinemateca fez pela preservação dos filmes nos últimos dez anos, que é impressionante. Só que, a partir do momento em que você compra um acervo, tem de disponibilizá-lo”, diz Venâncio.

Para Magalhães, a função primordial da Cinemateca é preservar os acervos. Disponibilizá-los vem em segundo plano. “A Cinemateca não é balcão de atendimento para produtores de cinema. O uso comercial não é nossa prioridade. Mas isso não quer dizer que ele não seja importante. Essas pesquisas enriquecem nosso acervo e aumentam o número de materiais processados”, diz. Ele faz ainda uma ressalva, alegando que o manuseio de materiais pode danificá-los.

A questão, infelizmente, ainda parece longe de uma solução. Pena — para o cinema e para o país.

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