O último subversivo

Em 'A Casa que Jack Construiu', Lars von Trier faz, à sua maneira confrontadora, uma defesa da sua obra testando até o limite a resistência da plateia 

Por Isabela Boscov - 26 out 2018, 07h00

De uns tempos para cá, virou moda execrar Lars von Trier: ele seria nazista, ou misógino, ou pervertido, ou simplesmente detestável. Foi abrupta a passagem de Trier, hoje com 62 anos, de cineasta celebrado pela intelligentsia a objeto de repúdio de parte considerável da mesma. Começou com a piada infeliz dele numa entrevista coletiva em Cannes, em 2011, de que “compreendia Hitler” (ele diz ser excitável e irrefletido nesse tipo de situação). Agravou-se com seus filmes de 2013, Ninfomaníaca: Volume 1 e Volume 2, tomados ao pé da letra de seu título provocativo e muito mais falados do que vistos (de outra maneira, possivelmente se reconheceria neles a intensidade do espírito inquisitivo que move Trier, e não se falaria das cenas acachapantes de sexo e flagelação como se fossem fatos isolados). E completou-se neste ano, com as sessões no Festival de Cannes de A Casa que Jack Construiu (The House that Jack Built, Dinamarca/Suécia/Alemanha/França, 2018), ruidosamente abandonadas por um contingente de críticos enojados com os extremos a que o dinamarquês pode chegar.

A Casa que Jack Construiu entra em cartaz no Brasil nesta quinta-feira e, a quem interessar possa (e, sim, a quem suportar os extremos de Trier), sugere-se assistir ao filme de forma tão desarmada quanto possível. Jack, interpretado por Matt Dillon com uma inspiração que havia tempo não se detectava nele, é um serial killer que narra a um certo Verge — a voz é do suíço Bruno Ganz — cinco episódios aleatórios de sua carreira homicida, ocorridos num espaço de doze anos, para assim ilustrar suas aspirações, obsessões e racionalizações. A violência é terrível, e terrivelmente gráfica. Não raro, também, adquire um desconcertante viés cômico. No primeiro episódio, por exemplo, Uma Thurman faz uma mulher muito folgada, que obriga Jack a lhe dar carona para lá e para cá, e então desdenha da docilidade dele. Quando Jack perde o controle e revida, é quase inevitável: a plateia cai na gargalhada com o inesperado da sua reação. As risadas correm soltas também quando, por causa de seu transtorno obsessivo-compulsivo, Jack retorna vezes seguidas a uma cena de crime, para limpá-la de imaginários respingos de sangue.

Engenheiro de formação e estudioso da arquitetura, Jack perora sobre esses temas e também sobre gênio, arte e o poder icônico de certas criações (entre as quais inclui as pilhas de cadáveres nos campos de extermínio nazistas). Suas preleções vêm intercaladas de filmetes do excêntrico Glenn Gould ao piano, ou imagens do arquiteto Albert Speer em reunião com Adolf Hitler — ou, ainda, de flashbacks do pequeno Jack, que, numa cena, horroriza o espectador mutilando um patinho. O diretor não dá ponto sem nó. A essa altura, já se viram dois assassinatos medonhos, mas Trier sabe que, com o patinho, vai apresentar um paradoxo moral: é provável que, instintivamente, o choque da crueldade com o animal seja maior que o da morte de dois seres humanos. (Os três episódios seguintes, entretanto, verdadeiramente testam os limites da plateia.)

“Verge” não é outro que não o poeta romano Virgílio (70 a.C.-19 a.C.), que, na Divina Comédia, de Dante Alighieri, serve como guia do poeta italiano pelo Inferno e pelo Purgatório. Enquanto Verge conduz Jack pelos círculos do Inferno, o protagonista argumenta que, primeiro, necessitava matar para aliviar suas aflições psíquicas. Segundo, diz ele, seus crimes são criações artísticas da mais alta ordem, já que instigam, perscrutam, investigam e buscam a transcendência tanto quanto qualquer outra forma de arte.

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Como sempre, portanto, o protagonista é um porta-voz do próprio Trier, que, desde Anticristo (2009), e prosseguindo com Melancolia (2011) e os dois Ninfomaníaca, vem fazendo de sua depressão e das outras idiossincrasias de sua personalidade a matéria-­prima de seu trabalho. A Casa que Jack Construiu, assim, é a defesa de Trier de sua obra, com tudo o que alguns enxergam nela de depravação, sadismo, misoginia e manipulação. Pode até ser que essa obra o condene a uma espécie de inferno da opinião pública, admite o cineasta. Mas, por uma questão de honestidade irredutível acerca das vicissitudes humanas que a correção política busca encobrir, ele está disposto a pagar — ou filmar — para ver.

Publicado em VEJA de 31 de outubro de 2018, edição nº 2606

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